Nós

A gente nunca sabe como isso tudo começou. E só percebemos o problema quando ele emperra um outro processo ao qual estamos nos dedicando. Aí é preciso parar tudo e aprender a desatar. Certa vez, me falha a memória e não lembro onde, compararam o ato de traduzir textos com o de desemaranhar um nó. É parecido e também requer paciência. Mas não quero tratar sobre tradução agora.

O desatar de hoje demorou cerca de duas horas e meia. Sim, perdi duas horas e meia de vida desatando um nó gigantesco. Sim, infelizmente sou obsessiva e enquanto não desatasse aquele nó não me daria por satisfeita. Como boa descendente de Manuel de Barros, sou dada à inutilezas, como perder meu tempo desatando nós. Sempre acho que as inutilezas são as coisas que mais nos ensinam. Não há pressa, não existe o tempo, só existe a vontade de se fazer o que está fazendo agora mesmo. Aprende-se.

Na verdade há pressa no início, puxa-se os fios rapidamente na esperança de tudo se desfazer repentinamente, mas isso só causa ainda mais nós. A raiva aparece de súbito, vontade de pegar a tesoura e destruir tudo aquilo, cortar no meio e depois arrematar de algum jeito de novo, como se isso fosse possível. Mas fazer isso seria humilhante, “não sou capaz de desatar um nó” e não tenho coragem de ser covarde. Pelo menos não com isso. Seria um péssimo paliativo e um atestado de incompetência que me recuso a assinar.

Fico com dó de ser covarde na verdade. Olho para tudo que já está feito, olho pro nó no meio do caminho e vejo que não tenho muita alternativa. Terei de ter paciência para desfazer aquilo tudo, pouco a pouco e aí me esqueço do tempo, me esqueço de qualquer outra coisa importante a fazer. Para se desfazer um nó (ou nós em nós) é preciso um certo tipo de atenção dispersa. Você sabe com o que está lidando, mas ao mesmo tempo deve abstrair o que está fazendo e tentar notar o todo. Notar a ponta inicial e a ponta final e de que forma elas interferem (ou não) em todo aquele emaranhado.

Movimentos bruscos demais e afobação só causam mais nós. Às vezes é meio infernal, nós criam ainda mais nós e parece que aquilo nunca vai se desfazer. Existe o desânimo, a quase desistência, a mudança de um lugar para outro, a pausa, o retorno. É terminantemente proibido ter pressa, é essencial ter paciência e acima de qualquer outra coisa é preciso ter resistência (não persistência). Desatar nó é chato, dá dor de cabeça, é exaustivo física e mentalmente. Resiste-se porque se quer fazer algo bem feito. Porque não se quer fazer qualquer coisa de qualquer jeito, apenas. Por nenhum outro motivo nem mais nobre e nem mais generoso além destes.

Quanto maior a tensão (puxes e repuxes bruscos dos fios) menor a probabilidade do nó se desfazer e maior a probabilidade de você se irritar profundamente. O nó já é um emaranhado de tensões por si só então é preciso na verdade o contrário disso tudo: soltura, leveza, fazer com que os fios de modo geral fiquem meio que como suspensos. O relaxamento serve pra detectar os pontos críticos e saber onde se desemaranha o quê e porque. É pensar sobre o problema ao invés de resolvê-lo. É perceber que, na verdade, o problema se desfaz quase que como por si só. O fato de eu resistir por tanto tempo a desemaranhá-lo é quase que um acaso, como se a solução para tudo aquilo independesse de mim (e independe, em um nível bem bizarro). Tanto que quando o nó desatou, ao invés de finalmente eu sentir certo tipo de alívio, orgulho ou de sensação de missão cumprida, não senti nada. Só continuei a tricotar um pouco mais e depois me cansei um pouco e parei.

Quanto mais solto o emaranhado, maiores as chances do pior dos nós existente se desfazer como se jamais tivesse existido.

Nunca achei que fazer tricô fosse me ensinar tanto sobre a vida.

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