O mito da masculinidade

A agressão masculina, sob a forma que assume atualmente, provém desse mal de amor, gerado pela percepção de que entre os pais há pouco prazer, cumplicidade, amor e investimento. Nesse contexto, as crianças crescem contemplando uma “primeira sociedade” onde as trocas amorosas, a preservação e a ênfase nos vínculos afetivos são desvalorizados e substituídos por um contrato moral que nasceu para ser burlado. Os futuros vínculos sociais entre criança e mundo tenderão a carregar e a repetir a mesma dinâmica vivenciada entre ela e os pais, na qual ela, como objeto de desejo dos pais, contempla a agressão, o individualismo e a falta de compreensão. A criança é levada a acreditar que uma relação que não deu certo é a mais importante e verdadeira para ela. A criança precisa negar suas próprias percepções para, a partir daí, acreditar que a família é um bem em si. Do mesmo modo, para o soldado, a guerra é um fato cujas justificativas, irracionais e contraditórias, transformam em crença. Para enfrentar a guerra, o soldado tem que acreditar no que lhe disseram a respeito dela, para que sob esta ilusão consiga lutar. É necessário que ele delire, e será a força deste delírio que o fará com que dispare o fuzil. É preciso que ele não ouça suas entranhas para que desta agressão para consigo ele possa transformar-se em agressor.

Considerando a presença das guerras na história humana, podemos pensar que talvez elas carreguem algum outro significado, que expressem uma dimensão do universo masculino que os próprios homens não conseguiram ainda identificar. Em última instância, as guerras põem os homens em contato com uma dimensão irracional deles mesmos. Para isso é necessário que o outro não seja simplesmente o representante da diferença, mas um inimigo, alguém que ocupe um lugar na cena imaginária masculina que gere temor de aniquilamento. Crer nisto já é suficiente para a justificativa de um exército. A fantasia do aniquilamento pode se tornar de fato um aniquilamento. (p. 76-77)

Александр Лебедев-Фронтов

Meine liebe ist mein größter feind,
und ich kann mich nicht wehren,
sie reißt alles an sich,
mein herz ist wund, mein herz es fühlt sich leer

meine liebe ist mein albtraum,
ich kann mich nicht von ihr befreien,
vielleicht kann ich sie vergessen,
und eines tages ihr verzeihn

(Northern Lite, Enemy)

 A guerra encarna para os homens uma paixão não dissolvida, que pulsa em suas entranhas, faz mover seus corpos e mentes e agita seus corações. Por outro lado, se ela amolece seus corações, viabiliza o contato com a dor, com o medo e a perda, a vulnerabilidade e o risco, pontos que habitualmente os homens não estão acostumados a experimentar. Ela cumpre o papel de favorecer o elemento físico e afetivo entre os homens, mesmo que seja para defender-se, matar ou morrer. É só a partir de um inimigo comum que os homens se permitem reconhecer o que sentem um pelos outros; é preciso um campo de batalha definido por razões suficientemente “racionais” para que possam sentir o que dificilmente sentiriam em outras condições. Quanto mais morto afetivamente está um indivíduo, mais ele precisa dilacerar, ferir e destruir para se sentir vivo. Nas cenas finais do filme Blade Runner (direção de Ridley Scott, 1982), o andróide, pouco antes de morrer, fere propositalmente o corpo para sentir dor. Esta seria a informação de que precisava para se sentir vivo, a dor naquele momento chegava até seu coração e alavancava a paixão que ele desenvolvera pela vida. Uma paixão reclusa, exilada na razão por que ele fora criado: guerrear, combater e eliminar. (p. 79)

Por outro lado, a entrega nos põe em ruelas escuras e tortuosas, as quais teremos que nomear, e nas quais teremos que caminhar. Para quem se entrega, não há garantias, senão a de se permitir viver o que a vida oferece, à revelia de suas próprias expectativas. O desejo pulsa e se refaz a cada contato com o que o outro pode suscitar: gozo, angústia ou frustração. Ao entregar-se, um homem avança por sobre um fino papel-arroz. Assim, a entrega permite ao homem o aprendizado da arte de se deslocar por intermédio dos próprios desejos, conduzido com suavidade e destreza, serenidade e transformação, marcando a trilha de seu destino, que jamais será igual ao de um outro. A experiência da entrega remete os homens ao exercício da solidão, já que é só se sabendo só que ele poderá viver a aventura do encontro.

Da maneira como foram concebidos, os homens estão privados de viver qualquer dos aspectos mencionados anteriormente. Sexualizando a tudo e a todos, não há nenhuma outra porta para sair e respirar fora das fronteiras masculinas definidas como convencionalmente são.

A entrega suscita nos homens um sentimento de vulnerabilidade e fragilidade com o qual têm dificuldade de lidar. O desconforto gerado por esta situação procede primeiramente do deslocamento do lugar de controle e do distanciamento a que ficam habitualmente referidos no plano afetivo. Ao sair deste lugar, os homens entram numa dissonância interna em que vigora o temor do aniquilamento. Este temor ronda, desde a infância, todo o processo de construção da identidade masculina, e aparece travestido nos olhares vigilantes dos pais e do grupo social.

A cada possibilidade de entrega afetiva fora dos confins da família, uma dúvida é lançada sobre o comportamento dos meninos: estarão se comportando como homens? (p. 111)

Os homens que se privam de viver os sabores e dissabores da vida amorosa tendem a travar um duelo com eles próprios, e para aplacá-lo nada resta senão alienar-se de sua condição afetiva. (p. 113)

NOLASCO, Sócrates. O mito da masculinidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. 187 p.

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