Fica muito bem em cinema…

Lembra da última vez que fez algo por obrigação? Às vezes, quando nos sentimos oprimidos pelo meio, a sensação de dever (ou pior ainda, no pior dos casos: de honra) funciona praticamente como uma vaselina pra aceitarmos melhor a situação, quando nos encontramos obrigados a aceitá-la. Nos submetemos à determinada situação porque a vida é assim e isso é um tabu que não pode – nem deve – ser questionado jamais. Isso é o que ocorre quando entendemos (determinamos?) que não há nada a ser feito.

Uma vida sem paixão é completamente possível, mas o problema com o cinismo que percebo é que isso não é mais apenas aceitável, mas sim desejável. Há quem diga que paixões são nocivas e sim, isso pode ser verdade em certo sentido… Pessoalmente acredito que uma vida sem paixões é uma vida menos humana, apenas (e não menos digna ou nobre). Quando me vejo obrigada de algum modo a fazer algo que não quero ou não gosto, faço o meu melhor. Mas esse meu melhor não é uma entrega, não é uma dedicação… É mecânico, é prático, é funcional.. É excelente. E é um estorvo.

Uma farsa. Um cinema. Sou perfeita.

Arrisco dizer, sinceramente, que o que entrego por obrigação é muito melhor do que quando sou espontânea, dedicada. É muito melhor do que quando sou uma mera amadora. Me entrego então, mas dessa vez apenas ao papel que represento (eu não estou ali, eu não existo mais). E então, sou uma profissional, olho pras câmeras, sorrio como devo sorrir, danço ao som da música, faço como está no livro, sigo o script. Sou boa, muito boa. Não tenho perspectivas de nada. A girl’s gotta do what a girl’s gotta do. É tudo tão falso, que chega a ser simplesmente perfeito. Acreditarem que é real soa como aplausos pra mim.

E sou boa e eficiente pois quero me livrar o mais rápido possível disso tudo. A sensação de dever cumprido sempre floresce depois em algum momento. O pensamento patético de questão de honra também se faz presente. Mas no fundo, quando estou sozinha e ninguém está olhando penso de verdade, genuinamente: “mas que merda de vida fudida do caralho”. E é triste. É bastante triste e deprimente. E isso é tudo o que é, o que pode ser. Só me resta imaginar até quando repetirei os mesmos gestos vazios de significado e por quais motivos escusos continuarei fazendo isso, pois já está tudo dolorosamente óbvio:

A dedicação não se faz presente.

Tudo se torna um grande estorvo.

Tudo é o menos espontâneo possível.

Tudo está sendo filmado.

Lembre-se de continuar sorrindo para a câmera.

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