“Once upon a time there was a crooked tree and a straight tree. And they grew next to each other. And every day the straight tree would look at the crooked tree and he would say “you’re crooked. You’ve always been crooked and you’ll continue to be crooked. But look at me! Look at me!” said the straight tree. He said, “I’m tall and I’m straight”.

And then one day the lumberjacks came into the forest and looked around, and the manager in charge said, “Cut all the straight trees”.

And that crooked tree is still there to this day, growing strong and growing strange.”

Este está sendo um começo do ano difícil. Não gosto do mês de janeiro, nunca gostei. É um mês moroso, onde nada de relevante acontece. Mas algumas coisas estão me angustiando. Coisas que decidi anos atrás, estão cobrando seu preço, com juros e correção monetária. Tenho recursos mas não quero pagar. Preferia estar gastando com outras coisas no momento. Preferia nunca mais fazer planos a tão longo prazo, pra não correr o risco da vida vir e me fazer mudar de ideia, me fazer jogar tudo pro alto e querer fugir com o circo. Mas não dou conta de bancar o arrependimento, não dou conta de bancar os “e se…”‘s provenientes disso. Provavelmente me atormentariam pro resto da vida. Falo como se estivesse tudo inviável, intolerável. Não está, não estão. Mas me vejo numa situação limite, que entendo mais como ilusão do que como real. É uma ilusão que gosto de alimentar, inclusive, para que ela se torne cada vez mais convincente. E preciso parar com isso. Preciso matar essa ideia.

Hoje a tarde foi difícil respirar. Desde a semana passada tem sido, mas hoje parece que foi o ápice. E não consigo respirar porque não consigo me organizar em relação as coisas que preciso fazer. Olho para o que tenho que fazer e não me identifico mais, não me enxergo mais ali e isso se torna uma obrigação terrível com a qual preciso me comprometer. Me puno antecipadamente, acreditando em mil coisas que ainda não são reais: acredito que sou péssima, acredito também que não vou conseguir entregar o que devo e que, se entregar, não será nem do jeito e nem da qualidade que eu gostaria que fosse. Isso me trava num nível que não consigo sequer virar a chave de ignição do troço direito. Quando me preocupo com algo hoje em dia, raramente fico puta ou plenamente perturbada, mas a minha preocupação fica nítida na minha insuficiência respiratória. Bocejos, sonolências, longos suspiros, inspirações infindáveis e que não satisfazem. Falta o elemento ar, a organização, o raciocínio, a oxigenação, a respiração plena.

Ao meditar ocorre na verdade um paradoxo: ao não pensar sobre isso, ao não pensar sobre nada na verdade, eu silencio, e me ponho a interagir com isso sem afetação. Sem o dia a dia. Sem a Dora. Sem a falta de ar. Sem bater ponto no trabalho. Sem nada: apenas isso. Apenas no problema que precisa ser pensado. Há alguns anos eu parei de querer resolver problemas. Isso não me satisfaz mais em nenhum nível. Às vezes tudo o que problemas precisam é ser e estar. As vezes problemas precisam apenas se expressar como tal. Não me identifico, não intervenho, não modifico. “O menor movimento é nefasto”. Apenas testemunho e os reconheço como parte da existência. No estágio pós meditativo nada se transforma: as coisas são como são. Existe apenas aceitação incondicional das coisas como são. Não existem meios termos. All is violent, all is bright. É um tipo de compaixão absurda. É apenas mais um modo de viver.

Vim aqui escrever tudo isso agora e encontro esse rascunho meu, de três anos atrás, escrito em 18 de janeiro de 2016, quando eu ainda nem sonhava em passar pelo que passo hoje:

“A rotina não é uma prática. A prática é uma prática (por mais imbecil que isso possa soar). É a prática também não leva a perfeição. Porque a perfeição não existe (somente no delírio). O que existe é a prática. Eu tenho uma rotina e nunca tive um dia sequer igual ao outro. As pessoas gostam de criar ilusões para si mesmas que as mantém imobilizadas (ou acomodadas).

Por que  é tão difícil ter cuidado com as coisas que são cômodas?”

Meu eu do passado retirou com a mão boa parte a angústia que esteve presente no meu eu de hoje.

