Mar deserto

Chegaria naquele lugar com desleixo total. Desdenharia de tudo. Mas tudo bem, a vida já não tava boa mesmo, então era o que se tinha a fazer. Eu o ridicularizava por que pra mim falar e escrever as coisas sempre foi muito fácil, tudo era sempre muito verborrágico. Pra ele não, escrever era um estorvo, um tormento sem fim. Ele o fazia por que devia, não por que queria. Era quase que uma obrigação com ele mesmo e com o teclado, ou qualquer coisa que o valha, caneta, papel. Mas eu estava naquela cidade, o dia estava bom, as pessoas iam pra praia, o sol estava alto. Um dia realmente perfeito, e aquele lugar era paradisíacamente afrodisíaco. Ok. Táxi, check-in, abri as cortinas do lugar e vi o mar ali daquele alto andar. Eu não sabia se estava feliz e isso era uma constante por aqueles dias.

Pensei em fazer qualquer coisa, pensei em várias coisas, visitar alguns lugares, rever algumas pessoas que não via há cerca de 3 anos, mas não fiz nada disso. Sentei e esperei pra que algo acontecesse. Comigo, de mim, pra mim. E aí acendi um cigarro, pois é isso que se faz nessas horas, mesmo. Tempo é babaquice, apego também. Essas coisas deveriam ser banidas da existência pra que a gente pudesse pelo menos viver um pouco mais, com preocupações a menos. Mas as coisas – e as pessoas – não são tão simples assim e nem tudo é tão fácil quanto parece. As horas passam o firmamento muda de cor, o dia muda de cheiro, chega cansado, suado no final. É sempre assim, quando ele chega perto de mim. Fazia tempo que não me via. Fazia tempo que não me tinha.

Na verdade, acho que nunca teve, nem nunca terá. Não é assim que as coisas funcionam pro outro. Os desejos são outros, a vida também é outra. Qualquer coisa perene é empecilho pro que for. Então o não persiste e eu… Eu insisto. Insisto sem querer, sem perceber o desgaste, sem atinar que tudo não passa de uma brincadeira e que nada vai ser como imagino, como planejo, como EU desejo. Como tinha falado, tempo e apego deveriam ser suprimidos desta realidade. Ah, se deviam. Permaneço deitada-sem me mover. Decidi morrer naquele momento. Decidi negar a existência e aceitar aquela violência como se fosse um presente, uma dádiva. Eu o esperava. O esperaria pra sempre, sendo que o pra sempre era agora. E agora ele me queria. E eu sabia que não, que não era nada daquilo.

– Você tem certeza disso? – perguntei.

Ele fez que sim. E eu não fiz que não, o que é diferente de dizer sim. Ele também não notou de primeira.  Acho que em toda a minha vida, a verdade mesmo é que nunca aprendi a dizer não. E então as situações subverteram em suas mais variadas formas. Claro, a gente faz o que faz, mas é puro impulso, puro instinto, mecânico. Não existe nada ali, não acontece nada. Existe apenas a repetição de algo vazio e sem significado algum. Algo frio, insosso, como a primeira vez, como todas as vezes, como as vezes que nunca foram, nunca serão, como as vezes esquecidas, imaginadas, fantasiadas. Algo fútil. Um filme, uma comédia, com as horas a nos devorar. Você pensa em tudo, menos no que acontece de fato. Não pensa no outro. O outro não existe. Existe só uma situação pequena, mesquinha. Inconsciente. Finita.

– Você é boa mesmo quando está mal. – ele disse.

Não me dou bem com finitudes. Não me sentia nada benevolente naquele momento. Não sentia nada mesmo. Aquele beijo não era um beijo e aquela pessoa era como uma rocha num estado avançado de corrosão pelo tempo. Eu não o enxergava completamente, mas sim como se estivésse fora de foco, algo que atrapalhava minha visão, de certa forma. E eu o amava. O amava sem me entregar como desejava. A minha mente era como um labirinto, só que sem saída e cheio de empecilhos pra que eu realmente pudesse viver e sentir o que eu quisesse, sem armadilhas, sem boicotes. Mas o medo de desilusão era maior do que qualquer coisa. Então me entregava de outras formas, deixando meus sentimentos em estado vegetativo, ignorando qualquer possibilidade, qualquer pensamento, qualquer bem querer.

Aceitava passivamente tudo o que não havia pois alimentar qualquer possibilidade envolveria planejamentos e desgastes e planos frustrados. Algo que nunca poderia dar certo. Algo que não daria certo. Eu só tinha a certeza do quase. Essa sempre tive. Então era isso o que vivia, quase sempre, o tempo todo, exaustivamente. E essa certeza, ao mesmo tempo em que era fértil e florescia dentro de mim, também me amargurava, angustiava e esvaziava. Como uma montanha russa de sentimentos e sensações variadas. Mas tinha fim. Ganhei a rua e estava frio. Ainda podia ouvir a cidade agitada, o cheiro da noite, as pessoas indo de uns lugares pra outros. Ele tinha ido embora. De uma vez por todas, desta vez. Pisava na areia e via o mar. Eu estava perdida, eu estava deserta. Observei e esperei.

O dia amanheceu branco.

mar_deserto

Imagem retirada do flickr /myhaela

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