Em banho-maria

Ele: Isso tem que significar algo. Não sei o que, mas algo. Relaxa por enquanto.

Dora: Queria conseguir relaxar..

Ele: Faz o jogo e vê aonde vai.

Dora: Sim.. Mas acho que não quero fazer parte disso.

Ele: Eu ficaria calmo e veria qual é. Se não quisesse nada, me faria de idiota. Não sei se vc deveria tomar a ofensiva de primeira. Faz um reconhecimento primeiro e tenta entrever o que está acontecendo.

Dora: Mas eu me angustio. Odeio ser levada em banho maria. Que me digam as coisas na cara logo, é ruim no começo mas depois é sempre melhor.

Ele: Dora, a vida é o banho maria,  na maior parte do tempo.

Dora: Você também não me ajuda né?

[…]

Ele: Você tem que se acalmar,  mas mais uma vez: eu posso estar errado. Nesse sentido minha ajuda é pouca, é só de inspiração mesmo.

Dora: Penso que se eu me acalmar por demais isso possa virar comodismo… E do comodismo ir pra coisa pior.

Ele: Ué… O que pode ser pior? Se vc se acomodar, nada vai acontecer, mas ao menos havera uma CHANCE de acontecer. Se você chutar o balde, não vai acontecer mesmo, nem agora, nem después. Então equilibra esse balde.

Dora: Também penso nessa chance, mas também me preocupo. Não quero me ferrar com coisa que não sei que vou me ferrar.. Sei lá, prefiro me ferrar com coisas óbvias. Estou angustiada demais… Por que tudo isso é tão difícil, tão dolorido? Sinto raiva, queria resolver isso logo.

Ele: Você está apaixonada?

[2 minutos]

Dora: Não sei.

Ele: Hihihi.

Dora: Pára!

Ele: Hohoho.

Dora: Não estou, não é tão simples. Mas tem coisa acontecendo. Não gosto disso.. Me sinto uma idiota. E eu nem faço nada, deixo estar… Mas ainda assim… Chato.

Ele:  Não estou dizendo que é legal,  é chato. Mas tem que suportar, fazer o quê?

Dora:  Eu tava tão decidida sobre o que fazer até conversar com você..

[…]

Dora: Me sinto muito desconfortável. Isso tudo me incomoda muito.

Ele: Pode ser. A escolha é sua, mas os ganhos são maiores se você suportar o desconforto…. E a perda será que nada acontecerá. E se nada acontecer, dane-se, você fica na mesma.

Dora: Sim, mas nesse processo todo rola o desgaste… Eu poderia ficar na mesma agora mesmo, sem passar por desgaste nenhum.

Ele: Sim. Mas você precisa avaliar se você vai ficar tão pior caso não aconteça nada…

Dora: Eu só fico ruim mesmo quando é algo que eu não espero que aconteça.. Quando é algo que eu já imagino que aconteça, e aí acontece… eu fico mal, mas ainda tem aquele conforto do ‘eu já sabia’. A mania de ficar querendo prever as coisas é meio burra… mas eu funciono assim, fazer o quê..

Ele: Sim. E vc acha que vai se dececpionar muito se vc esperar mais um pouco pra ver o que acontece?

Dora: Não faço a mínima idéia.. Chato isso, não ter transparência.

[…]

Ele: O susto abre caminhos também. Essa seria uma opção heróica e arriscada. A outra é a opção segura. Mas a opção que você está pensando, é ruim diante dessas duas. Qualquer uma das minhas é logicamente melhor. Mas é claro que essa é minha opinião.

Dora: Eu já havia pensado em confronto direto, mas talvez eu fosse parecer muito agressiva.

Ele: Vai parecer, mas isso não é ruim.

Dora: Bom, pelo menos eu teria uma resposta… Mesmo que vaga.

Ele:  Sim. E mesmo que a resposta seja evasiva, isso indica algo. Pelo tom, você saberá.

[…]

Dora: Não estou a fim disso.

Ele: É um risco. Mas como eu disse, você fica na mesma, você tem duas opções melhores e, se não der certo, você fica na mesma. A sua opção seria uma opção baseada unicamente pelo medo. E não é bom ser guiada pelo medo.

Dora: Sim. Sempre suspeitei disso. Mas o que fode não é ser guiada pelo medo ou não, mas ter culhões pra persistir… Mesmo sabendo que vou sofrer.

Ele: Tente avaliar se o mau resultado seria muito ruim pra vc… E se for tranquilo, tente.

Dora: Bem.. muito, muito ruim não seria. Eu só me sentiria patética caso fosse descartada como ‘mais uma’.

Ele: Então você está pensando muuuuito adiante…

Dora: Não necessariamente… Esse “muuuuito adiante” pode estar logo ali, quando não há transparência.

Ele: Nem chegou perto disso ainda, Dora. Você não conhece a estrutura toda da coisa ainda.. Mesmo que funcionasse, talvez você achasse uma merda e não quisesse mais. Tudo é arriscado assim mesmo..

Dora: Eu gostaria tanto de ser desapegada.. mas quando menos percebo, lá estou eu.. Completamente envolvida.

Ele: Eu fujo de intimidade como o diabo foge da cruz… E é de medo mesmo, por que sei o risco que existe. E ao mesmo tempo, há a carência, o desejo. Mas no meu caso, está perfeitamente claro que não suporto nada agora e é isso que vc tem que avaliar em você. Você está na ativa, deve ser diferente..

Dora: Comigo, quando eu menos percebo as coisas já estão acontecendo.. E eu tenho dificuldade em dizer não.

Ele: Então avalie se você pode dizer sim e tome uma decisão.

Dora: Isso é o que pega… Pra mim, eu posso dizer não por que posso cuidar de mim e me sentir segura. E posso dizer sim pra me provar o que quer que seja e me fazer de raçuda. Qualquer uma das opções é válida… O lance do ‘eu aguento o tranco’ é o que me ferra sempre. Sempre escolho a dor que ainda não experimentei.

Ele: Você tem que aprender a avaliar sem querer ser heroína.

Dora: Não quero ser heroína… Mas se eu optasse pelo que é seguro, seria algo que eu deixaria de passar pela experiência. Eu penso nisso.. Penso mesmo, muito. Mas o fato é que EU é que sou muito encagaçada… É isso.

Ele: Todo mundo é. Todo mundo manifesta seus medos de inúmeras formas. Tenho um amigo que é um mulherengo inveterado,  radical mesmo, de pegar mulher no ônibus e levar pra cama, mas isso tudo é medo também. Medo de intimidade real,  medo de compromisso. Não tem como escapar do medo, eu acho. Mas acho que dá pra tomar uma distância e tentar ver se o medo é justificado. Se for, abra mão. Saiba perder também. Perder não é necessariamente ruim.

Dora: Não é, eu entendo. As vezes eu fico brava pois fico parecendo a minha mãe falando que todas as coisas que me acontecem são “provações”. Tão ridículo isso… Mas as vezes parece verdade…

Ele: O que acho é que vc não deve escolher aquilo que vai te fazer perder DE QUALQUER JEITO, mas escolher opções nas quais vc tenha uma chance de ganhar, mantendo em vista a possibilidade de perder. Então saiba perder e escolha poder ganhar.

Dora: Mas o que eu queria mesmo, no meio disso tudo, é aprender mais coisas no processo. Queria aprender a ser mais desprendida, desapegada, mais solta. Crio regras pra tudo e isso é muito ruim. Queria uma independencia maior dessas coisas que eu sinto. Às vezes queria viver a minha vida como se não fosse minha mas isso é sonho.. Não é possível.

Ele: Não tem como não sentir, anular seus sentimentos. O que você pode fazer é formatar os seus vínculos de uma maneira diferente, por que o vínculo vai existir pra sempre. Não raro, pessoas que resistem a vínculos são as mais apegadas a alguma memória, alguma coisa do passado, sei lá. Não acho que dê para se “desapegar” simplesmente… Mas dá pra ter uma relação diferente com as coisas, aceitando que você terá uma relação.. Qualquer que seja.

[5 minutos – um abismo, pra mim.]

Dora: Acho que é difícil pra eu entender isso por que já faz muito tempo que estou sozinha. Não só estou sozinha, como me sinto sozinha.

Ele: Entendo.

Dora: E sei que estou vulnerável, por isso quero me cuidar tanto. É… complicado.

Ele: Sim, é o meu caso… Não posso bancar nada. Outro dia uma mina me ligou que eu não via há muito tempo, me falando que tinha terminado com o namorado..  Já tive uma parada com essa menina. Era óbvio o lance..

Dora: Direta ela hein?

Ele: Ela é doida. Eu não fui, mas não por causa da abordagem dela..

Dora: Mas vc falou que não ia?

Ele: Sim. Eu falei que ficaria em casa e tal… e só. Depois me perguntei se eu não deveria ter ido mas no meu estado o estrago de ter uma experiencia ruim teria sido muito maior do que o ganho de uma experiencia boa. Depois achei minha decisão acertada, mas mantive isso na manga tb. Sei que posso ligar pra ela se eu me sentir melhor com tudo. É o que eu digo, não enterre algo que você sente. Tente fazer as coisas pra você ter uma chance e mesmo que não aconteça, e que você decida depois que nada vá acontecer… Deixa estar.

Dora: É. Eu preciso saber me comportar. Gosto quando as coisas são minimamente recíprocas.. Até sou generosa e tudo o mais.. Mas ficar inflando ego de quem se lixa pra vc.. É ruim.

Ele: Isso da falta de reciprocidade é medo de ficar em desvantagem, medo de perder. Se vc perceber que é isso, dane-se, dê as costas e vá embora.

Dora: É.. o problema é eu saber perceber quando. Puta merda.. Tô na merda.

Ele: Ah…. vc tem boas chances de sobrevivência.

Dora: Yeah right.. Ok.. posso sair mal.. mas não tão mal a ponto de ficar irrecuperável.

Ele: Irrecuperável é um pouco forte.

Dora: Ok.. não chegou a ser irrecuperável por que eu tô aqui. Parecia não ter fim.. demorou.. mas acabou. Hoje eu sou uma pessoa razoavelmente civilizada. Você sabe do que estou falando..

Ele: Acho que é o mesmo comigo.

[…]

Dora: O mais bizarro é eu falar a outras pessoas sobre a minha solidão.. E elas não acreditarem.

Ele: Eu acredito.

Dora: Mas você é diferente… Você me conhece.

Ele: Você acha que sim? pq eu mesmo não sei…. Gosto muito de vc, mas não sei se te conheço.

Dora: Conhece um bocado.

Ele: Às vezes parece que te entendo muito… Às vezes não entendo nada.. Mas é assim com todo mundo, eu acho.

Dora:  Não tem como saber tudo né? Você não lê mentes… ainda! Ha-ha.

Ele: Jamais. Nem quero.

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