Afetos vulgares

I. Irascível

A noite vi o beijo. Em novembro do ano passado era o nosso e agora mesmo já era aquele. Não lembro do que senti na hora. Lembro apenas que reconheci aquele momento. Não soube definir o que era aquilo. Acho que nunca saberei. Não sei se foi ciúme ou inveja. Talvez não tenha sido nada disso mesmo. Virei o rosto e segui andando. Ele sabia onde eu estava, sabia quem eu era e só veio me dar um beijo no rosto depois de uma lata de cerveja e meia. Fiquei constrangida, mas não muito. Sou observadora demais pro meu próprio gosto, às vezes.

Alguns dias depois, numa festa, assim que me viu, me abraçou apertado, colou aquele rosto com barba por fazer no meu e sussurrou “coisa gostosa” no meu ouvido. Eu ri. Ri alto. “Pode voltar pra sua namoradinha agora” pensei, mas não disse, óbvio. Essa frase, na verdade essa situação me encheu de um tesão irascível. E eu não fiz absolutamente nada, como sempre. Maldade gratuita não é o meu forte. Eu estava sóbria. E dançava. Eu só queria dançar. Na verdade, é tudo o que sempre quero. Faço jus ao meu nome.

II. Dos erros

Tenho uma convicção muito imbecil acerca das coisas. O perigo habita exatamente no lugar onde não digo não nem sim. Nessas horas não consigo dizer nada e ofereço apenas um olhar suntuoso pra quem estiver na minha frente, olhando pra minha cara. Queria me lamber. Eu disse que não. O primeiro erro foi pedir. O segundo, insistir. E quando lhe digo “não me tente, garoto” é por que você perdeu.

III. Do dançar

Me olham quando eu danço.

Danço.

Por que me olham?

Seria a música, as luzes o ritmo cadenciado? Seria eu mesma por trás de toda essa máscara noturna? Talvez não. Acho e penso que não. Tenho certeza absoluta que não.

Por que páram de me olhar quando não danço?

Movimento, curvas, sinuosidade. As pessoas se alimentam disso.

Também sei dançar inerte, sabiam?

Continuem me ignorando.

Continuarei dançando.

IV. Do isolamento

Enxergo as pessoas mas não as vejo. Enxergo por outros meios, nada ortodoxos, nada convencionais. Analiso. Muita gente, poucas pessoas sempre. Gosto de pessoas. De algumas. Não tanto quanto gostaria e bem menos do que deveria. Até simpatizo com algumas. Num amontoado de gente numa festa, ao mesmo tempo em que danço, me distancio e observo a todos. Dançar é socializar-se, mas na verdade, eu me isolo. E observo mais e melhor enquanto me movimento.

V. Da sociabilidade

Você já deu um “oi” sem querer ou talvez por engano alguma vez na vida? Eu já. É e não é agradável ao mesmo tempo (Fato: sou uma negação até quando não estou tentando ser sociável).

VI. Ela

Era pra ser um encontro marcado, com horário e local exatos. Mas foi um encontro espontâneo, no sentido mais certo que essa palavra pode ter. O cabelo dela tinha crescido e estava diferente. Eu estava tímida. Ganhamos as ruas, o metrô, a bagunça do comércio do centro. Ela tinha prometido uma surpresa, me levar num lugar em que eu iria gostar. Entramos em alguma ruazinha pra logo em seguida entrar no Real Gabinete Português de Leitura. Eu ouvi aquele ruído silencioso, um silêncio sinistro comparado a desordem sonora da rua.

Logo depois, um doce, um brownie quente com sorvete de creme. E um capuccino, no Bistrô do Paço. Foi a conversa mais longa e saudosa. Senti saudade de me sentir daquela forma: confortável, aconchegante. Senti carinho, grande, imensurável. Não soube explicar por que me faltou ar e meu coração bateu mais rápido quando lhe dei um beijo no rosto, agradecendo por um presente. Se eu fosse branca, certamente coraria. Tenho uma certa dificuldade em demonstrar afetuosidade, mas sempre faço do meu jeito, embora às vezes me ache um pouco desajeitada. Uma pena eu não ter dito o quanto eu sentia a falta dela. Mas de qualquer forma, acho que ela sentiu isso de um modo ou de outro.

VII. Aquele abraço

Sempre tenho a impressão de que o nosso abraço poderia ser mais longo. Nunca sei o tempo exato de “desabraçá-lo” pra então poder dizer ‘oi, como vai?’. Acho que o abraço poderia dizer várias coisas por mim, como “estou com saudades, que bom te ver de novo”. Por mim, nosso abraço duraria uma eternidade. Eu deveria ter vergonha de afirmar isso pra mim mesma, mas curiosamente não tenho. Não tenho por que não carrego culpa de nada e nem me sinto errada. Me sinto pequena dentro daquele abraço, mesmo que ele seja breve demais pra mim. Me sinto cuidada quando atravessamos a rua. Me sinto cuidada com vários olhares dele. Os olhos, os olhares entregam as pessoas. E o olhar dele nunca foi de malícia e nunca foi atuado. É um olhar de carinho e preocupação e eu entendo isso. Me sinto querida e bem vinda, todas as vezes.

