Trechos do filme Waking Life

 

“A razão pela qual eu me recuso a encarar o existencialismo como uma outra moda francesa ou curiosidade histórica é que eu penso que ele tem algo muito importante a nos oferecer, para o novo século. Temo que estamos perdendo as verdadeiras virtudes de viver a vida apaixonadamente no sentido de termos responsabilidade por quem somos, a habilidade de fazer algo de si mesmo e se sentir bem em relação a vida. Existencialismo geralmente é discutido como uma filosofia do desespero, mas eu penso que a verdade é realmente o oposto disso. Sartre, uma vez entrevistado disse que ele nunca sentiu um dia de desespero na vida dele. Uma coisa que aparece de ler esses caras não é tanto um senso de angústia sobre vida, mas um tipo verdadeiro de exuberância de se sentir no topo dela, é como se a vida fosse sua para criá-la. Eu li os pós-modernistas com algum interesse, até admiração, mas quando eu os lia eu sempre tinha esse sentimento irritante horroroso que algo absolutamente essencial estava sendo deixado de lado. Quanto mais você fala sobre uma pessoa como uma construção social ou como uma confluência de forças ou como sendo fragmentada ou marginalizada, o que você faz é abrir um novo mundo inteiro de desculpas. E quando Sartre fala de responsabilidade, ele não está falando de algo abstrato. Ele não está falando sobre o tipo de “eu” ou “almas” que os teólogos falam. Ele está falando de você e eu, conversando, fazendo decisões, fazendo coisas, e recebendo as conseqüências. Pode ser verdade que existem seis bilhões de pessoas nesse mundo, e aumentando, entretanto – o que você faz, faz a diferença. Faz a diferença, primeiramente, em termos materiais, para outras pessoas e dispõe um exemplo. Resumindo, eu penso que a mensagem aqui é que nós nunca deveríamos nos subestimar ou nos vermos como vítimas de várias forças. A decisão por sermos quem somos é sempre nossa.

Grifo meu. Essa cena mata a pau, cara.. O vídeo acima é o meu trecho preferido do filme Waking Life, do Richard Linklater. Acho que ele me resume bem. Se eu pudesse escreveria todos os textos do filme aqui… É o meu filme preferido. Recomendo. Tem MUITOS socos no estômago e é muito bom. A trilha também é maravilhosa, tango e jazz. Simplesmente assistam. Seguem algumas outras pérolas:

img-waklife.jpg32’44”
O desafio é o de nos libertarmos do negativo que nada mais é do que nossa própria vontade do nada. Uma vez tendo dito sim ao instante, a afirmação é contagiosa. Ela explode numa cadeia de afirmações que não conhece limites. Dizer sim a um instante é dizer sim a existência.

59’33”
Se o mundo é falso e nada é real, então tudo é possível. A caminho de descobrir o que amamos, achamos o que bloqueia o nosso desejo. O conforto jamais será confortável. Um questionamento sistemático da felicidade. Corte as cordas vocais dos oradores carismáticos e desvalorize a moeda. Para confrontar o familiar. A sociedade é uma fraude tamanha e venal que exige ser destruída sem deixar rastros. Se há fogo levaremos gasolina. Interrompa a experiência cotidiana e as expectativas que ela traz. Viva como se tudo dependesse de suas ações. Rompa o feitiço da sociedade de consumo para que nossos desejos reprimidos possam se manifestar. Demonstre o que a vida é e o que ela poderia ser. Para imergimos no esquecimento dos atos. Haverá uma intensidade inédita. A troca de amor e ódio, vida e morte, terror e redenção. A afirmação tão inconsequente da liberdade, que nega o limite.

65’04”
Passamos pela vida esbarrando uns nos outros, sempre no piloto automático, como formigas, não sendo solicitados a fazer nada de verdadeiramente humano. Pare. Siga. Ande aqui. Dirija ali. Ações voltadas apenas a sobrevivência. Toda comunicação servindo para manter ativa a colônia de formigas de um modo eficiente e civilizado. “O seu troco”, “Papel ou plástico?”, “Crédito ou débito?”, “Aceita ketchup?”. Não quero um canudo. Quero momentos humanos verdadeiros. Quero ver você. Quero que você me veja. Não quero abrir mão disso. Não quero ser uma formiga, entende?

27’15”
“Nessa ponte,” adverte Lorca, “A vida não é um sonho. Cuidado e cuidado e cuidado”. Tantos crêem que porque o “então” ocorreu, o “agora” não está ocorrendo. Eu não comentei? O “uau” contínuo que está se dando nesse mesmo instante. Somos todos co-autores desta exuberância dançante na qual até as nossas incapacidades se divertem. Nós somos os autores de nós mesmos, criando um romance de Dostoiévski, estrelando palhaços. Isso em que estamos envolvidos, que chamamos de mundo, é uma oportunidade de demostrar como a alienação pode ser fascinante. A vida é uma questão de um milagre formado de momentos perplexos por estarem na presença uns dos outros. O mundo é uma prova pra testar se podemos nos elevar as experiência diretas. A visão é um teste para saber se podemos ver além dela. A matéria é um teste para nossa curiosidade. A dúvida é uma prova para a nossa vitalidade.

Thomas Mann escreveu que preferiria participar da vida que escrever. Giacometti foi atropelado por um carro, certa vez. Ele lembra-se de ter caído em um desmaio lúcido, um prazer repentino, ao perceber que finalmente algo estava lhe acontecendo. Assume-se que não se pode compreender a vida e viver ao mesmo tempo. Não concordo inteiramente. Ou seja, não exatamente discordo. Eu diria que a vida compreendida é a vida vivida. Mas os paradoxos me perturbam. Posso aprender a amar e fazer amor com os paradoxos que me perturbam. E em noites românticas do eu, saio pra dançar salsa com a minha confusão. Antes de sair flutuando não se esqueça, ou seja, lembre-se.. Por que lembrar é muito mais uma atividade psicótica do que esquecer,.. Lorca no mesmo poema disse que o lagarto morderá os que não sonham. E, quando se percebe, que se é um personagem sonhado no sonho de outra pessoa, isso é consciência de si.

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