O balanço

Hoje me aconteceu algo engraçado. Não tenho muito jeito com crianças. Na verdade nunca tive. De uns tempos pra cá tenho sido mais tolerante com elas. Não só isso como também tenho as observado mais. O jeito que elas correm,  se movimentam, se comportam, falam. Antes eu não fazia isso. Acho estranho… Mas enfim. Como eu ia dizendo, hoje aconteceu algo curioso.

Às vezes eu tenho a capacidade de pensar em coisas bastante complexas em questão de segundos e isso me assusta um pouco. É estranho. Não que eu seja a pessoa mais brilhante do mundo, nada disso. É que às vezes eu chego a conclusões de formas bastante inesperadas.

Hoje eu peguei um ônibus pra voltar de casa pro norte da ilha e enquanto eu estava no ônibus eu não pensava em nada. Não pensava em nada e só observava as casas e pessoas fora do ônibus, que passavam. De repente o ônibus parou num ponto que ficava ao lado de um parque. Hoje o dia estava um tanto quanto quente e nesse parque, algumas crianças brincavam. Se não me engano, duas meninas estavam no balanço. Uma das meninas me chamou  mais a atenção, por que ela estava indo muito alto com o balanço.

Na minha cabeça, eu repreendi essa menina imediatamente. Hoje, de imediato, eu faria o que minha mãe e minha madrinha faziam comigo quando eu era pequena e estava no balanço. “Não vá muito alto menina!”, “Você vai cair daí e vai se machucar! Pode quebrar a boca, pode quebrar a cabeça!” e tudo aquilo que mães, madrinhas, tias e vós sempre dizem pra gente…

Incrívelmente, no mesmo momento em que pensei dessa forma, me coloquei também no lugar da criança que está no balanço. E aí eu me emocionei com as respostas que minha cabeça me deu. Crianças gostam de testar limites. Elas não são tão burras quanto os adultos supõem e até sabem que se machucar não é uma coisa boa. Mas não se importam por que elas precisam da experiência.

Weeeee!!

Como lhes falta noção da maioria das coisas, elas se permitem ir até onde acham que devem. Isso muitas vezes acaba em lágrimas, mas acho que a vida é assim mesmo. Lembrando de quando eu era menina e brincava de balanço eu posso recordar algumas coisas.. Eu sentia várias coisas.  A sensação mais óbvia é a de estar voando, lembro bem disso.  Experimentar a rapidez, a cinemática da coisa toda. Crianças não são corajosas, são sem noção. Mas é uma sem noçãozice saudável, às vezes.

A gente não entende muito bem o que se passa na nossa cabeça e no nosso corpo. A altura, o balanço, a rapidez, o medo, a diversão. Os batimentos cardiacos acelerados, uma alegria pequena, quase invisível, inexplicável. Um céu tão azul que a gente quase consegue tocar, um vento que bate nos nossos cabelos num dia quente e nos refresca… Só aí, nesses milésimos de segundos, que eu percebo que cresci e isso é de certa forma, melancólico. Me questiono, sem me indignar, como eu pude trocar essas coisas por outras  mais ‘seguras’?

Alguns adultos me disseram que era melhor assim. Eu mesma, depois de um tempo, disse a mim mesma que era melhor assim. Talvez isso tenha me feito perder várias coisas, nunca vou saber. Talvez tenha me feito ganhar outras. Não é algo que posso medir, quantificar. É só algo que percebo.

As lágrimas vieram e eu não entendi porquê, mas achei a cena bonita e ela misturada com as coisas que pensei formaram um quadro singelo. Pensei muito rapidamente na forma como eu lido com limites (e com a falta deles), na forma que me comporto algumas vezes e na minha quase que total incapacidade de lidar comigo mesma.

Minha vida anda séria demais, mesmo eu sendo nova demais pra isso.

Talvez eu deva sair mais pra brincar, mesmo estando velha demais pra isso.

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