Déjà vu experience

I

Era o mesmo lugar de sempre. Um cubículo, cheio de móveis, com paredes que ora eram multicor, ora refletiam em alumínio. O lugar era claustrofóbico, mas quando entrei nele, apesar de ser o mesmo, estava diferente. Reformado. Amplo. As paredes estavam todas pintadas de branco. Todos os móveis eram brancos. Parecia limpo, limpo demais praquela rua, praquele bairro, praquela cidade. Falei com o proprietário que acendia seu último cigarro ali. “Vendi essa porcaria de lugar pra um grupo nazista, agora só quero viver em paz”. Abri a porta pra sair pra rua e lá estavam 3 pessoas, dois caras e uma moça, panfletando e me dizendo que gente como eu não era bem vinda ali.

II

Era noite, estava frio e eu estava atrasada. Ainda não tinha tomado banho. Estava no estacionamento de uma igreja, que na verdade ficava num grande centro empresarial. A igreja era uma das salas. O estacionamento parecia infinito e eu procurava um chuveiro ali, para que pudesse tomar logo o meu banho e ir para o casamento, que seria daqui a pouco. Eu estava mal vestida e estava suja. Estava com apenas um par do salto alto, o outro tinha perdido pois antes eu estava correndo. Eu sabia onde era o chuveiro naquele estacionamento, mas por algum motivo naquele momento tinha esquecido. Apareceu um senhor idoso que parecia um mendigo e me disse onde era o chuveiro. Disse que ainda tinha um resto de sabão neutro ali e que eu podia usar. Estava frio e a água escorria como mil agulhas pelo meu corpo. “Nada pode ser pior que isso”. “Qualquer coisa pode ser pior que isso”. Eu tremia inteira. Tudo doía muito. Eu só queria estar limpa.

III

Entrei no centro empresarial pela porta da frente. Haviam vários carros ali, inclusive da imprensa, pra cobrir o casamento do ano. Eu sabia de quem era o casamento mas fingia que não. Eu não queria ver nada daquilo, mas por algum motivo precisava estar ali. Com algumas pessoas, atravessei corredores beges, até chegar em um grande auditório completamente escuro com um aglomerado de pessoas. Os noivos estavam ali, sorridentes, pareciam felizes. Era um casamento às escuras. Não me aproximei muito deles, não queria ser reconhecida também. Era um casamento iluminado pela luz de flashes da imprensa, apenas. Alguém que diz ser um padre aparece e oficializa. Os noivos não se beijam. Parece não existir nada ali. Mas existe. O noivo diz “estou me casando por interesse pois preciso do apoio e da influência que sua família tem no exterior para suceder na minha carreira”. A noiva é linda e está maravilhosamente vestida de branco. Perguntas são feitas insistentemente por jornalistas, mas nenhuma é respondida. A frase do noivo foi única. Um contrato é assinado e eles saem de mãos dadas no escuro, em meio a flashes, em direção à porta iluminada, cercados de fotógrafos e da imprensa, em uma coletiva ambulante e histérica, onde o noivo se gaba com sorrisos e acenos e a noiva entra muda e sai calada, com sorrisos tímidos. Ela só precisa ser bonita. E era. Fui andando devagar até a fachada do prédio. Já não havia mais ninguém lá, coletiva nenhuma, carro nenhum a não ser minhas amigas. Nós estávamos a pé. “Já viu o que queria? E então? Acabou a palhaçada? Vamos embora?”. Vamos.

(…)

Acordei.

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