Sobre papai

Já caí na porrada – literalmente – com ele uma vez, num dia de fúria qualquer desses que a gente tem. Não me orgulho, nem me envergonho, simplesmente aconteceu. Meu pai não nasceu em berço de ouro, mas sempre teve uma vida de muita correria. Eu sei que ele foi militar e, ao contrário da sádica da minha irmã, me recuso a perguntar pra ele sobre aquela época. Se perguntasse, sei que ele não responderia mesmo, então evito constrangimentos. De qualquer forma, ele só me falava das coisas boas que aprendeu com os militares, questão de ordem, disciplina, etc. Hoje em dia não sou exatamente uma mulher disciplinada, mas sou meio exigente, com as coisas em geral e comigo mesma, de uns tempos pra cá.

Enfim… Às vezes fico tentada a acreditar que o sonho do meu pai era ter filhos homens, que gostassem de futebol e de beber cerveja, que nem ele. Mas a vida lhe deu duas meninas. Fico pensando idiotamente que “se eu fosse homem tudo mudaria de figura”, meu pai me enxergaria de forma diferente, não se importaria com alguns detalhes da minha personalidade e me privilegiaria em outras. Em compensação, exigiria muito mais de mim também, o que não seria exatamente algo positivo, dependendo do caso. Mas não fico pensando muito nisso, pois pode não ser verdade. Nunca vou saber. Eu vejo que ele gostaria de filhos homens pela forma que trata meus primos e os namorados meus e da minha irmã. Mas isso deve ser bobagem mesmo.

Meu pai gosta só de 4 coisas hoje em dia: minha mãe, minha irmã, eu e cerveja. E ele quer se aposentar. E eu acho que já deveria mesmo. Não que ele não preste pra mais nada, mas eu reconheço nele a figura do cansaço em pessoa. A barriga, os cabelos brancos, a impaciência com muitas coisas, o jeito eterno de alemão ranzinza dele. Meu pai fica puto muito fácil, mas de uns anos pra cá ele já melhorou muito, conseguiu abstrair e aceitar muitas coisas e eu reconheço isso. Talvez seja a única que perceba isso e talvez só perceba isso porque agora estou morando longe e só o vejo de 6 em 6 meses. Não reclamo muito de saudades. Acho que, no tempo em que “esteve comigo” meu pai me ensinou (ou ao menos tentou ensinar) muitas coisas, simples e complexas.

Ele já brigou com amigos muito próximos por minha causa. Já tentou me educar a fazer a coisa certa, sem didática alguma, de forma completamente errada e desastrosa. Mas pais, antes de serem perfeitos, são humanos. Demorei, mas aprendi isso. Não que ele me quisesse mal, mas nem sempre as coisas saem do jeito que a gente espera. De qualquer forma sempre me senti segura com ele. Uma vez, num carnaval antigo (eu devia ter uns 3 anos e ele gosta muito de carnaval) subi nos ombros dele e pulamos carnaval. Não lembro disso muito claramente, mas consegui resgatar uma foto dessa época. Se eu não consigo me esquecer deste momento em específico, é porque algo importante deve ter acontecido ali. Deve ter sido divertido. Não vou “colorir” essa lembrança, mesmo porque não me recordo muito. Mas deve ter sido divertido mesmo.

Ele faz o melhor churrasco do mundo, o melhor galeto do mundo e também faz sopa de capelletti todos os domingos à noite, só pelo prazer de fazer. Ele lê os jornais, aprendeu a duras penas a mexer com Internet e com o computador. Tudo que ele quer ele consegue, se minha mãe deixar (pois é…). Mas a coisa é que, meu pai nunca quis demais, a vida toda ele foi muito generoso, mesmo sendo ranzinza. Ele me ensinou a amarrar o tênis quando eu tava na primeira série. Mas nessa época ele ainda era meu “tio”.