Suffering clouds of childhood
Erupting scars of trauma
Rigid anvils soon age into
Tender hallucinations
Humble servants displaying fascinations
Foreboding sense of no return
Young myths in the magic of this time
Young myths in the magic of this time
Between youth
Something was missing
Between youth
Something was missing
Images surrender the slaughtering doves
Biting against the manifesto of time
In the underlying forests of fear,
Caged in creatures freed by birth to experience tears
Between youth
Something was missing
Between youth
Something was missing
Between youth
Something was missing
Between youth
Something was missing

“We suffered a rare, rare blue
So much hurt, on this earth
But you loved me
And I really dared to love you to

Perhaps what I mean to say
It’s that it’s amazing
That your love was mine”

Às vezes, eu tenho um certo receio de “virar ‘motociclista'” ou ainda virar ‘mulher motociclista’. Não quero me identificar com essas coisas. Prefiro só ser uma pessoa que anda de moto mesmo, nos meus próprios termos. Por 30 e poucos anos da minha vida eu me identifiquei com muitas coisas e gostava muito de nomear cada uma delas, às vezes muito literalmente. Para o resto da minha vida, o plano é justamente parar de me identificar com as coisas – com qualquer coisa que seja – e me abrir cada vez mais. Minha própria identificação e minhas definições me previnem de avançar e não desejo uma vida assim. Vai ser muito difícil morrer desse jeito. E eu mereço uma boa morte.

Não quero com isso dizer que serei uma ‘metamorfose ambulante’, pois isso é por demais cansativo e demanda uma energia que não estou disposta a gastar no momento. Não é pra mim. Falo sobre essa flexibilização para não mais obrigar a ser coerente, ser relevante ou a fazer sentido algum pra quem quer que seja. Até pra mim mesma.

Esses dias conversei com uma colega sobre isso, de se identificar com as coisas se baseando numa necessidade mais situacionista, de contexto mesmo. Em alguns lugares vão me cobrar isso e tudo bem, ajo de acordo. Mas no fim do dia, eu sou só uma alma. Mesmo. Na minha perspectiva, né? Por isso a minha ideia de não se identificar com nada. Tem muita coisa no mundo e todas essas coisas me cansam. Abrir mão disso, se esquecer disso, tentar não mais caber nesse mundo me ajuda a construí-lo de acordo com meu desejo… Cada ladrilho de cada passo que eu sou e cada passo que dou, é meu.

As coisas, todas essas coisas – mulher, brasileira, 30 e tantos anos, cor, cabelo, pele, peso, moto, pais, país, história, escolhas, decisões, cidades, lugares, amores, ódios, rancores – não valem a pena.. Não valem a pena carregar. Não valem a pena se identificar. Eu quero romper com todas elas. Elas todas são apenas insuficientes perto do que eu sou agora mesmo e mais ainda perto do que posso vir a ser.

O sino que é utilizado para chamar os meditadores para as atividades.

I

Cheguei ao Dhamma Sarana doente. Antes de sair de casa olhei minha garganta no espelho e estava inflamada, meus ouvidos também estavam entupidos e dentro da minha cabeça soava um “piiiiiiii” incessante. “Preciso passar na farmácia e comprar um antibiótico antes de ir”. Mas eu estava tão agitada e com pressa que não quis ir na farmácia. “Vou melhorar ao longo dos dias”. Cheguei lá por volta das 13h, larguei minha mochila na recepção, ali mesmo já confiscaram o meu celular (a ser devolvido só no último dia) e resolvi dar uma volta pelo local. Entrei numa trilha sem querer e encontrei uma cachoeira escondida. Me emocionei, achei lindo: “vou voltar aqui no último dia”. Voltei pra recepção e depois do check-in aguardei pelas primeiras instruções. No primeiro dia todo mundo fica meio desorientado mesmo, mas o Nobre Silêncio começa ao final da tarde, já antes da primeira seção de meditação. Dividi quarto com mais 9 mulheres, estávamos em 5 beliches. A ala das mulheres era separada da dos homens.

II

Como eu estava muito doente, a primeira coisa que fiz foi beber muita água para ir desintoxicando o corpo aos poucos. Bebi muita água mesmo, levei minha garrafa de 500ml e não deixava ela esvaziar em nenhum momento. Os primeiros 3 dias serviram pra eu me curar da garganta inflamada e fiz de tudo para que isso ocorresse naturalmente (chás, sucos de limão, laranja e maçã). Foram dias bastante regrados com relação aos horários e em como devíamos fazer as coisas. Ainda assim, saía pouco do quarto e da cama nos horários de descanso. Estava acabada, exausta do mundo exterior ainda e me recuperando de uma garganta inflamada, não queria muita agitação: queria só conseguir respirar direito. Não consegui fazer nada que não fosse meditar nesses três primeiros dias e felizmente eles foram bem nublados e chuvosos. Nesses dias aprendemos a meditação Ānāpāna e todo o meu esforço era pra curar minha garganta e para não tossir desesperadamente durante as seções para não atrapalhar os outros.