VIII. Da emoção reprimida

Fazia alguns meses que não nos falávamos. E então ele me entregou meu presente de aniversário e, claro, fiquei constrangida como sempre fico quando recebo presentes, elogios, etc. Não por que ache que eu não mereça, mas.. Enfim, a situação toda agravou ainda mais esse meu jeito desajeitado de ser. Quando vi o que era meu presente, meu rosto se iluminou e eu me emocionei. Me emocionei, mas como percebi que ele ficou visivelmente constrangido, tratei logo de disfarçar a emoção com frieza.

Engoli o choro e devo ter dito algo como “Poxa, muito obrigada mesmo”, mas que não me pareceu como um agradecimento genuíno nem em mil anos luz.. Me senti falsa por que me contive. Fiquei triste por dentro, mas foi melhor assim.  Talvez até tenha sido melhor não perder a compostura. Nunca tinha feito isso,  nunca tinha me privado de me emocionar e confesso que  achei bastante difícil. Difícil, mas não doloroso. É só recuperar o fôlego e continuar. E no fim da noite, um pedido de desculpas quando, aparentemente, não fiz nada de errado. Carregava uma culpa que nem eu mesma sabia qual era. Só sabia que era pesada.

E pedir desculpas não me aliviou e nem me fez sentir melhor, só mais idiota. Mas ainda: foi melhor assim. Às vezes a minha imbecilidade e fragilidade com as coisas que acontecem é tanta que eu nem consigo acreditar que sou eu. Acho que “perdi a mão”, o jogo de cintura. Sei lá, quero pensar nisso não.

IX. Perguntas que não calam

Por que demonstrar afeto por alguém é tão simples mas tão difícil? Existem formas bem claras de se demonstrar afeto: dinheiro, presentes, carinho, abraços, beijos, sexo. Mas quanto as formas não tão objetivas de se demonstrar afeto? Um olhar, um sorriso, algumas palavras ou ainda, presentes que contenham palavras. Ou sentimentos muito bons que não conseguimos explicar, nem ver, apenas sentir. Não sei. Prefiro os afetos que parecem que não estão ali. Eles duram mais e por mais tempo.

O que faz com que as pessoas se apaixonem pela gente? Como a paixão acontece na nossa cabeça?

Não sei explicar, só sei que, ao que tudo indica, é essencialmente espontâneo. Não nos forçamos a nos apaixonar por ninguém, nem podemos forçar ninguém a se apaixonar pela gente, pois aí já não é algo legítimo, mas forjado. Minha experiência pessoal diz que nada que é induzido nesse sentido pode ser muito bom. Situações fabricadas serão, sempre, situações fabricadas. E não há nada que mude isso.

Por que algumas pessoas tem a necessidade de manterem-se apaixonadas pra sentirem-se vivas?

Não sei. Esse nunca foi o meu caso. E nunca será.

X. Do cuidado

Sou péssima com presentes pros outros. Apesar de ser boa observadora, se sou privada do convívio a coisa se torna um tanto quanto mais difícil. Ainda assim me senti que deveria retribuir a delicadeza, sem contar que em alguns dias seria o aniversário dela. Lembrei-me que no dia do meu aniversário este ano ela me enviou um e-mail carinhoso, com uma fotografia linda de orquídeas. Então nem fui muito criativa.

Andar nas ruas com aquela planta foi um privilégio pra mim, e cuidei dela por alguns instantes. A protegia com as mãos quando um vento forte aparecia e segurava melhor o caule pra que não se partisse. As pessoas me olhavam, cada um de modo diferente. Não é muito comum encontrar uma pessoa com uma orquídea grande dentro do metrô. No caminho, quatro pessoas sorriram pra mim, afetuosamente.

Percebi nos olhares delas que se perguntavam “será que ela ganhou ou está levando de presente?”. Eu só as observava quieta, olhando por cima das orquídeas brancas. Acho que o meu presente agradou. Espero que sim, pois o entreguei com um carinho muito especial. E então, conversamos. Falei sobre algumas angústias e pedi conselhos. Não exigi nada, simplesmente compartilhei algumas coisas minhas. Senti então muito cuidado nas palavras dela, instigando minha proteção. Um cuidado que senti verdadeiro, genuíno.

E de fato depois da conversa a angústia passou e comecei a entender algumas coisas por uma outra perspectiva. E melhorei muito. Ao me abrir e confiar, só tive a ganhar. Soube como agir melhor, pra me proteger.

XI. Da proximidade acidental

O destino é muito irônico, ri com dentes podres na nossa cara.

Antes do último dia, adoeci. Com direito a baixar hospital, correr pra emergência e tomar qualquer coisa intravenal que fizesse aquela dor parar. Foi horrível. Foi um fiasco.

