O limite

Nasci uma limitação, sou uma limitação viva, um limite para uma mulher. Represento isso. Antes de mim, um homem, uma sociedade inteira, um mundo. Devia ser opressor: dançar é pra putas e você nunca vai fazer isso sob o meu teto. Ela então teve que agir de modos escusos pra ser. Um casamento como fuga, uma fuga para libertação, para ser quem deveria ser, quem queria ser, para crescer, para tornar-se. Impossível culpá-la. Todo um império foi construído, ano após ano, luta após luta, tudo tinha seu tempo e tudo florescia até que surge a provação maior e a prova maior de incapacidade: “você não pode ser mulher”. O primeiro ‘não’ foi do outro, o segundo, da vida. Foi negado, novamente, o poder de ser mulher.

Sou a representação física de provavelmente inúmeras lembranças dolorosas, mais antigas do que eu mesma e que até então desconheço completamente. Gostaria que fosse simples me abster de culpa e tratar do assunto como se não fosse comigo. No entanto arrefeço simplesmente ao pensar no quão doloroso pode ter sido isso tudo, todos estes mundos, todas estas situaçoes que não me dizem respeito em absoluto. Sou empática a este ponto. De qualquer modo, jamais conseguirei deixar de me prestar ao meu papel: ‘você testa meus limites constante e continuamente’. Na mesa de jantar, sou sempre eu a dizer, polidamente, ‘não concordo com você’, ‘você está errada’, ‘não acho que as coisas sejam assim’. Sempre uma desobediência – mas dentro dos limites que me cerceavam.

E os limites que me eram impostos foram os mesmos dos quais se pretendia fugir. Nunca me foi permitido, em vários momentos, um reconhecimento como mulher, da infância até quase a idade adulta. Tudo relativo à isso especificamente, me foi negado, a vida inteira. E me é negado, até hoje na verdade – mas em parte a culpa é minha, busco nos lugares errados, nos relacionamentos errados, nas situações erradas, com as pessoas erradas. Tudo acaba por se justificar nisso: o interesse por pesquisa, por padrões, por aprofundamento, pela conceitualização e formação de uma identidade inexistente, que não é nenhuma, que são várias, que são frutos do acaso. Busco por esta mulher, por estas mulheres, que me foram negadas, constantemente, a vida inteira.

Busco por esta dor, passada de uma geração para a outra.

Busco pelo que nunca tive, pelo que jamais terei e pelo que hoje, suspeito que nem mesmo exista – ou, se existe, simplesmente não é para mim.

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