The bitter the better

É senso comum que mudar-se, de casa, de cidade, de lugar, de situação é infernal, em todos os casos. A mudança emocional é a que causa mais incômodo, é mais lenta, mas eu diria que a mudança física é a mais simples, no entanto, ao contrário do que pensam, é bem mais profunda e irreversível. É preciso coragem e uma boa dose de audácia para se ter tudo sem ter nada, em absoluto.

Quando o re-estabelecimento começa a partir da estrutura física, de fora pra dentro, a impressão que se tem é que todo o esforço é aparentemente ineficiente. No entanto, dificilmente se vê pessoas que efetivamente realizem essa mudança, uma vez que o fato de arrancar raízes é considerado um tanto quanto brutal. O apego é uma característica quase que inerente.

Queimar objetos pessoais e jogar as cinzas em água corrente, raspar todo o cabelo, nutrido, cuidado e cultivado por muitos anos, esforçar-se desumanamente para esquecer quem não se pode mais amar. Tudo isso parece besteira e bobagem pra quem vê de fora, mas para mim, são apenas modos legítimos de resistir e persistir. Observando o que vivi, mudanças nunca foram infernais pra mim.

Mudanças acontecem como sentenças às quais não temos como resistir. Às vezes não podemos resistir. Claro que sempre há um pouco de tormento, mas é passageiro. Quando quero esquecer histórias, gramáticas, linguagens, jogo fora os objetos que me trazem essas lembranças como se elas fossem desaparecer. Não vão, nunca vão. Jamais desapareceram.

Não existe gramática, nem linguagem, nem regras: existe o agora, que já foi e que cada vez é diferente. Parece opressor, mas é apenas livre. É um paradoxo que custei a aceitar e hoje aceito sem meios termos.

“Abre-se então a caixa de Dora, esse pequeno grande insustentável porvir, sempre meio opaca, meio vazia e infinitamente insatisfeita, sempre a ser preenchida, com sonhos, vontades, desejos, expectativas, etc.”.

Se a minha vida não me permite água corrente o tempo todo, faço o que está ao meu alcance para sempre perturbar qualquer indício de paz que possa existir nessa água de poço.

Não tenho apego nenhum por muitas coisas, mesmo pelas que me são caras. Não sinto falta de lugar nenhum porque sou de lugar nenhum. Não entendo o que há em fazer da vida um grande museu. Tenho tomado gosto por me fazer acreditar que não tenho, nunca tive, nunca terei passado, bem como não tenho futuro. Minha identidade é não-identificada: tenho apenas sempre o que me resta.

Algum tempo atrás eu acreditei na criação de uma espécie de gramática, de uma linguagem própria, algo que poderia ser criado, mantido, explorado. Hoje sei que isso é simplesmente falso, é manipulação, é efêmero. Não é bom nem ruim: é uma característica e não passa disso. Não é, nem de longe, algo especial. E nem pode ser. É momentâneo e desaparece como se jamais tivesse existido.

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