O tambor começou a tocar e eu reconhecia aquilo, aquele som. Meu coração estava disparado e eu não sabia o que fazer para me acalmar. A respiração, descompassada. Me vi no meio de uma mata atlântica, fechada. Chovia e fazia um pouco de frio. Uma loba raivosa, cinzenta. Uma serpente no meio do caminho. Uma arara azul no céu. Eu não sabia ao certo o que tinha que encontrar, eu estava com medo. O coração ainda disparado. Vi um toco de árvore, uma árvore morta, cerrada no meio e um buraco. Um buraco cheio de lama e lodo, frio. Eu não queria entrar ali. Quando entrei, o som se desfez e se tornou uma outra coisa. Se tornou um som fantasma. Uma música que não estava ali, que eu não conseguia ouvir, apenas sentir. Não gostei da experiência por ela ser completamente fora das coisas que estou acostumada a experimentar. Eu descia um buraco escuro pegajoso e aquilo tudo demorava demais. Não passava. Estava frio. Morcegos passaram por mim e aos poucos apareceram pedras e formações. Andei mais um pouco e vi uma fonte de água, quente, radiante, iluminada, de um azul muito muito intenso, contrastando com o restante da caverna, frio e escuro. Fiquei hipnotizada por aquela cor, queria tocá-la, mas tive medo. Falei pra água que estava ali porque tinha feito um tambor, embora não estivesse com ele no momento. A água não respondeu e permaneceu em silêncio, morna, quente, translúcida, iluminada. Olho para baixo e na minha barriga, no meu baixo ventre, um tambor das proporções que eu tinha feito, se forma. Quando olho em frente de novo, daquele pequeno lago quente e iluminado sai um lagarto de fogo, das cores amarelo, laranja e com as extremidades (patas e rabo) em vermelho. Sim, um réptil. A medicina dos sonhadores. Adaptabilidade. Regeneração. Sente abalos sísmicos antes que aconteçam. Frutifica o que é sutil. O bicho asqueroso cor de fogo saiu do lago rapidamente e rastejou até mim e entrou no meu baixo ventre, vindo morar em mim e no meu tambor. Nessa hora eu sentia meu útero contrair. Meu coração continuava disparado, mas aos poucos foi acalmando. Coloquei minha mão direita sob meu baixo útero e minha mão esquerda sob o meu peito. Caminhei em direção ao lago e entrei na água quente, até ficar completamente imersa. Eu não queria mais voltar.

 

Contact and rupture
Unlike a pulse
Law of repetition
We will always follow

Identity is safe
The content is nothing
Deconstruction of form
We will always follow

Manipulate the pulse, the pattern, the rhythm
Dominate the beat
Manipulate the pulse, the pattern, the beat
Dominate the world

Desire remains
Discharge of pleasure
Absence of contact
We will always follow

Manipulate the pulse, the pattern, the rhythm
Dominate the beat
Manipulate the pulse, the pattern, the beat
Dominate the world

Acho que está rolando uma certa ansiedade, por aqui. Acho que eu estou ansiosa desde o final de agosto, na verdade. Setembro e outubro fiquei com a sensação de que algo grande estava para acontecer. Não aconteceu. Ou aconteceu e eu não tive os olhos pra enxergar. Hoje é primeiro de novembro e a sensação persiste, a sensação de reviravolta, de grandiosidade prestes a acontecer, como uma chuva que se forma ao longe, quase caindo por aqui. Acho que na verdade a sensação se intensifica mais por conta da vibe “fim de festa” de final de ano. Não há mais muito a ser feito. As coisas estão de fato acabando, mudando e se modificando. E me sinto pronta pra todas essas mudanças. Olho o calendário desse mês e sei exatamente o que vai acontecer e o do próximo também. Meus pais vão embora, passear longe. A família da minha irmã irá pro sul, passar natal e ano novo lá. Diferentemente do ano passado, esse ano eu vou optar pelo isolamento, total, completo, irrestrito. Não quero estar com ninguém, nem passar com ninguém, nem fazer absolutamente nada a não ser estar sozinha, na minha casa, com as minhas gatas e em silêncio. Não quero outra vida além dessa, no natal e no ano novo. Passarei natal e ano novo, sozinha, reclusa, meditando, cuidando de mim mesma como jamais fiz, cuidando deste corpo e desta vida que me é concedida diariamente, trabalhando que nem uma filha da puta, com todas as coisas que eu gosto, que quero, que tive o privilégio de poder escolher pra mim, ajudando pessoas, criando uma série de coisas, todas minhas, coisas que me definem e definem a minha essência, coisas com as quais, no final das contas, eu não poderia me importar menos. Tudo o que preciso que terminar. Tudo o que preciso trazer à vida, botar no mundo e criar – seguindo tudo de acordo com a lunação e a minha própria e sagrada natureza cíclica, o eterno retorno, a minha própria morte e ressurreição mensal… Tudo se renova, sempre, potencializado. Tudo o que eu quero e preciso conquistar, pra viver melhor, pra ser alguém melhor pra mim mesma. E nesse começo de mês isso me dá mais excitação que cansaço. É uma ansiedade positiva, por assim dizer? Pode ser. Tenho feito por onde, tenho focalizado toda essa energia pra onde ela irá de fato me trazer mais retorno e tenho sucedido nisso. E isso é complicado, pois dou o ano por acabado sem dar lá muito espaço para improvisações ou situações diferentes. Mesmo porque eu acredito que elas não irão acontecer. Mas e essa sensação que persiste? Talvez ela esteja acontecendo, só que lentamente. De forma tão lenta, que eu não perceba. De forma tão lenta, que está acontecendo desde agosto – em micromomentos – e eu não esteja me dando conta. Talvez eu não tenha os olhos pra enxergar. De qualquer modo, eu estou animada. E de peito aberto pra tudo o que está por vir. Seja o que for. Eu estou aqui. Só vem.