III

No quarto dia, eu já estava bem melhor da garganta, não sentia dores para engolir, nem nada. Lembrei que estava na minha TPM e que estava ficando cansada e com dores na lombar por conta disso. Lembrei também que eu queria fazer esse curso por pelo menos há uns 3 anos já, mas nunca rolava: ou não encaixava horários, férias ou tinha compromisso ou viagem e outras coisas da vida pra fazer. Nunca dava. Ou talvez eu não estivesse pronta pra ir, mesmo, pra ter este tipo de experiência. Mas neste ano o timing foi perfeito e eu consegui fazer a inscrição bem no meio das minhas férias, com antecedência e planejamento. Nesse ano deu certo e bem, há 3 anos atrás eu não tinha toda experiência com meditação que tenho hoje, por exemplo (isso porque ainda me considero bem leiga). Mas eu nunca tinha tido até então uma experiência de imersão em meditação, algo mais profundo mesmo, praticando diariamente, com horários regrados e em ambiente controlado. E no quarto dia só é que aprendemos a técnica de meditação Vipassana.

IV

A partir do quarto dia, durante os intervalos, eu já não ficava mais tão isolada no quarto, como estava melhor. Nesse dia fez sol e lembro que consegui passear pelo bosque, observar o riacho que passava por ali e finalmente comecei a ver os rostos das mulheres e tentar entender quem era quem por ali. Mas era difícil. A não-comunicação não se limitava apenas a fala, mas também a olhares, gestos e expressões. Nunca cheguei a ter problemas com mosquitos e/ou pernilongos porque aparentemente eu tenho o sangue muito ruim pra esses bichos. Uma das minhas atividades favoritas era pegar um pedaço de pau, sentar em um toco na frente da árvore e ficar derrubando as formigas do caule e rindo sozinha, muito satisfeita por perturbar as formigas. Acho que no dia 5 foi a primeira vez que pensei “mas que saco isso aqui!”. Assim que terminei esse pensamento, me perguntei: “você gostaria de estar em outro lugar agora?” ao que eu respondi, timidamente, “não”. “Então fique aqui e faça o que tem que ser feito. Você não é mais nenhuma criança”. 

V

Do dia 5 ao dia 7 foram os dias mais mágicos pra mim. Um mundo de coisas aconteciam internamente ao mesmo tempo em mim: nada acontecia e tudo acontecia ao mesmo tempo. Eu estava me adaptando àquele lugar e àquela rotina diária de meditação, enquanto aprendia uma técnica nova. Eu estava terminando de me curar de uma garganta inflamada, com sucesso (depois de litros de água e litros de chás e com uma alimentação vegetariana muito bem regrada). Tentava observar o ambiente e agir de acordo e conforme as regras. E aí, no sexto dia eu menstruei e eu previ isso, obviamente. Só que não é permitido o uso de medicamentos durante o curso. Tive cólicas bem intensas no início, que me incomodaram numa meditação pela manhã mas agi rapidamente. Plantei minha lua numa árvore bem alta e bonita que tinha por lá e também deitei de barriga no bosque, pois felizmente fez sol nesses dias também. Essas duas ações bastante simples fizeram minhas cólicas desaparecerem por completo, sem a utilização de nenhum tipo de remédio.

VI

Antes de ir, confesso que fiquei com certo receio pela alimentação ser vegetariana. Talvez me faltasse algum nutriente e eu me sentisse fraca, mas isso nunca ocorreu, em nenhum dia. Todas as dores e incômodos que sentia eram por causa da menstruação (dores leves na lombar) e por causa da posição de meditação (dores nas coxas principalmente). A comida era simples e a mesa era sempre farta. Comida feita com afeto, com capricho, com tempero – eu sempre percebo essas coisas, sempre. Todo dia algo diferente no almoço, só no café da manhã e no lanche das 17h que era sempre a mesma coisa. No entanto, não senti fome em nenhum dia. E nenhum dia, nada que eu comi foi insuficiente, nunca. Sempre era o bastante. E também foi por volta do sexto ou sétimo dia que me lembrei que eu estava a quase uma semana sem tomar café puro. Isso porque antes de ir eu dizia pra mim mesma “mas será que eu vou conseguir sobreviver sem café por dez dias?”. Descobri que sobrevivo sem muitas outras coisas por dez dias, aliás. O café foi o de menos.

VII

O banheiro era coletivo e a lavanderia também. Os quartos também eram divididos e eu aproveitava o menor uso do banheiro a noite para tomar banho. Certa noite, voltando bem tranquila do banho, vejo a porta do meu quarto aberta. Era o oitavo dia, ainda não tinha finalizado o Nobre Silêncio. Uma das moças do meu quarto está na frente da porta do quarto, sem entrar, assustada. Pensei “ué”. Ela pegou no meu braço e apontou pro rodapé da porta. Não enxerguei nada. Ela pegou uma lanterna e apontou para o rodapé da porta onde tinha uma aranha enorme. Dei risada, entrei no quarto e peguei o pote salva-inseto que nós tínhamos lá e retirei a aranha do quarto, sem emitir palavra. Essa não tinha sido a primeira vez que tinha tirado uma aranha do quarto, mas da outra vez eu estava sozinha e acho que ninguém viu. E ninguém ficou sabendo também porque eu não contei. Acho meio bobo se gabar desse tipo de coisa.

VIII

Os últimos dias (8, 9 e 10) foram os mais difíceis, mas acho que é porque todo processo é assim mesmo. Quando chega no final é sempre mais difícil. Para mim, foram os mais difíceis porque ao mesmo tempo em que eu (achava que) estava me aprofundando na técnica, eu também já estava bem cansada da rotina – embora continuasse levando tudo a risca. Mas bem achei chato que algumas pessoas voltaram a falar no dia 8, sendo que o fim do Nobre Silêncio só deveria ocorrer as 10h do dia 9. Acredito que se você se propõe e se compromete com isso, sabendo que existem regras, é meio infantil quebrá-las só porque pode. Sempre que eu ouvia alguém falando ou conversando eu saia de perto o mais rápido possível e me isolava. No dia 9 socializei, claro, mas não muito porque eu não sou muito de socializar mesmo, queria ficar mais na minha. No entanto fiquei sabendo de várias coisas que sequer percebi durante os outros dias: das várias pessoas que desistiram e dos dramas pessoais das pessoas, etc. Mas aquilo me cansava também.

IX

Entendi rapidamente porque Vipassana precisou estar na minha vida e o que ela me ensinou. A questão do sofrimento é algo que me aflige desde que eu me conheço por gente. Desde a primeira vez que eu ralei meu joelho e ele sangrou e eu chorei, chorei e chorei e de repente parei de chorar e me questionei pela primeira vez “por que eu ainda estou chorando?”, quando o sangue já tinha estancado. São coisas muito, muito básicas e que só são passíveis de entendimento a partir da experiência, da vivência. Coisas que até uma criança de 5 anos com o joelho ralado questiona e entende. O meu joelho ralado de adulta, hoje com 34 anos, tem mais a ver com paixões e com desejo do que com sofrimento, ódio ou rancor. Com esses últimos eu já sei lidar. Mas jamais me ocorreu que minhas paixões, meus desejos e principalmente minha impulsividade pudessem me trazer tanto sofrimento. E Vipassana jogou uma luz, imensa, incomensurável, sobre esse aspecto da minha vida que eu deneguei por tantos anos.

X

Até agora os cânticos do N. S. Goenka estão ecoando na minha cabeça. Principalmente a frase que encerrava todas as seções de meditação “Bhavatu Sabba Mangelam”, que significa “que todos os seres possam ser felizes”. Também me lembro dele falando sempre nas meditações para nos lembrarmos de “Anicca, anicca, anicca!” (impermanência, impermanência, impermanência!). Na manhã do último dia, depois da última meditação e do check-out de todo mundo, voltei à cachoeira que tinha ido no primeiro dia. Aquela era uma outra cachoeira e eu era uma outra mulher. O primeiro pensamento que tive foi “eu não quero ir embora daqui”. Meu segundo pensamento foi “ir embora de onde, Dora?”. O terceiro foi “Você já está aqui. Você está sempre aqui. Você já está em casa… E aqui, você é sempre bem vinda”. Me senti acolhida, me senti aceita, me senti profundamente amada… E senti que estava exatamente onde deveria estar. Foi uma sensação maravilhosa de contentamento tão forte, como nunca senti antes. Sentei, chorei e agradeci. Por tudo.

E depois fui embora.

“Anicca, anicca, anicca!”

 

He was just an illusion
Stuck in my own bad air
I’ve thought I had freedom, but
I was stuck in

I made
Choices without reason
Choices without reason
Invite strangers in
And meet them

He was just another man, tryn’a teach me something
He was just another man, tryn’a teach me something

I never expect much
From anyone
So I’m never dissapointed, and I
Never have to trust

I made
Choices without reason
Choices without reason
Invite strangers in
And meet them

He was just another man, tryn’a teach me something
He was just another man, tryn’a teach me something

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