Ok. Long short story. Eu tive 3 pais até hoje:

1. Pai biológico: não faço a puta idéia de quem seja. Nem quero saber.
2. Pai do RG: o cara com quem minha mãe tava casada na época em que decidiu me ter. Ela se separou dele quando eu tinha 3 anos e depois ele nunca fez questão de manter contato comigo, então não consegui criar nenhum tipo de sentimento por ele. Nem bom, nem ruim. Minha mãe também nunca me falou nada dele, nada de bom, nem de ruim. Também não tenho muito contato com a família dele, nem nada. Dele, só carrego o sobrenome. Ele faleceu há alguns anos atrás e no dia que minha mãe me comunicou isso eu não consegui me sentir mais indiferente.
3. O meu pai: o cara de quem falo nesse texto. O meu pai, que me educou, me criou, paga minhas contas, se aborrece comigo e se orgulha de mim também às vezes.

Me recuso a chamá-lo de padrasto por que simplesmente não parece certo. Nunca pareceu. Ele começou a namorar a minha mãe quando eu realmente era muito pequena, eu devia ter uns 4 anos, por aí. E eles começaram a viver juntos e tudo o mais, e minha mãe nunca me explicou direito o que tava acontecendo. Ela sempre deixava tudo muito solto, pra que eu mesma tirasse minhas próprias conclusões, mesmo que primitivamente. Talvez fosse melhor assim mesmo. E aí ela começou a morar com ele e eu comecei a chamá-lo de “tio”. Ainda não o reconhecia como pai, mas essa conquista se deu aos pouquinhos. E aconteceram muitas coisas boas e engraçadas nessa época de “tio”, mas lembro de pouquíssimas.

Uma marcante foi uma vez que eu era muito pequena e acordei de madrugada, com “fome”. Saí da cama e fui pé-ante-pé até a cozinha, tentando não fazer muito barulho pra não acordar meus pais. Minha irmã ainda não tinha nascido, ou seja, faz muito tempo mesmo. Peguei uma colher (devo ter feito barulho, provavelmente), abri a geladeira e peguei o copo de requeijão. Comi requeijão puro, bem rapidinho. Eu sempre fui assim meio torta, mas não era culpa de ninguém. Só sei que quando eu olhei pra cima, lá estava o rosto do meu pai, iluminado pela luz da geladeira, me olhando com cara de bravo/sonolento. Eu não sabia há quanto tempo ele tava ali me observando, mas não devia ter sido muito. “Já pra cama, menina!”. Acho que foi a primeira vez que senti vergonha na minha vida, mesmo porque, mesmo morando comigo, ele ainda era “um estranho”. Mas voltei a dormir.

Digo e reforço que ele é o meu pai, porque fui eu quem o escolhi pra isso e não o contrário. Não sou filha de sangue e sêmen dele, não tenho nem mesmo o sobrenome dele, mas… Sei lá.. Às vezes acho que papéis, são apenas papéis, coisas pequenas. Burocracia não entende mesmo das coisas humanas, paciência. Um dia ele me contou, bastante emocionado, sobre o dia em que eu resolvi chamá-lo de pai, pela primeira vez. Acho que, como criança, deve ter sido bem difícil pra eu conceber isso, mas eu não via outra forma. Vivia chamando-o de “tio”, sendo que ele fazia coisas que todos os pais faziam. Chegou uma época em que começou a realmente se tornar incômodo, para mim, aquele status eterno de “tio”. Aquilo já não fazia o mínimo de sentido pra mim. Não parecia certo da minha parte ficar chamando ele assim pro resto da vida. Até que um dia eu cheguei pra ele e disse “não quero mais chamar você de tio”. E ele me olhou, achando estranho…

“Vou chamar você de pai de hoje em diante. Posso?”. Eu devia ter uns 5 anos.

Acho que não tinha dimensionado bem a importância da decisão que acabava de tomar, mas tive mais certeza do que medo. A partir daquele momento, quase que magicamente, ele se tornou meu pai. Só hoje percebo o peso e a importância que a minha decisão teve no restante da minha vida, pois hoje sei que ela faz parte de tudo o que sou. Toda vez que conto essa história pra alguém, não consigo deixar de me emocionar. E mesmo com tudo de tosco e ruim que já aconteceu entre a gente, com as brigas, desavenças e tudo, eu posso dizer que sim, que acima de tudo e de qualquer coisa, eu amo muito o meu pai. Do meu jeito meio torto, mas amo. Amo quem ele foi, quem ele é e o que ele representa pra mim. E isso jamais vai poder ser tirado de mim e jamais vai ser esquecido.

E hoje não me restam mais dúvidas disso.

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