Fomos ao cinema. Antes de entrar na sala escura, falávamos de anseios, expectativas, medos e delírios. Alucinações também, causadas fisiologicamente de forma natural (biológica, problemas de DNA) e nem tanto (privação de sono, alimentação, etc.). Houve uma cena no início do filme em que o personagem principal chega em casa e há um software à sua espera, que em dado momento se transforma em um holograma, translúcido, mas bastante real. Nesse momento eu dei um suspiro, profundo. Eu nunca consigo me conter. E meus suspiros são uma de minhas características mais óbvias e profundas ao mesmo tempo. Eu não preciso afirmar nada, justificar nada… Apenas suspirar. É espontâneo. E está tudo num sopro meu. Ele notou o suspiro e me questionou acerca dele, como sempre, muito atento aos meus detalhes. Suspirei porque me lembrei de todas as coisas que existem entre o meu sono, o meu sonho e a minha vigília, nesse momento. Suspirei a princípio também porque achei tudo muito triste. E por conta do espelho, obviamente. Suspirei profundamente principalmente porque houve uma identificação imediata com o personagem principal. Como ele, também vivo em ilusões e em realidades paralelas – com um pouco menos de tecnologia envolvida, mas ainda assim, de modo bastante similar. Realidades que eu crio sozinha para mim e me são mais caras do que qualquer outra coisa que dizem ser real. O real não me interessa, na maior parte do tempo. Não achei que o meu suspiro fosse se estender tanto, mas acabou se estendendo. Se estendeu à minha memória como ela é, à total ausência de afeto – o mundo é um lugar hostil – e a frequente busca por ele, a partir de ilusões enquanto dispositivos que uso para conseguir sobreviver de forma um pouco menos áspera em meio a tudo isso. Meu suspiro se estendeu também às coisas escondidas em cantos escuros de nossas cabeças, às coisas implantadas – não por nós – e principalmente, às coisas esquecidas. A um passado que tem a possibilidade de ser reinventado, que seja sempre meio irreal. Todas essas coisas como ícones aos quais veneramos por toda uma vida sem nos perguntarmos muito exatamente os porquês, disso tudo. As datas, as milhas, os marcos, as fugas, as memórias, as lembranças… São dados que levam nossos pés ao nosso destino. Destino, então, que se torna uma escada a qual não mais precisamos escalar, mas onde nos recostamos e apenas cumprimos o que precisa ser realizado.

Reduzir o amor a sua faceta mais idealizada, romântica e pueril é no mínimo ingênuo e arriscado. Pois coloca o significante como idêntico a um sentido específico, impondo um único conceito possível, ou certo para o que daremos o nome de amor.

O amor pode ter muitos nomes, facetas e diversas saídas … Inclusive mortíferas e destrutivas.

O ódio mantém tantos laços quanto o amor.
O ódio, não como um antônimo do amor, mas como uma outra polaridade, dotada de uma intenso investimento libidinal. São faces de uma mesma moeda.
Não se odeia qualquer um, como não se ama qualquer um.

(W. M-C. M.)

“You Fish like to zig-zag back and forth as you wiggle your way closer and closer to your loosely defined destination that gains clarity as you approach it.”

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