A ponte

Deslocamentos são sempre necessários. Alguém pode preferir dizer que são essenciais. Inevitavelmente incômodos, para alguns. Deslocar pode significar ‘ir de um lugar a outro’ embora a palavra me lembre mais algo como ruptura, deslocamento de articulações, desconjuntura, etc. Nem todo deslocamento precisa ser brusco ou acidental mas, como disse, necessário. Quase como se  independente da nossa vontade.

É preciso partir tanto para que o retorno faça sentido quanto para que deixe de fazê-lo. Isso não significa uma característica de inconstância, mas algo extemporâneo à isso. Acreditava que deveria ir, entendia que não poderia ficar. Me pediam para que fosse. Não contestei. Uma frase dita me serviu como ponte. No entanto, a memória sempre grava o que afronta: não apenas a frase, a linha, mas seu contexto e, principalmente, seu caimento. “Você precisa passar por aquela ponte, mulher”. Sempre acreditei nisso, com toda a minha alma.

O primeiro passo é acreditar no caminho a ser seguido. Em seguida, confiar na idéia de ponte. A cada passo dado a realidade se constrói sob meus pés e cresce em mim uma certeza cada vez maior que é exatamente ali em que eu deveria estar e que não desejaria estar em nenhum outro lugar. No entanto, ao estar na ponte, é possível pensar em várias coisas – na paisagem, nas pessoas passando, nas figuras desenhadas no céu e no tempo – em quase tudo, menos na estrutura que se cria sobre onde seus pés estão pisando, passeando, caminhando. Deslocando-se.

Não há desconforto, afinal, aprendemos que uma ponte é sempre construída para ser segura, para simular a continuidade de um caminho que acabou lá atrás, de onde viemos. Pisamos com segurança, embora não reconheçamos a ponte enquanto estamos sobre ela. Talvez por falta de tempo, talvez por falta de experiência. Podem ser muitas as variáveis. Apenas sabemos que precisamos passar por ali e que estamos passando. E embora esta não seja uma passagem inconsciente, raramente notamos que estamos fazendo uma transição.

A travessia é cumprida e ao olhar pra trás, podemos enxergar com melhor clareza a estrutura da ponte. O destino, o local em que chegamos, não importa tanto. Percebe-se então, que o deslocamento ocorre sempre, independente de pontes e de sua grande idéia. A ponte é, antes de qualquer coisa, uma escolha, para depois tornar-se criação. Neste ponto, lembra-se que há também a barca. Que existe o passeio. E nisso se incluem até mesmo os atalhos, que nos levam a caminhos mais fáceis, e que nos ensinaram a vida toda que devemos rejeitar.

Que existe uma pluralidade de caminhos, uma infinidade de destinos e outros modos de fazer tão complexos, profundos e belos quanto o que acabou de se concretizar.

E poder realizar isso tudo pode ser um tanto quanto impressionante.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: