o czar e a czarina

Tenho um encontro amanhã, horário e local marcados. Estou com medo e não quero ir. Semana passada inventei alguma desculpa e disse que não iria na outra semana pois não tinha certeza do que aconteceria comigo, que talvez o horário tivesse que mudar ou alguma coisa do tipo. Dei uma desculpa e disse que ligaria pra confirmar qualquer coisa. Não liguei, nem confirmei. Penso que talvez eu devesse tentar um pouco mais, que talvez eu devesse – ironicamente – ser paciente, alguma coisa assim. Fiz rodeios pra falar sobre o que realmente está acontecendo. ‘Sabe como é, a história é muito comprida e não vou conseguir falar sobre tudo hoje’. Não houve dúvida: ‘Por que você não quer falar sobre isso?’. Depois desta frase sabia que precisava retornar, sei disso. Ainda não sei o que fazer. Talvez vá. Vai depender do meu dia. Talvez seja melhor eu ir independente de qualquer coisa.

[…]

Existiram mentiras boas este ano. Ainda não sei lidar com elas e me sinto uma idiota por não ser filha da puta o suficiente e desconfiar absolutamente de todo mundo. Na verdade acho que a frustração existe porque raramente penso em como enganar alguém e nunca enganei alguém (que não seja eu mesma) efetivamente. Mentir requere treinamento e prática, coisas que não tenho muito. Saí com o czar e a czarina e ofereci a eles um panorama de quase tudo o que está acontecendo. Ganhei conversas, risadas, lembranças e presentes simbólicos e inesperados: um pequeno perfume, uma mini-lâmpada de leds e um mini-globo. Beleza, verdade e significado em pequenas doses (as melhores, as que matam, etc.). ‘Agora posso dizer à todos que vocês me deram o mundo’. Os amei naquele momento.

Emocionalmente, penso que sou uma exagerada minimalista com fortes – fortíssimas – tendências platônicas, quase totalitárias. Acredito, cada vez mais, que só sou capaz de amar – e permanecer amando – quem seja capaz de me oferecer (ou quem já tenha me oferecido) o mundo, mesmo que simbolicamente. ‘Não quero muito, quero apenas isso: tudo’. Parece um tudo-ou-nada, parece pesado, mas na verdade não é. Geralmente amo quem seja capaz de me oferecer algo que seja absolutamente externo a mim e a si próprio, algo que seja completamente alheio ao próprio relacionamento. Algo que necessariamente extrapole todas essas coisas cotidianas, a tudo que é ordinário demais. É um amor amorfo, imensurável, quase inexistente. É algo nosso que não é nosso e que jamais vai ser. Existe a honestidade de, desde o início, sabermos que trata-se apenas de mais uma história que se repete, igual a todas as outras. Não existem pretensões de nada e para nada.

O czar e a czarina não me tratam como se eu fosse digna de ter o mundo, mas me tratam como se eu já o tivesse. Não existe patronização, não me sinto em um desnível em relação a eles. Não existem exigências, nem cobranças, não há pressão ou repressão: simplesmente me sinto confortável o suficiente. O suficiente, mas nunca o bastante. Como algo que nunca vou alcançar e que nunca vai se completar, como uma busca que se promete eterna. Essa incompletude é na verdade generosidade. E hoje em dia este gesto raro parece inexistir em praticamente qualquer lugar que se vá, em qualquer grupo que se queira fazer parte, em qualquer relacionamento que se pretenda. Independente de nossa diferença de idade o que importa é que me sinto tratada de de igual pra igual, como se eu já conhecesse tudo o que eles conhecem e jamais como se o mundo ainda estivesse a minha espera e como se eu ainda tivesse muito por viver.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: