Não quero ter filhos

Um dos maiores medos que tenho na vida, antes mesmo que o medo primordial de morrer, é o medo de engravidar. Tenho muito medo mesmo, um verdadeiro pânico só de pensar na situação. Se o medo de morrer é (bem) menor do que o medo de dar a vida a alguém, vocês podem então imaginar o meu medo. Felizmente existe a pílula anti-concepcional e isso faz de mim uma mulher muito feliz e realizada. Com menos medo, com certeza.

Decidi definitivamente por não ter filhos há pouco tempo atrás. Sim, o definitivamente é pra irritar mesmo.. Sei que nada é definitivo, mas… Pra mim, por hora, é. A vida é feita de escolhas e essa é uma das minhas. Tenho vários motivos pra não querer engravidar e irei numerá-los por aqui.

Acho que não possuo o que chamam de “instinto materno”. Não o possuo e não pretendo desenvolvê-lo.

Um dia já me disseram com todas essas palavras “acho que você seria uma boa mãe”. Na verdade eu não sei o que ele quis dizer com aquilo. Quis concordar e acho que por dentro concordei, mas por fora me censurei. E continuo me censurando. Sim, talvez eu fosse uma boa mãe. Talvez.

Mas realmente eu percebo que a minha vida não está rumando pra isso. Já tenho 25 anos, percebo que não vou casar  tão cedo e que também não vou ter espaço na minha vida pra filhos. E mesmo que eu tenha espaço: não quero, não tenho essa vontade. Acho triste por um lado, mas por outro acredito que não se pode ter tudo. E a minha escolha já está feita. E quem quer que apareça terá de se adaptar à ela, se quiser conviver comigo.

“Acho que você seria uma boa mãe”. A frase martela pesadamente no fundo minha cabeça. Olha, sinceramente… Eu não tenho jeito nenhum com crianças. Nunca tive. Nunca soube lidar com elas e nem fiz e nem faço questão. Prefiro ignorá-las na maior parte das vezes. Eu não sei conversar com elas, não sei como tratá-las. Sou um verdadeiro fracasso nesse sentido. Não tenho paciência, nunca tive, nem com minha irmã menor, que sofreu muito nas minhas mãos.

Mas existem outros motivos sim… Motivos que tem a ver comigo.

Devo ter sido uma criança que não deu muitos problemas pra minha mãe, acho. Mas a partir dos meus 12 anos, fui uma  pré-adolescente/adolescente muito “problemática” e lembro muito bem o quanto a minha mãe sofreu por isso. Na minha concepção, e pelo que pude observar, ela mais sofreu do que teve alegrias comigo.

Minha mãe é uma pessoa muito, muito estranha. O objetivo de vida dela é conciliar uma carreira cheia de compromisssos, com uma vida familiar intensa. Duvido que alguma vez ela tenha falhado na primeira, mas quando ela sente que falha na segunda (mesmo que não tenha falhado), ela sofre imensamente. E claro, me culpava (direta e indiretamente) pelos sofrimentos dela. E eu, adolescente que não sabia das coisas, carreguei a culpa por todos os sofrimentos dela por muitos e muitos anos..

Hoje não faço mais isso. Os sofrimentos são dela, não meus. As culpas, idem. Hoje consigo identificar prontamente quando ela quer jogar algum sofrimento ou culpa pra mim.. Chega a ser infantil a forma como ela faz isso, mas na mesma hora eu faço com que ela note e reconheça esse erro de comportamento. E hoje em dia ela se irrita, porque eu detecto as intenções dela de me usar como bode expiatório dos problemas que ela não consegue resolver consigo mesma. Enfim… Histórias dentro de histórias.

De qualquer forma, a possibilidade de eu ter uma filha como eu mesma, me irrita bastante só de imaginar. Mesmo tendo me livrado de boa parte das culpas da minha mãe, ainda penso que dei “muito trabalho” pra ela porque vivenciei muitos dos seus sofrimentos, mas a bem da verdade é que eu fui uma adolescente como qualquer outra, com coisas boas e ruins. Não vou entrar no mérito de como foi a minha criação por que senão o post vai ficar mais longo do que já está e esse texto vai sair do foco mais do que já saiu.. Enfim.

Existe uma outra pergunta que me intriga bastante… Quem seria o pai da criança? O pai do meu filho/a?

Bem, atualmente estou solteira. E me vejo solteira por mais uns 5 anos, tranquilamente. A possibilidade de eu engravidar hoje é nula tanto porque estou tomando pílula, quanto por não ter vida sexual ativa. Previsão de estabilidade emocional? ZERO. Previsão de estabilidade financeira? IDEM. Se não tenho previsão dessas duas coisas, se nada nessa vida me dá o mínimo de segurança, porque diabos eu colocaria a vida de uma pessoa que nem existe em risco por isso? Não sei… Isso não me parece justo. Nem certo. Por isso me cuido tanto pra que isso não aconteça, mesmo que “sem querer”.

E aliás, pra mim, não existe isso de “sem querer”, de “acidente”. Existe camisinha, pílula anti-concepcional e pílula de emergência. Não existem “acidentes”. Existiam acidentes, há sei lá… 50 anos atrás. Hoje, não. Hoje a gente se cuida. Vou soar muito escrota no próximo post, mas enfim… “I don’t mean to sound bitter, cold, or cruel, but I am, so that’s how it comes out.”

Quem irá ficar com o corpo todo deformado, quem irá carregar, passar noites sem dormir e sofrer pra parir a criatura sou EU, então a culpa pelo “acidente” é sim toda minha. Homens são homens: irresponsáveis por natureza, ainda mais relativo à essas coisas. Não acho que os homens devam ser responsabilizados pelo que simplesmente não lhes diz respeito… Ainda mais quando eles nem mesmo tem noção de como é isso (estar grávida).

Soando completamente antifeminista mesmo, a responsabilidade é toda da mulher. Isso de “mas nós fizemos isso juntos” é conversa pra boi dormir. Toma pílula, caramba!!! A não ser que você realmente queira agir de má fé, o que eu acho uma cagada igualmente fenomenal.. Mas aí é outra história. Soei machista? Pois bem… Fazer o quê, né?

Mas voltando à questão de não querer ter filhos, pra mim não é tanto uma questão de “ser egoísta” mas acredito que na época que eu realmente começar a curtir minha vida como ela deve ser curtida (lá pelos 35~40 anos) não quero ter impedimento nenhum pra nada: viagens, compras, mudança de cidade, mudança de apartamento, o que for. Quero poder fazer o que quiser sem ter ninguém dependendo de mim pra isso.

Sendo muito otimista (e talvez ingênua, como sempre), a minha previsão é de até os 35 ter “terminado meus estudos” (como se isso fosse possível algum dia na vida…) e depois que atingir uma certa estabilidade, viajar pra lugares diferentes que eu não conheça. Ou ainda, viajar para os mesmos lugares, só que várias vezes seguidas. Afinal, a probabilidade é de que eu continue solteira pro resto da vida e só trabalhe mesmo. Eu sei que esse é o meu destino. Já aceitei isso. Pois bem. Paciência.

Esses dias conversando com um amigo ele me disse que tem gente que pergunta pra ele:  “e quem vai cuidar de você quando você estiver velho?”. Resposta dele: “Essa não cola. Tenho primos e alguns já tem filhos. Seja um ‘tio’ legal e também tá valendo. Na pior das hipóteses, vou pra uma casa de repouso da vida. Bem mais barato do que criar filho”. Pois é. Penso que a minha irmã terá muitos filhos por mim.. Então prefiro me preservar bem pra poder estragar todos os filhos dela.

Voltando a falar da minha mãe, a cobrança por parte dela para que eu tenha filhos é outra coisa que me irrita muito. Acho que se minha mãe quer tanto bebês assim, ela deveria adotar mais alguns e não ficar me importunando com isso.

Um dia eu peguei minha mãe na curva com essa história de “netos”. Ela veio cheia de graça pra mim, como sempre vem, com essa de  “E os meus netinhos? Mimimi… Queria tanto netinhos…” e eu comecei então uma discussão, falando que não quero ter filhos, que não é pra mim, não tenho o perfil, etc. E então ela começou a discutir comigo como se não houvesse amanhã e eu, bem… Eu fiquei quieta né? Fiz cara de Monalisa até ela encher o saco de ficar reclamando a toa…

Aí esperei ela se acalmar,  aquietar… PARAR de falar. Olhei pra ela com o meu olhar mais profundo e falei no tom mais sério que eu consegui fazer:

“Mãe: e se eu te dissesse que eu estou grávida, agora mesmo. Que eu estou esperando um filho, um neto, SEU neto, que vai nascer daqui uns 6 meses… Você iria gostar?”

Aí ela me olhou… olhou… pensou.. e respondeu: “Não”.

Aí eu falei “Ok, mãe. Obrigada”.

Mas é ÓBVIO que ela se borrou quando eu falei que podia estar grávida. Ficou pálida com a possibilidade de ser avó e com a possibilidade de o que eu tinha acabado de dizer ser verdade. Foi engraçado. Mas não, não era verdade… Eu nunca engravidei e nem pretendo. Não sou imbecil nem louca de jogar o que me resta de vida fora. Mas a pressão pra parir no meu caso é muito maior por eu ser mulher. Acho isso ridículo, mas já fiz minha decisão. E a minha decisão consiste em alguns fatos irrevogáveis que vou ter que carregar, pro resto da vida:

Serei a única mulher da minha família que irá “ficar pra titia”.

Meu pai não vai me levar em altar nenhum e eu não irei engravidar.

Minha existência enquanto mulher será seriamente e socialmente comprometida, pela minha decisão (Hahahah).

Eu serei MENOS mulher dentre todas as mulheres (Hahahahahahahahaha).

Não cumprirei meu propósito biológico para com a existência (AHAHAHAHAHAHAH).

Serei pra sempre uma solteirona e daqui alguns anos serei vista como uma leprosa pra sociedade. (Oh, well… :D)

Pois bem… Essas coisas acontecem.

Boa parte das pessoas acredita que as mulheres que não têm filhos são necessariamente amargas. Não diria amargas, mas sim, talvez elas não sejam lá muito amáveis.

E como eu já não sou amável de qualquer forma, não seria um filho que me faria ser.

A verdade é essa.

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