O índio

Hoje a tarde acordei de um sonho muito estranho, estranho demais. Sonhei que estava num banho “público” (daqueles que existiam na Roma antiga) mas estava muito quente e aquela arquitetura do lugar onde estava, que mais parecia um “ginásio desportivo” (é a única descrição que se aproxima mais daquele lugar estranho), era espanhola. No sonho eu tinha essa certeza. As piscinas daquele lugar eram enormes, olímpicas. Em alguns lugares, dentro delas, eu não conseguia encostar os pés no fundo. E tinha muita gente por lá também. Eu estava com um maiô azul marinho muito bonito e também estava com um corpo lindo. Mas estava nadando quando o vi, nadando em minha direção. Estranho. Nunca havia sonhado com ele até então. Ele então aparece e fica me provocando, tentando me agarrar de forma muito, muito asquerosa. Parecia um bêbado, sem noção, alcoólatra mesmo. “Mas quando eu o conheci ele não era assim” pensei comigo no sonho.

Ele tinha um olhar semi-zumbificado e parecia que estava drogado não sei do quê. Às vezes ele sussurrava coisas incompreensíveis no meu ouvido, tentando me cantar ou me convencer não sei do quê. Não entendia quase nada do que ele dizia, mas sorria e o mantinha por perto até perceber que aquilo era pointless. Até achava divertidas as tentativas dele de me agarrar, mas chegou uma hora que fui me setindo sufocada, cansada mesmo. Não ia acontecer nada mais entre nós dois e, no sonho, eu aceitei aquilo pra mim mesma com muita facilidade (e quando acordei também). “Pra ele eu não passo disso tudo que ele diz mesmo. Eu não o entendo assim como ele não me entende, não entende o que aconteceu, nem nunca entenderá. Talvez seja melhor assim mesmo” eu ficava pensando. E eu também não o reconhecia mais e isso foi o suficiente pra eu “ir embora” do lugar onde ele estava, e que o deixasse sozinho, nadando, com todas aquelas outras pessoas, enfim.

Esse lugar onde eu estava era imenso, com piscinas e grandiosas quadras “de esporte” vazias, sem redes de nada, nem marcações no chão. Mas com tetos bem altos, onde as vozes de quem quer que se pronunciasse um pouco mais alto, poderiam ser ouvidas de bem longe. E tinha muita gente lá, algumas conversavam normal, outras discutiam apaixonadas e eu conseguia ouvir tudo de todos. As paredes do lugar eram pintadas de uma cor laranja meio terracota, muito linda que constrastava incrívelmente com o céu azul bem límpido lá fora. Fui lá fora, pra ver como era aquele lugar tão místico. Haviam outras casinhas também laranjadas, e outros lugares igualmente bonitos. Olhei praquilo tudo e me senti feliz, não sei por quê. Me senti em casa. Uma brisa suave e gostosa percorreu meu corpo. Via colinas verdes, o sol brilhando bem forte acima de mim e eu me senti conectada (essa é a palavra, e não há outra) com tudo aquilo e senti também uma paz interior muito grande, indescritível mesmo. Eu olhava para todas as coisas e me sentia como se fosse parte delas, parte daquilo tudo, como se estivesse fundida naquele dia bonito, naquela existência quase que divina (e bem esquisita).

Resolvi voltar lá pra dentro, pra tomar mais um banho e então, “voltar pra casa” (onde quer que esse lugar fosse). O ginásio onde estava tinha partes onde estava sendo reformado e alguns “escravos” (que eram pessoas esquisitíssimas), estavam tomando conta disso tudo. Lembro que estava caminhando entre as quadras, indo em direção aos banhos novamente quando de repente achei que um escravo mexeu comigo. Voltei pra olhar pra ele em desaprovação e vi que ele estava trabalhando numa viga, numa escada lá no alto. Não sei por quê, não consegui olhar pra ele com desaprovação. Não sei direito o que ele estava fazendo, mas sei descrevê-lo bem. Ele tinha olhos meio puxados, o nariz levemente achatado, uns lábios bem finos mas largos e o rosto redondo. O cabelo dele era curto (até a orelha) pintado de vermelho-urucum, do jeito que os índios pintam. Ele não tinha sombrancelhas e nos seus olhos também estavam pintados de vermelho. Ele estava de tanga e o corpo dele – que era bem atlético – estava todo coberto por pinturas típicas da tribo dele. O invejei por um instante. No corpo dele tinha muitos losangos e triângulos. Não sei por que, mas o achei lindo.

Parei e fiquei olhando-o lá em cima da escada. Enquanto ele descia, me dizia umas coisas muito lindas, num português perfeito, com uma voz muito calma e mansa, mas imponente, que me entorpecia. Ele parecia asqueroso, mas não era. Fiquei admirada. Tentava, desesperadamente, olhar pra outro lugar, mas não conseguia tirar os olhos dele. Eu olhava-o com ternura. E ele me dizia coisas como “eu sei como os seus olhos e seus cabelos ficam mais bonitos do que de costume, quando o sol passa por eles”, “sei que o seu sorriso genuíno pode ser mais doce e pode valer mais a pena do que qualquer coisa nesse mundo”, “adoro aquele ‘ohm’ que você faz quando medita, pois me acalma também”. Ele falava essas coisas enquanto descia a escada até chegar ao chão onde eu estava, e ficar na minha frente. Eu fiquei bem perplexa, assustada, mas depois fiquei espantada foi com a minha reação: eu comecei a subir a escada e vê-lo de longe, enquanto ele ainda falava monte de coisas sobre mim pra mim, coisas de mim que ele gostava. Eu ficava sem graça (tenho ficado muito sem graça ultimamente) e ria tímida, até chegar ao último degrau da escada. Ao chegar lá em cima continuei olhando pra ele, e pras pinturas no corpo dele, e ouvindo aquela voz que me acalmava e me apavorava ao mesmo tempo. Não sei descrever direito o que senti, mas era um misto de felicidade com um medo irracional não sei do quê. A última coisa que ele disse foi “Eu sempre estou com você”. Clichê, eu sei, mas foi dito de um jeito que não soou como se fosse.

Aí eu acordei.

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