Eu não mereço nada de bom

Li um livro sobre isso esses dias e esse tema é algo que venho tentando trabalhar há algum tempo. É mais fácil pra mim ao menos ‘resolver esse problema’ quando o observo nos outros, mas em mim parece impossível. Sei que não é impossível e também sei que devo ser persistente. Os fatores que me fazem acreditar que eu não mereço nada de bom são três: culpa, medo e depressão. De todos, acho que o que mais pesa pra mim mesmo é a culpa, cultivada por cerca de 25 anos. Talvez mais.

Por conta desta culpa, me encho de privações, com obstáculos que parecem intransponíveis. “Não tenho tempo para mim”, “Gosto disso, mas não vale a pena”, “Se eu tentar acho que não vou conseguir”. Ainda falo muito disso, mas tenho me esforçado para dizer cada vez menos. O que mais vejo nos outros são os tais “não tenho capacidade pra isso” ou “eu sou pobre, fudida, não tenho dinheiro”. Conheço bastante bem esse tipinho “ai coitadinha de mim, tenha dó de mim por favor”. Geralmente não é incapacidade e nem falta de grana porra nenhuma, é culpa mesmo. Porque a culpa sempre vai estar lá pra te pôr um impedimento para que você NUNCA realize o que quer.

A auto-censura também é comum. Auto-censura seguida de um auto-depreciamento bastante atroz. “Por que caralhos eu fiz isso? Deveria mesmo ter feito? Eu sou mesmo uma imbecil”. E é daí pra baixo. É nojento perceber a forma que eu me trato tão mal. E isso tudo é fruto de um pensamento (que foi criado, ao longo dos anos) rígido e restrito, como se existissem certas “normas” que eu mesma inventei e que preciso seguir mas que, paradoxalmente, com as quais não posso viver pois são impossíveis de atingir. Sim, parece coisa de maluco, mas é mais comum do que imaginamos… Como consequência, a culpa que eu sinto por qualquer pouca bosta é contínua.

“Eu não mereço nada de bom” é minha armadilha mental favorita.

Sempre me coloco em um lugar desfavorável ou pior ainda: simplesmente NÃO me coloco, como se eu não existisse. Isso é MUITO típico.

Timidez meu cu: a minha vida é praticamente um auto-palmface contínuo duplo carpado porque eu não tenho culhão de assumir a mim mesma. Pronto, falei.

É claro que essas culpas foram cultivadas às vezes por desgraças que aconteceram e não tiveram nada a ver comigo e outras foram por pura escrotice alheia mesmo. Me criei ouvindo “está bom, mas não é o suficiente”, “fez bem, mas isso não é mais que a sua obrigação”, “você veio agora, mas poderia ter vindo antes” entre outras coisas bem piores, como se matar ajudando alguém e nem sequer ser reconhecida, nem ouvir um “obrigado”, nem nada. E isso ocorreu por anos, so… You do the math. E como tive que conviver com toda essa carga, toda essa imensa impossibilidade de atingir expectativas, a manipulação para que eu permanecesse me sentindo culpada foi bem longeva.. Pois bem.

Observando outras pessoas (mas essas frases geralmente não me atingem nem comovem) o que mais vejo por aí é gente se afetando por conta de frases como “a minha dor é maior que a sua”, “sou mais fudida que você, não fui privilegiada como você é”, “você não faz ideia de como me sinto” entre outras chantagens emocionais baratas que eu não compro nem a caralho. Sem contar a vencedora de Oscar, mais direta impossível “você é a razão da minha desgraça e é responsável pelo que eu fiz”. Essas diretas eu sabia identificar, mas das indiretas infelizmente nunca pude me defender… Mas isso está mudando.

Parece que existem duas formas de se livrar da culpa. Ou melhor, existem dois tipos de culpa das quais podemos nos livrar: a culpa real e a culpa imaginária. Como se livrar da culpa real, quando realmente fazemos merda? Assumindo a merda e pedindo desculpas, oras. “Desculpa, fiz merda e isso é o que tem pra hoje”. Como se livrar da culpa imaginária? As dicas são três: 1. Saber dizer ‘não’ mais frequentemente (já que eu nunca consigo alcançar suas expectativas, quem sabe eu dizendo NÃO você pára de encher a porra do meu saco – é o que eu mais tenho tentado empreender); 2. Saber que você não é responsável pela miséria e decisões de outras pessoas; 3. Identificar e afastar-se de gente que te manipula através da culpa;

Outra coisa que é difícil de conviver é com o tal do erro, com erros no geral. É justamente aí que eu deveria dizer “errei, desculpa, deu merda, ok, vamos tentar consertar, bora botar pra frente” ao invés de ficar me achando uma bosta e me autodegradando inutilmente. O foda é que quando percebo que errei algo eu meio que “travo” (dou tilt) e demoro pra reaver tudo. Sim, eu não sou nada resiliente. Sim, eu fico remoendo a porra do erro. E sei que isso é ruim, mas já está em observação. Esse livro tem um bom lema pra isso, pra aprender melhor a lidar com o erro: “aprendo a lição, esqueço os detalhes e sigo em frente”. Também dá dicas de possíveis soluções pra você não ficar insistentemente se colocando na merda o tempo todo:

– Pensar, seriamente, no ‘eu ideal’ (nas coisas que vc quer realizar, no que você quer ser quando crescer, no que você sonha) e em estratégias para atingi-lo (mesmo que tenha que começar do zero);
– Ter pensamento orientado para mudança, ou seja, simplesmente abster-se do pensamento nocivo “ou tudo ou nada” (é, isso é difícil);
– Ter boas relações com a maior quantidade de gente possível;
– Viver com paixão (Raro. Raríssimo. O mais difícil de se conseguir, eu diria);

A Bottom line do capítulo todo é basicamente esta: keep starving, keep searching. Exercer melhoria continua referente à todas essas merdas que te puxam pra um lugar em que você não merece estar. Um lugar que não é a vida, o acaso, o destino, os outros que te colocam, mas que você mesmo se coloca. Não renunciar à esta melhoria, não renunciar à quem se é e principalmente não renunciar às coisas que se sonha ou que algum dia já se sonhou. Enfim, é dar finalmente uma chance a si mesmo. Ok: é dar várias chances a si mesmo…

Ok:

É dar a si mesmo o mundo.

(Ei, eu tenho mesmo melhorado com isso…)

STAMATEAS, Bernardo. Armadilha #9 “Eu não mereço”. In: Autossabotagem: reconheça e mude as atitudes que você toma contra si mesmo. São Paulo: Academia de Inteligência, 2009. 189 p.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: