Estereótipos

Às vezes eu observo as pessoas sem querer… Não, nada disso: às vezes, as pessoas SE FAZEM observáveis de tal modo, de tão curiosas que são. Aí eu não me contenho mesmo.  Eu tenho olhos e pra não olhar, precisaria furá-los. Hoje enquanto almoçava no restaurante universitário, vulgo bandejão, me apareceu um desses seres observáveis. Era um garoto bem branquinho (ok, branco demais), loirinho. Os olhos dele pareciam claros, mas não notei se eram ou não. Parecia ter por volta de 18 anos, alto, não muito encorpado. O andar dele era como o de uma criança tentando parecer um adulto, tentando firmar os próprios pés. Ele não me parecia muito bem.

Alguma coisa na roupa ou no material dele indicava que ele fazia Física. Uma frase sobre um ponto, um apoio e uma alavanca pra levantar o mundo. E ele não tinha cara de nada daquilo. E ele também não parecia exatamente nerd, nada de óculos ou espinhas na cara. Ele só estava com uma cara de fracasso total. Na verdade, não sei por que diabos pensei que ele era daqueles tipos de físicos (ou estudantes de física, enfim..) que são cristãos e daí misturam religião com a parada toda e vira uma zona. Nunca entendi esses tipos, nem pretendo. Mas pensei comigo mesma que era preconceito pensar assim e limitei-me a só observá-lo novamente. Aquela pele bem branquinha e aquele semblante confuso e aparentemente com sono.

Não sei se era calouro, ao menos não me parecia. Só me parecia alguém novo, fresco. Também me parecia desmotivado, meio perdido, quase que como sem saber o que estava fazendo ali direito.  Às vezes parece que o rosto dele dizia algo como ‘por que eu vim almoçar aqui?’, ‘o que estou fazendo aqui?’, ‘a quem eu estou tentando enganar?’ ou coisa do tipo. Arrisco dizer que ele nunca deve ter almoçado em bandejão. Ah, sim: ele estava sozinho, claro. Deixou a bandeja com comida em cima da mesa e foi buscar alguma outra coisa, guardanapo e água. Sentou pra comer e olhou a comida com nojo. Eu quase, mas quase ri. Só não ri por que estava muito perto e ele notaria. “Mimadinho, filhinho de mamãe…” resumi no pensamento.

Eu tinha certeza de que ele não ia comer nada daquilo por frescura. Aí surgiu uma primeira garfada. E uma segunda. E uma terceira. E de repente eu me toquei de que não era frescura, mas sim tristeza. De repente ele parou e eu realmente achei que ele fosse cair em prantos. “Deve ter sido alguma garota muito da filha da puta, só pode” imaginei. Ele parou e ficou olhando pro prato, ficou olhando pro nada e me parecia profundamente triste, melancólico, deprimido mesmo. Aquilo me atingiu um pouco.  Mas ele não chorou. Tomou um gole de água e aquele gole desceu seco na garganta, tenho certeza absoluta disso. Continuou olhando um pouco. Ele parecia não ter ar, não ter chão, não ter nada. Parecia não estar ali.

“Garota filha da puta cara”… Pensei, boba.

Suspirou profundamente. Arrumou seu material, levantou, pegou a bandeja e jogou tudo o que tinha de comida no lixo. Na hora fiquei horrorizada com o desperdício, mas relevei. Havia algo de muito errado com aquele garoto. Talvez não fosse uma garota. Talvez fosse um câncer, a mãe, ou a falta dela. Talvez fosse um problema que ele vinha tentando resolver há algum tempo e só estava pensando naquilo, pois aquele era o jeito dele. Talvez fosse a própria existência que o consumia. Fato era que havia algo de muito errado com aquele garoto…

… e eu nunca vou descobrir o que foi.

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