Foi 2006 redivivo, só que desta vez a vítima fui eu.

Apesar da situação ruim, houve a preocupação e aí sim o cuidado se tornou mais do que evidente. Foi uma proximidade acidental, mas que me agradou muitíssimo. Olhei pra ela e disse “você é a próxima vítima, pode acreditar”. E depois conversando com ele pensamos em várias coisas que poderiam ter causado aquela dor estomacal: tensão, ou sei lá, somatizei algo. “Qualquer coisa é gatilho quando há predisposição” ele me disse. Talvez. Não me preocupo em pensar muito nisso não. Só sei que aconteceu e sei que isso que vou dizer vai soar horrível mas “foi bom passar mal”.

XII. Da memória

Fiquei em Botafogo a maior parte do tempo, gostei de lá, mas andei pouco. Conheci uma parte da Urca que me marcou muito, Praia Vermelha, chinelo, vestido branco e colar de contas. No fim, tudo teve que ser resolvido às pressas, tive de sair correndo com malas, prazos, horários, pra então sair de novo, ir, vir e encontrar-se novamente. Acho que desde janeiro eu queria conhecer o Parque Lage. Acho que era fim de tarde. Chá de maracujá e maçã. Eu vi a piscina, lugar com o qual já tinha sonhado algumas vezes, mesmo sem nunca ter estado lá.

Fazia muito tempo que eu não andava pelo mato. Achei bonito aquela mistura de pedras, ruína e floresta. Gostaria que meus olhos fossem capazes de tirar fotos. Estava um tempo agradável. Nossos nomes foram escritos numa parede. E depois de andar mais um pouco, apareceu uma piscina natural, com carpas imensas. Tinha uma cachoeira também… Tudo parecia um sonho, mesmo. Lembrar disso agora me faz sentir esquisita, não sei o que acontece.. Um frio na barriga estranho. Acho que é por que ainda está muito recente na memória.

E depois, um mirante, onde era possível ver a lagoa Rodrigo de Freitas, parte de Ipanema e Leblon, se não me engano. Prometi pra mim mesma que guardaria aquele momento pra sempre na minha memória.. Mas sempre que prometo eventualmente esqueço. Promessas não são nada espontâneas. Lembranças são.

mirante-full

XIII. Do fim?

Um dos post mais acessados deste blog tem o título “Como esquecer alguém?”. Escrevi e não me arrependo, mas hoje sei que é bobagem. Hoje sei que não é possível esquecer ninguém, por mais que se tente. Na verdade é  o maior dos paradoxos: a gente sempre se lembra de esquecer. É uma ferida, um recalque que se torna aparentemente incurável. E é ridículo, não condiz mais com quem eu sou hoje em dia.

E a gente sente essa vontade de esquecer por ‘n’ motivos, geralmente relacionados a desentendimentos, brigas ou simplesmente por que o que havia acabou. Os motivos vão desde algo besta como ‘não gostei do que você disse/fez/insinuou’, algo mediano como hostilidade gratuita advinda de TPM até coisas “graves” como traição, etc (apesar de eu não acreditar em traição, mas aí é outro post).

A diferença é que, quando eu era mais nova, o custo de se adaptar às situações e às pessoas pra mim era muito alto, eu não conseguia, não tinha como. Eu era inflexível e de certa forma me orgulhava disso. Hoje em dia é diferente, penso em viver com leveza e pago caro por isso, mas pago com gosto. Às vezes esforçar-se pra esquecer não vale a pena, pois é um esforço em vão.. Ainda mais quando o motivo não é dos mais fortes. É tudo uma questão de saber se comportar.

A verdade é que as pessoas – de modo geral – farão o que puderem pra te machucar, às vezes conscientemente, às vezes não. Às vezes por sadismo, às vezes por defesa. É preciso saber reconhecer e fazer escolhas, entre continuar ou parar. E às vezes eu me machuco por pouco, por muito pouco e reconheço isso. E percebo que o motivo pelo qual me machuco é tão bobo, tão infantil, tão… pequeno, pobre.. Que realmente seria muito imaturo da minha parte manter isso em tão alta conta.

Me preocupar com pobreza e com pequenez de algumas coisas não combina com a minha personalidade generosa. Sou generosa e expansiva sim, e também cobro pouco, mas não deve se confundir esse meu comportamento com  um deslumbre sentimental, como se todas as pessoas devessem me amar  o tempo todo  (e provar que me amam o tempo todo também) ou se apaixonarem por mim indistintamente.

Isso não existe. Nem comigo, nem com ninguém.

Todo mundo é detestável em alguns aspectos. E só não se enxerga o que é  realmente detestável em alguém quando não se vai além do que é superficial e material.. O que é muito comum hoje em dia. Faz algum tempo que cansei de pessoas que se utilizam de afetos vulgares..

E então, saio de determinadas cenas.

E assim permaneço em outras. Pra sempre.

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