Limites, tolerância e bullying em IX partes…

Parte I – O tal do bullying…

Volta e meia uma buzzword nova aparece e fica de assuntinho na mídia mainstream por semanas a fio. Sacal isso. Às vezes o assuntinho me irrita por que em todo o lugar que você vá as pessoas falam disso e começam a ficar realmente HISTÉRICAS, papagaiando tudo o que a mídia diz. No caso do tal do bullying, TUDO hoje parece que se tornou bullying… Em casa, no trabalho, na faculdade… Do nada várias pessoas se tornaram VÍTIMAS (tadinhas né? ô dó). Ninguém mais pode te olhar torto, nem dizer que você tá errado, nem dizer que você é um cuzão (mesmo tendo toda a razão do mundo) e nem fazer cara feia por que né, isso é bullying. Porra, CRESÇAM, pelamor…

Gente: bullying é vida. Literalmente. Não neguem isso. Não ignorem. “As coisas são assim”.

Ninguém nessa merda de mundo se tolera. Acordem! As pessoas se odeiam de modo geral e isso não vai ser mudado nem com o esforço de todos os psicólogos, pedagogos e pessoas boazinhas e com boas intenções de todo o mundo… rs.

Parte II – “As crianças são inocentes”

Outro mito a ser desfeito: crianças são MÁS. Naturalmente más. Eu vivi isso, sei do que estou falando. Crianças são más e vão zoar coleguinhas não importa o quê, por mais que isso seja reprimido. E se for de fato reprimido, a maldade se manifestará de alguma outra forma. Além de serem más, crianças não são burras como os adultos acham… E se aproveitam da sua condição de “crianças” pra serem escrotas o quanto quiserem. Não é a toa que hoje em dia tem filho cagando na cabeça de pai o quanto quer e outras bizarrices do tipo.  Acho que toda tolerância deve ter limite.

É… Talvez eu não queira falar sobre bullying (assunto escroto) mas quero falar de limites e tolerância (ou a falta disso tudo).

Parte III – Adolescência

Eu, assim como boa parte dos meus colegas e as pessoas com quem eu convivo e convivi a minha vida toda, fui ZUADA boa parte da  minha infância e adolescência. Bem, até aí foda-se né… Azar o meu se fui zoada. Mas algumas pessoas que conheço sentiram isso pro resto de suas vidas. Não sei se cheguei a ficar indiferente.. Acho que não. Na verdade eu ficava triste mesmo por ser zuada pelos meus colegas de classe, mas essa tristeza parou de me acompanhar a partir do momento que eu vi que a galera que fazia isso não tinha NADA a ver comigo… “Ah, então é por essas bostas que eu tô sendo zoada? Ahn tá… Caguei pra isso“.

Aí isso deixou de me incomodar meio que naturalmente. Não me senti superior a nenhum dos meus detratores, em nenhum momento. Não tive o posicionamento orgulhoso de “sou melhor que eles” por que eu não era mesmo. Nunca fui foda. Eu só era diferente.. No sentido estrito da palavra mesmo.. Nem melhor, nem pior que eles: só diferente. Só deixei de dar importância por que me toquei que eu não pertencia aquele grupo, de fato. E quando eu parei de me ofender, me zuar parece que perdeu a graça pra eles também pelo visto… Pois é.

Parte IV – Achei a minha tribo

Mas né, quando estamos na adolescencia o normal (me parece) é querer fazer amigos, se enturmar, ou ‘achar uma turma’. E é dolorido não achar sua turma ou “não ser aceito”. O processo de ‘aceitação da exclusão’ tb é ruinzinho, mas depois ele some: quando achamos uma “turma pra chamar de nossa”…

E é aí, é exatamente aí, que as coisas começam a ficar realmente complicadas…

É imaturo pensar que “oba, agora achei minha tribo!” por que veja bem, até mesmo nas tribos mais unidas existe discórdia. A identificação só vai até certo ponto e a convivência tende a trazer sempre o que há de PIOR nas pessoas..

