Pedidos

Não quero doar meus órgãos quando eu morrer. Se vocês fizerem isso, amaldiçoarei e tornarei um inferno a vida das pessoas que ficarem com os meus órgãos. Não sei se rogar praga funciona, mas ela já está rogada. Se posso decidir sobre o meu corpo então decido: nenhum órgão sairá de mim para nenhuma outra pessoa. Morrerei com tudo o que me pertence.

Por outro lado, doem todas as minhas poucas (e gastas) coisas materiais: minhas roupas, sapatos, livros. Leiam (guardem, ou sei lá, taquem fogo) minhas agendas e meus diários mais íntimos e secretos e divirtam-se com a vidinha que levei. Não quero nada disso de ficar mantendo quarto e coisas de morto. Livrem-se de tudo o que possa trazer lembranças muito vívidas. As lembranças menos nítidas são sempre melhores e talvez mais justas.

Fico imaginando o que aconteceria caso eu tivesse o azar de ter morte cerebral algum dia. Pessoalmente, gostaria muito que me fizessem o favor de desligar os aparelhos e que simplesmente me deixassem ir em paz (embora já saiba que isso é proibido no Brasil, o que lamento). Aquilo que restará ali em cima da cama será qualquer coisa, menos eu. Não quero viver em estado vegetativo: já fiz isso por 28 anos em vida. Se eu pudesse escolher, gostaria de não precisar continuar fazendo isso até definhar, impondo um sofrimento desnecessário às pessoas mais próximas (e ao que restou de mim).

Fico imaginando se eu pedisse para alguém próximo, que gosta muito de mim e me ama, se a pessoa teria a coragem necessária para fazer isso. Acho que este não seria um pedido fácil de fazer a quem se ama: me mate, por favor, porque eu não aguento mais isso. Afinal, eu ainda estaria clinicamente viva, por assim dizer. Não seria então mais fácil fazer esse pedido para quem não gosta de mim? Pedir para um desafeto entrar furtivamente no meu quarto e me matar silenciosamente? Seria. Mas… Por que um desafeto verdadeiro desligaria os aparelhos? Acho que talvez ele me deixasse ali, vegetando e impondo sofrimento a todos que gostam de mim (e também porque não, ao que restou de mim).

Parece que não há como vencer. Nem na vida, nem na morte.

Então o jeito é continuar… Como quer que seja.

(E sim, eu gosto de fantasiar. Fantasiar é o meu fazer. E é quase que um propósito.)

E quando eu morrer, por favor, não me enterrem. Não acho também que será necessário um “funeral apropriado”, não me considero católica. Só quero ser cremada. E as cinzas poderão ser jogadas em qualquer lugar que vente muito, para que se dissipem o mais rápido possível. Não tenho nenhum lugar preferido ou específico em mente.

Talvez em volta de uma árvore bem grande, com raízes fortes.

E deve ter música, violinos talvez. Flores amarelas e boas conversas.

Seria muito bonito e agradável.

Obrigada.

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