Simulacro

A primeira percepção é a de se sentir verdadeiramente ouvida. A segunda, respeitada, como jamais foi. Se sentir olhada, como ninguém olha. Identificações e reconhecimentos acontecem posteriormente. Parece então que nos conhecemos há muito tempo, como sempre. Certas expectativas são sufocadas e esperanças são renovadas sempre, a cada dia, a cada palavra, cada migalha de atenção doada. Sente-se então que é possível não apenas nutrir o que se quer, mas mais que isso: confiar, como nunca antes.

O golpe de misericórdia: sentir-se cuidada e protegida. Sentir um tipo estranho de bem querer. A sedução ocorre à primeira vista na verdade, mas então a entrega é fatal, completa. Sem volta. Ali você se sente bem, confortável, como um refúgio em que você pode voltar sempre que sente que há algum problema. Alguém que te ouve, que te quer bem, que, ao contrário do que você está acostumada, se importa de verdade, apesar de tudo, com você. É duro ter de reconhecer isso. Mais duro ainda aceitar isso como verdadeiro. Mas aceita-se: a sedução é então completa.

Toda entrega é valiosa. E é muito bom, por um certo período de tempo. É bom, até o momento em que o outro começa a enxergar através de você, como se você não mais existisse, mas fizesse parte de uma paisagem desconhecida e já então desinteressante. Esquecida, porém ainda paisagem, à mostra, à espera de qualquer estímulo, de qualquer resquício, de qualquer coisa que seja. É bom até o momento que seus interesses se tornem outros, sua vida se torne outra, até que você mude de cidade, de idioma, tenha objetivos mais nobres e importantes na vida.

Acontece então um desinteresse substancial. Tudo o que existiu torna-se então um simulacro, uma visão sem realidade alguma. Algo que você percebe que nunca existiu, percebe que, na verdade, não passa de uma mera ideia de tudo o que poderia ter sido. E isso geralmente ocorre justamente no momento em que você quase acreditava que poderia ter encontrado algum pequeno sentido de felicidade em uma vida amarga, solitária e completamente vazia de significado. E tudo então acaba por retornar, lenta e dolorosamente, ao seu devido lugar de origem. Não mais da mesma forma, mas o retorno é mesmo inevitável.

Não gosto de despedidas e confesso que não sei me despedir apropriadamente. Disse a ela então que não retornaria mais e observei então uma expressão que jamais presenciei. Não me lembro bem do que disse, mas disse como se tudo o que tivesse acontecido entre nós não fosse nada demais: “Foi bom estar com você. Você me fez bem e é isso. Me ajudou e é uma pessoa importante pra mim”. Absolutamente qualquer coisa que eu dissesse naquele momento seria insuficiente pra ela. Não tinha mais o que dizer e então calei-me. E pela primeira vez, senti desgosto no olhar de outra pessoa. E nada pude – e nem quis – fazer em relação a isso.

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