Vai por mim.

Parte V – Separando o joio do trigo

Se relacionar, mesmo com pessoas com quem nos identificamos e  supostamente gostamos, é difícil pra caralho. É difícil saber realmente quem está do seu lado e quem só finge que está (ou seja, se relaciona com você apenas por algum interesse específico).

É muito difícil saber identificar e separar o que é brincadeira e o que é humilhação gratuita.

Difícil também entender e saber separar o que é piada e o que é simplesmente maldade.

E pra isso precisamos entender as intenções das pessoas também, tem todo um contexto. Hoje, pra mim, acredito sim que “toda brincadeira tem um fundo de verdade”… Desconfio do que é dito, e dos modos que as coisas são ditas (e repetidas). Acho muito curioso como as pessoas são covardes ao ponto de utilizarem-se de “brincadeirinhas” que, na verdade, servem a propósitos de humilhação, desprezo e desconsideração, só pra depois te dar um tapinhas nas costas e dizer “ei, amigo, o que eu falei foi de brincadeirinha tá?”.

E pra isso eu digo sem medo nenhum: “brincadeirinha” um caralho.

É muito fácil usar o “riso”, a “brincadeira” e a “piada” como muletas, como fuga… “Antes eles do que eu”, “melhor zoar primeiro pra evitar de ser zoado antes”. É uma tentativa não de aproximação, mas de evitar contato a todo custo mesmo.

Pessoalmente estou farta de subrelacionamentos. Velha demais pra isso.

Parte VI – O zoador: um perfil

Já perceberam que sempre soubemos muito pouco das pessoas que nos ZUAVAM quando éramos menores? Por que?

Sei lá, por que talvez fossem pessoas tristes, fechadas demais para o mundo, com medo demais de mostrar quem elas realmente eram e serem expostas ao ridículo. Talvez por que suas vidas fossem vazias e entediadas e tivessem algum problema como depressão ou algo similar. Talvez por que precisassem tomar remédios. Talvez por que tivessem vários problemas em casa, com os pais (pais separados, ou pais repressores, ou pais ausentes, ou pais zoados demais de qualquer outro jeito grave, etc). Mas isso, nós que éramos zuados, nunca vamos saber por que isso nunca nos vai ser dito.

Diminuir, humilhar e deixar as pessoas pra baixo com comentários maldosos, ou como gostam de colocar “de brincadeirinha”, acaba se tornando uma  (às vezes A ÚNICA) forma de “se comunicar” com as pessoas. Depois de um tempo, torna-se um vício… Tão viciante que a pessoa não encontra outro modo de se comunicar com as outras pessoas a não ser.. “pela brincadeira”. Isso é algo do qual a pessoa sente dificuldade de se livrar, por mais que saiba que está errado (e não admita). E uma vez que sentir-se bem ao humilhar alguém é muito bom, isso torna-se um paliativo pra outros problemas nossos, com os quais não queremos lidar.

Talvez seja tão bom encher a porra do saco dos outros e humilhá-los para que não precisemos lidar com nós  mesmos – e nossa vida patética – em nenhum momento.

A verdade é que todas as pessoas que torram o nosso saco (sempre por algum motivo obscuro, ou na verdade sem motivo nenhum mesmo a não ser simplesmente encher o saco!) não são tão fodas e tão boas quanto acham que são. Na real são pessoas inseguras, com defeitos e problemas (que nem nós!). A diferença é o modo com que lidam com isso: descontando nos outros pra se sentirem melhor e mais seguras consigo mesmas. E quanto PIOR a gente fica, mais envergonhado, constrangido, humilhado… Melhor a pessoa se sente. A partir do momento em que baixamos a cabeça, a pessoa “vence” e então conferimos PODERES a ela. Poderes que nem sequer imaginamos: poder de nos humilhar, nos rebaixar, não levar nossas opiniões e sentimentos em consideração e sabe-se lá mais o quê… É tão escabroso que não gosto nem de imaginar.

