Oblivio

Nunca me esquecerei de quando entramos em um acordo, de como nos gostávamos tanto e do quanto tudo foi muito planejado e esperado, e de como foi ideal. E de como era pra sempre. E de como foi arruinado irreversivelmente. Eu nunca mais vou me esquecer disso.

Nunca mais me esquecerei daquela loucura, de como fui ignorada, tratada como criança e de como evitava me tocar. De quando pegamos o elevador e houve um beijo suave, o mais suave de toda a vida, na primeira oportunidade de silêncio. Nunca esquecerei daquele perfume específico de cigarro, tequila e gim, cheiros que funcionavam como aura.

Nunca mais me esquecerei do beijo na livraria, logo à primeira vista. Da saudade imensa de tudo que nunca existiu. De quando afastou minhas mechas de cabelo no saguão do hotel às 4 da manhã e exclamou “parla!”, me oferecendo um sorriso eterno. Nunca me esquecerei da rosa na pele branca e dos dias que pareciam não terminar. Não esquecerei jamais daquilo tudo que sentíamos e dizíamos que “não tinha nome”.

Nunca mais me esquecerei de quando me levou pra dentro de casa, uma louca desconhecida, me despiu e foi como se nunca mais quisesse me abandonar. Nunca me esquecerei de como no outro dia, logo em seguida, fui abandonada. Nunca vou me esquecer dos lugares que conheci, daquelas manias, daquele cheiro, de como me transformei.

Nunca me esquecerei daquela hesitação, das 18h, de toda aquela timidez travestida de autoconfiança, do azul celeste único daquela tarde que caía. Das pessoas com pressa ao redor e nós não. Daqueles barcos, daquela despedida que não queria ser. Do beijo azul em câmera lenta na hora do rush. Um quadro vivo, em movimento. Esquecido e, por isso, não esquecido.

Nunca me esquecerei, nunca me esquecerei, nunca mais me esquecerei…

(Quero esquecer, quero esquecer, quero e preciso esquecer…)

[Nota: se não lembro é porque ainda não esqueci direito.]

Quem sou eu?

Acho que não consigo mais lembrar.

Talvez nunca consiga.

Talvez eu não exista.

Talvez eu exista somente em quem me é.

E esta, precisamente, seja a minha condição.

“My heart is with me and it shall not be taken away for I am a possessor of hearts”
“I live by truth”
“I live by saying what is in my heart and it shall not be taken away”
“my heart is mine
and none shall be aggressive against it
no terror shall
subdue me”*

 

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