Obrigada pela tempestade

Me perdi no meio daquela cidade. Ganhei a rua, mochila, praticidade e passos rápidos. Tinha que comprar uma passagem de volta, tinha que voltar pra casa. Estamos sempre voltando de um lugar pra outro, não é mesmo? E aquele era mais um dia, acho que um dos últimos dias, não me recordo bem disso. Era um dia quente, muito quente, sol a pino, era verão, os dias estavam abafados. Mas eu sabia que aquele dia tinha uma energia estranha. Só não sabia explicar como isso acontecia. Chego em casa depois e percebo que fui assaltada. Uma tentativa de murro seco na parede. O ódio, nos dentes e nas unhas, respiração descompassada, dificuldade imensa de concentração. Parei com tudo aquilo, acalmei a respiração, tentei relevar e essa foi a primeira vez que eu, de fato, consegui me acalmar na vida. Consegui controlar meu ódio, minha impotência. Me senti bem depois e depois disso, não sei o que veio.

O que veio antes eu lembro. “Mostre-me”, ele disse. E eu disse que não, que tinha vergonha. Na hora, isso era a verdade e era uma arma. Eu não tenho vergonha, tenho muita pouca coisa, na verdade.  Eu não sou o tipo de garota dele e sei disso. Com o passar do tempo, notei alguns detalhes do que é passível de atração, pra ele. Ao contrário do que eu imaginava, não é bem beleza. É uma mistura de conhecimento geral e também inocência, em primeiro lugar. Infantilidade, em segundo (o que, particularmente, achei bastante bizarro) e mau gosto em terceiro (simplesmente um padrão, de fato). Não tenho nenhuma dessas características – acredito, tenho fé – e não me esforçaria pra ter. No fim da noite uma jogada de palavras muito bem cuidadas e acentuadas, que fizeram doer algumas partes de mim, embora eu tenha fingido que não. O que me irrita na verdade não é que me chamem de patética. Sabe o que é realmente patético? Fingir que está bem com tudo a sua volta quando na verdade, você simplesmente não se suporta mais, em vários sentidos. Sou justa nesse sentido, reconheço quando sou ridícula. Mas essas coisas acontecem, mesmo.

A cidade era velha e a gente andava por ela, eu e ele, com todo aquele clima meio noir, meio Paris Texas em alguns sentidos também. Mendigos e muita sujeira pra todo o lado, conversas muito rápidas, muito distantes, conversas essas que eu NUNCA vou me lembrar, por que não faço parte daquele contexto, daquela vida, daquilo tudo. E a vida se põe em risco sempre, em linha branca, mas tudo bem por que o corpo pode aguentar muita coisa, aquele discurso de ‘somos jovens’ e tudo o mais. Ele se permite experiências, eu me permito observações. O filme em preto e branco na tela. O ar com uma tensão que podia ser cortada ao meio com uma faca. Todos os meus poros gritavam, de frio, de arrepio, de medo, de algo que não sabiam o que era.  Emiti comentários ‘preconceituosos’ (por assim dizer) e recebi em retorno flechadas de olhares paranóicos e desconfiados. E eu achava muita graça daquilo tudo. E entre uma carreira e outra, tudo realmente se transformou: um “não te quero mais” se transformou em desejo furioso e incontrolável, de uma hora para outra. “Deu vontade”, a voz carregada de culpa me disse. Eu entendo. É curioso. As reações são sempre curiosas. E quem dá nome e indexa a isso (fraqueza, descontrole, vontade) não sou eu. Longe de mim.

A vida dele é feita de várias realidades paralelas e ele não se encontra em absolutamente nenhuma delas. Não sei nomear o que eu presenciava entre o trabalho, as festas, o cigarro, a filha, entre as coisas e ele. E quando digo ele, digo ele de verdade e não as coisas. Não me lembro como foi quando o revi pela primeira vez em meses, perdi isso completamente. Já falei disso, que viagens são meio que como sonhos. Na verdade, viagens são sonhos. Fatos que podem ser guardados na memória e que ficam ali, empoeiradas no arquivo do tempo. Fragmentos de vida, de realidade. Mas isso de fato só acontece se você não se dá o trabalho de cuidar da memória e decidir se dá maior ou menor importância ao que for recortado e selecionado em questão. Questão esta de prioridades. E é muito mais fácil dizer “não lembro” e deixar a recuperação de tudo pra quem pode, pra quem tem força, pra quem faz isso por dinheiro ou ao menos se importa o suficiente. Eu sou um arquivo, um documento, uma folha, um livro, um dado, uma informação, um bit, um pixel. Todos somos, tudo é, todas as situações são.

Interesses movem o mundo, todos com os seus e eu com os meus. O problema já não é mais COMO se recupera ou armazena tal dado, mas POR QUE  recupera e por que se armazena, e o sentido de tudo ainda é muito humano, ainda é por que nos importamos o bastante. São detalhes. E é através deles que tudo se torna obscenamente óbvio. Questão de contexto.

Não me arrumei, me relaxei totalmente e coloquei o meu pijama mais velho e confortável e esperei pelo amanhã. Em alguns minutos, arrancou minhas calcinhas com os dentes e penetrou em mim como cinema. Urrava e arfava em meus ouvidos como se eu fosse desintegrar a qualquer instante. Depositava aquele odor doce dentro de mim, que permanecia por dias. Me agradava. Um suspiro meu e então tudo desaba. Meu riso. Depois disso a distância era inevitável. Eu era uma estranha e ele um pecador arrependido. Eu gostava daquela situação (me divertia por dentro apesar de, por fora, existir apenas melancolia). Ele, não. Ele nada. E depois  vieram as conversas intermináveis, sérias, pesadas, arrastadas e sem propósito que seguiam quase que sem fim, pela madrugada. E eu me forçava a dormir depois, tremendo, de ódio, de frio, de tesão, tudo junto. O discurso era sobre uma vida livre de vícios, livre de necessidades mundanas e coisa do tipo, vindo justamente de uma das pessoas mais materialistas e mundanas que já conheci. A verdade é que eu ria por dentro, só que na hora, não consegui reconhecer isso. Hoje eu sei que o riso queria dizer ‘eu duvido de você, e duvido de você por que duvidaria de mim mesma’. A frieza. A falta de toque. O estranhamento, a impessoalidade. Era como se eu não estivesse mais ali, de qualquer forma.

Eu finalmente me enchia não só de tédio, mas também de pânico, por não saber mais o que falar e por não mais saber também o que ainda fazia ali e por que ainda estava ali. Aí veio o dia quente, o sol a pino e a minha vontade de comprar a passagem de volta.  “Eu vou embora”. Nunca algo tão difícil de ser aceito soou tão sincero vindo de mim, quase que como um alívio. E eu saí a andar nas ruas daquela cidade, suava, suei, me perdi e me achei de novo.  Fiz o que tinha de fazer e na volta, eletricidade pairava no ar. Uma tempestade de verão se formou, em cima de mim. E essa foi uma das cenas mais bonitas que eu já vi, arrisco dizer, na minha vida toda. O tipo de cena que eu transformo em quadro vivo e guardo num lugar muito especial da memória. O vento, o frio, as árvores sacudindo com violência.  Aquela eletricidade toda, invisível. As nuvens se acinzentando e se tranformando, o tempo fechando, a cidade PULSANDO, pessoas correndo, se apressando e pra mim o tempo escorria em câmera lenta, fiz aquele tempo parar, guardei tudo aquilo pra mim, selecionei, cataloguei, indexei, classifiquei e registrei. Tanto que desse dia consigo lembrar com uma vivacidade quase que perfeita, em detalhes. Aquele foi um dia marcante, um bom dia.

Tenho o péssimo costume de levar tempo e espaço em consideração, sempre, pra quase tudo. Quilômetros de distância além e cinco folhas do calendário depois, ele se lembra (e me lembra) de um abraço, de um detalhe qualquer, de uma xícara de café com leite. Tudo isso talvez deva mesmo ter existido e talvez algum dia eu devo ter sentido e em algum determinado momento tenha tido sentido pra mim. Hoje, não consigo encontrar mais essas coisas comigo. E se encontro, não estão frescas, mas com gosto de jujuba velha. Por que será que isso acontece? E eu também fico, imbecil, a me perguntar: de onde ele RECUPEROU essas coisas todas? De que memória? Em que diretório? Qual o número do registro, como isso foi indexado, armazenado? E a pergunta mais importante: e por que AGORA? Sei que, dentro de mim, perdi boa parte de tudo. Sim, claro, com certeza deve estar documentado em algum canto, mas digamos que a qualidade dele está péssima. Talvez o documento precise de restauração, quando na verdade, talvez ele precisasse ser digitalizado se já não estivesse ESFARELANDO a luz do dia e ao contato humano. Não recuso mas não entendo, nem compreendo, e o mais devastador de tudo: não consigo mais fazer com que seja recíproco.  Não assim, não dessa forma. E eu nem mesmo sei quais são meus critérios pra isso.

Fui embora e disse o que sempre digo, pra todos, indistintamente: “obrigada por tudo”, mesmo sem dimensionar exatamente o que cabia nesse tudo. Obrigada, homem, pelo abrigo, pela comida, pela atenção e pela falta dela também.

E claro, obrigada, muito obrigada, pela tempestade.

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