No centro de tudo

The one (and only).

The one who says yes (no), you are (not), you can(not), you will (not).

[…]

Pornography

Is no better or worse

Than this is

(You can always go home when you’re done)

[…]

It’s a free fall.

Where there is no fall at all.

.

.

.

Não compreender e simplesmente não aceitar o que jamais foi de minha cultura é muito simples. A maioria das pessoas tem facilidade pra fazer da sua vida um grande museu: músicas, fotografias de família, de amigos, filmes, lembranças, presentes, poemas, escritos, objetos. Sempre tive o saudosismo como uma espécie de doença que nunca consegui entender. Talvez eu seja tão infeliz que esconda de mim mesma os momentos bons e doure todos os momentos ruins para que saudosismo nenhum valha a pena.

Ou talvez eu tenha uma vida de merda mesmo, o que é muito improvável, pois me considero a rainha do exagero. A verdade é que existem pouquíssimas coisas (só pra não dizer nenhuma) das quais me lembro com muito afeto. O que foi bom, foi apenas bom. O que é ruim, é ruim pra sempre, sem desculpas, sem retorno, sem nada. Raríssimas coisas me são maravilhosas ou especiais, e quando são, nunca são objetos, mas memórias um tanto quanto intangíveis. E também há um detalhe: um acontecimento terrível anula imediata e automaticamente uma memória que até então era maravilhosa. O resto é apenas resto.

Tem como ser uma pessoa mais infeliz que isso? Deve ter, mas este é o meu jeito único de ser infeliz.

Tenho dificuldade de dar valor ao passado porque prefiro acreditar que nunca tive passado. Por muito tempo busquei por uma identidade que hoje é aceita e compreendida como inexistente, pois entendi que o próprio conceito de identidade pode ser questionável. Sempre quis pra mim algo que fosse familiar, embora sempre tenha me inquietado tudo o que é convencional e cômodo. Imagino que eu tenha sangue cigano e ainda não me dei conta ou não aceitei muito bem isso direito. Mudanças me incomodavam mais antigamente, hoje decido simplesmente ir embora se percebo que não aguento mais determinada situação. E são essas decisões que me farão ter a vida que terei, pra sempre.

Não sou mártir, sou apenas sozinha mesmo. Muitas vezes me agrada pensar na mentira do meu martírio. Também não sou escritora bosta nenhuma, pois sou um lixo pra isso e jamais quero ser também.

Hoje deixei de lado na cama meus diários, todos escritos à mão, desde 2008. Não havia mais espaço na mala de mudança. Alguns com datas marcadas, aniversários, outros apenas moleskines com anotações, desabafos, coisas que não escrevo por aqui porque tenho a tendência de cumprir promessas a que me presto. Olhei pra ele e falei sem pensar “isso aqui vai pro lixo”. Terminada a frase pensei que não teria a coragem de jogar 4 anos de escritas e de memórias no lixo, mas antes que eu me desencorajasse ele me advertiu “isso não se joga fora, se põe fogo. Se você quiser, eu te ajudo”. Depois que ele me disse isso pensei “é, tem razão, o mundo não vai perder muita coisa de não ler todas as merdas que escrevi nos último quatro anos”.

Assim como raspar todo o cabelo, foi maravilhosa a sensação de rasgar tudo aquilo e não ter de me preocupar com aquele peso morto que ficaria na minha bagagem. Nesse momento pensei que a maioria dos momentos maravilhosos e felizes que tive na vida foram em plena solidão. Foi incrível pensar que ninguém jamais leria todas as atrocidades e belezas que ali escrevi. Foi muito bom arrancar folha por folha, ver palavras se desfazendo em cinzas, revirar os papéis com mais chamas e soprar pra queimar os que ainda não foram queimados. Tenho gosto por tudo o que é simbólico. Me senti como a minha própria inquisição, meio mártir e meio carrasco. Mas mártir no sentido de louca convicta, e não de sofredora, angustiada. Não senti tristeza em queimar minhas memórias, me senti liberta. Me senti carrasco como se tudo que estivesse queimando fosse de fato desaparecer, como se quisesse me punir por algum motivo.

Mas sei que nada do que foi escrito desaparecerá e sei que continuarei impune, como sempre.

Continuarei escrevendo meus diários. Continuarei com mudanças. Continuarei me livrando e queimando coisas que jamais me pertenceram.

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