Parte VII – As “vítimas”

As vítimas vão entre aspas por que depois de uma certa idade só é vítima quem quer. Às vezes as vítimas são tão culpadas quanto seus algozes na verdade.

O que as vítimas mais fazem?

Aturam. Ou tentam (em vão) ignorar… E também tentam, em vão, não se magoar.

E se se magoam (ou se irritam) é por que “não sabem levar na esportiva”. Ou seja: a grosseria e a boçalidade JÁ se tornou um padrão SOCIALMENTE ACEITÁVEL. E não é! Nunca foi. Nunca será.

O tal do “relevar pela amizade” é um movimento que eu considero perigoso, pois aí o comportamento do zoador se torna “normal” e qualquer fator externo que contrarie isso é “uma ofensa pessoal” à quem já está acostumado a ser grosseiro. Minha opinião? Escrotice não se releva, se combate. Acho que tudo tem limite… Se tenho algum problema pessoal com o jeito de ser ou com a diferença de algum amigo meu, não o humilho na frente dos outros simplesmente por que eu acredito na máxima que amigos não humilham amigos.

Mas… Talvez eu seja uma ingênua mesmo.

Parte VIII – O grupo

O grande lance é a tal da “psicologia de grupo”. Se eu dou risada de um fraco, outros rirão junto (muitas vezes sem nem achar tanta graça assim) não por gostarem de mim, mas por temerem a mim. É difícil, mesmo, estabelecer limites… Ainda mais quando somos jovens. É difícil não achar graça das babaquices que são ditas e magoam. E toda vez que a gente “ri junto” quando alguém nos zoa indiscriminadamente, fica parecendo que a gente não se importa… Mas a verdade é que nos importamos sim. E ficamos putos e falamos que estamos putos mas aí “a brincadeira” já está feita… Você já virou ‘a piada da turma’.

Lembro-me bem que isso já aconteceu comigo aliás, de eu chegar pra pessoas que eu considerava “amigas” e dizer “poxa, achei ruim isso que você disse de mim, fiquei mal e fiquei triste” e a pessoa RIR  mais ainda na minha cara e ainda ter o dispautério de me dizer “Nossa, sabe que você fica ainda mais engraçada quando tá triste?! Ahahaha..”

Meu…  Vai se fuder, ok?

Nos magoamos sim e “relevamos”, ou fingimos que não por que, afinal, “é só uma brincadeirinha”, uma “forma de expressão”… Afinal, as pessoas precisam de “liberdade de expressão” né.. e todo aquele discursinho hippie maravilhoso no papel…

Entendeu a perversidade da situação toda?

Sempre bom perguntar ‘que tipo de “amizade”/”relacionamento” estamos querendo preservar’?

A diferença é que quando a gente é adolescente, não sabemos nos defender disso direito.. E ficamos muito mal,… Nos sentimos errados, envergonhados, tristes e sozinhos. Sofremos muito mesmo. Como adultos, já sabemos nos defender disso um pouquinho melhor.

Parte IX – Então, como é que fica?

Não fica. Pessoalmente acho que não há como comentar sobre um problema deste tipo “de modo delicado”.  Então acho que não existe muita solução mesmo… Por mais que a gente fale sobre o problema, é possível que a pessoa não ouça, ou ouça e decida ignorar, botar pra debaixo do tapete e continuar do mesmo jeito, só que com outras pessoas. Bem… Cada um vive como pode e como quer né?

Acho que eu já fui tratada como lixo e já tive subrelacionamentos por muito tempo na minha vida. Hoje, não preciso mais disso, prefiro ficar sozinha. Algumas pessoas acham que podem cagar no ouvido de todo mundo como e quando querem e todos tem que achar lindo.

Eu não vou achar lindo.

E vou deixar isso bem claro sempre que possível.

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