A cura

Cheguei ontem, com certo atraso e com certa agitação, mas não havia ninguém no consultório, tudo parecia tranquilo. Estava ansiosa. Apesar de ir lá todas as semanas, especificamente ontem fui com outro propósito. Ela não me via naquele consultório modificado desde maio e nesse tempo muita coisa aconteceu. A primeira vez que fui lá foi em 2008, completamente por acaso. Em 2009, curiosamente, parei de ir e de me preocupar. Este ano retornei em fevereiro e ela me disse “faz uns 2 anos que você não me visita”. Fiquei constrangida. Acho que parei de visitá-la por constrangimento de mim mesma, na verdade.

Em fevereiro estive lá e observei uma situação curiosa, uma mulher, paciente, que queria mudar de fora pra dentro. Achei lamentável, sempre acho. Já sabia que não queria aquilo pra mim. Felizmente além de me apoiar contra uma idéia de cirurgia completamente abjeta vinda de minha mãe, ela me disse algo que considerei inusitado. “Você deveria ver alguém, sabe… Pra conversar. Pra ter um momento só seu, uma vez na semana que seja. Talvez isso te ajude”. Achei de uma sensibilidade muito impressionante a forma com que ela me colocou isso, me senti verdadeiramente cuidada com estas palavras. Mas talvez eu seja só uma ingênua, mesmo. É o mais provável.

Não foi um convite que beirava ser uma ordem, não me senti pressionada, nem senti coagida… Foi quase uma sugestão, que poderia acatar ou não, se me sentisse confortável. Acatei a sugestão e desde então algumas coisas se modificaram. Confiar em um profissional não é fácil, admito ter minhas dificuldades com isso. Mas em algum momento parei de pensar assim e aceitei: “esta mulher está querendo cuidar de mim, então por que não permitir isso?”. Tenho empatia pelo modo holístico com que ela me enxerga. “E então, como você está? Como está sua vida? O que tem feito?” não são frases que eu esperaria ouvir de quem deveria apenas descobrir quantos miligramas de determinado hormônio são necessários pra manter meu sistema endócrino funcionando direito.

Me identifico com as anotações que são feitas sobre mim pois sou incapaz de enxergar correlação entre o fato de eu ter sido assaltada, estar deprimida, meus pais estarem próximos de mim, com o funcionamento da minha glândula tireóide e com a quantidade de tiroxina que circula por aqui. Por meses tenho sido cuidada por essas duas pessoas, uma que me ouve e outra que me examina. Fiquei então imaginando o que seria da minha vida esse ano se elas não existissem e não vi um quadro bonito. Essas mulheres salvaram a minha vida em mais de um sentido e mais de uma vez. E me sinto feliz por reconhecer isso e por pessoas como elas existirem.

Elas me fizeram perceber que existe mais de uma maneira de se atingir a cura.

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