I

Acabei de ser completamente honesta com alguém e isso está me fazendo sentir adulta. É um sentimento bem bobo na verdade, sei que vai passar. Mas acho interessante analisá-lo enquanto ele ainda acontece. Me aconteceu algo, novamente, que eu (ainda) não sabia se gostava ou não. Quando aconteceu, eu decidi que não gostava, pois me senti mal por algum motivo. Não queria aquilo. Ao invés de ser reativa, apenas me reservei o direito de dizer “bem, eu não esperava por isso”. E esperei um pouco mais de tempo passar e a parada sedimentar. Isso levou apenas alguns minutos a mais. Aí eu realmente comecei a pensar sobre isso e a questionar o que eu estava sentindo, pois não se tratava de raiva, mas de uma inquietação apenas (essas coisas tendem a se confundir com uma frequência impressionante). “Na verdade mesmo, eu gosto disso, mas não  deste modo, desta forma” e comecei a escrever um pequeno script deixando claro de forma bem explícita (pontuando) o porquê da inquietação com a situação. Isso levou segundos: gostaria de deixar as coisas claras entre nós, nada contra o que ocorreu, mas me desagrada a forma como ocorreu pois na verdade eu prefiro esta outra forma aqui (dei um exemplo) e me sinto meio chateada quando as coisas não saem do meu modo. Não se sinta obrigado a nada apenas SAIBA o que eu estou sentindo, o que eu gosto e o que não gosto. Só isso. A minha inquietação se dissipou.

II

A fumaça saindo da sua boca enquanto você fuma, o óculos, o sotaque e os estrangeirismos. Eu queria me pegar menos vezes repousando os olhos delongadamente em quem não deveria. E a esta altura eu simplesmente sei que não deveria. Estou velha e não quero mais problemas pra mim. E você é um problema que eu não vou resolver. Uma frieza que é ora típica, ora protocolar, o estender de mãos ao invés de me beijar o rosto como todos os outros, e a não-despedida. Acho engraçado, mas não rio na sua frente. Jamais tentei te seduzir e jamais tentarei. Não haverá esforço algum da minha parte. As faíscas já são óbvias quando nos aproximamos, em todo caso. Te uso pra me observar. Pra observar como me comporto, o que quero, o que penso, o que desejo. E principalmente COMO, de que forma faço isso tudo. Te uso pra fortalecer minha própria estrutura. Quando você começou a digitar o endereço de um site que deveríamos ver, na barra de endereços apareceu na lista um site de putaria. Vi e não sorri. Seria constrangedor se apenas não fosse interessante demais. Fingi que não vi, obviamente, e de qualquer modo, somos todos adultos aqui, o que há demais? Mas fiquei curiosa e fui visitar o tal do site depois, sim. Eu queria ver. Foi bem frustrante. Um senso estético de pornografia completamente padrão e lugar comum, absolutamente nada do conteúdo me fez brilhar os olhos. Mas aí pensei também que eu não possuo o mindset de putaria. Segundo o digníssimo Louie CK, I’m a tourist in sexual perversion, he’s a prisoner there. Bem, talvez ele esteja certo. Resume bem. Meu tesão é em outras coisas. Meu tesão é em quases. E isso eu já tenho de sobra.

III

Uma das coisas mais difíceis que eu estou aprendendo este ano é: eu posso gostar de uma pessoa, achá-la muito foda e etc., e, ainda assim, não querer trepar com ela. Não querer, não precisar, me recusar. É muito difícil chegar neste ponto, mas eu preciso, por mim mesma. As coisas tendem a se confundir muito pra mim quando eu gosto de alguém, principalmente nesse sentido sexual da coisa, é bastante complicado. Sempre fui mega passiva e sempre achei que tivesse que aceitar tudo. Mas a verdade é que eu entendi homens mais novos não me atraem muito, sexualmente. Não tenho paciência. Não quero aprender a ter. Mas que posso sim me relacionar com eles, conversar, ir em lugares, mostrar a cidade, fazer uma série de coisas que um casal faria… Menos trepar. Essa parte a gente pula. Essa parte não vale a pena. Não vou dizer que jamais farei isso porque é bobo e porque pode acontecer. Acho que o que me desconcerta com este menino novo em questão não é nem a idade, mas a sensação de quase que uma indiferença. A sensação iminente de que não precisava ser eu, sabe? Podia ser qualquer outra. E isso não é exclusividade de homens mais novos, mas é exclusividade de homens que só pensam em meter (ou seja, grande maioria). Não há um encontro, não há um significado, tem somente aquilo, que poderia ser outra coisa também, desde que estivessem metendo. Com jovens isso é mais evidente pois: jovens. Mas todos são assim, em algum ponto, independente de idade – porque são homens. Mas eu posso escolher não querer isso pra mim. Essa falta de envolvimento, de cuidado, de consideração, do que quer que seja. Não tô a fim disso. E acredito que isso vai me fazer permanecer sozinha por muito mais tempo.

Última vez que isto aconteceu eu tive tempo mas não sabia o que fazer da minha vida, pra onde ir. Foi “a pior época da minha vida”, sendo salva apenas pelo fato de que ele veio me visitar e ficou uns dias. Não foi uma época de introspecção não, foi uma época depressiva mesmo. Que quase entrei em colapso. Esquecia de tomar banho e saía com a mesma roupa cinza por dias seguidos. Nada fazia muita diferença pra mim. Os sucessivos abandonos impulsionaram ainda mais o meu auto-abandono. Me deixei completamente sozinha. Me larguei. Foi horrível, mas sobrevivi. Eu sempre dou um jeito de continuar por aqui. Esse ano foi diferente. Diferente demais: eu não tive tempo. Não houve tempo pra introspecção, mas por outros motivos. Eu estava cheia de mim mesma. Tive muitas coisas pra fazer. Eu tinha muita vida pra viver, muito a agradecer… Eu não tive tempo de viver luto de nada, porque não houve do que me lamentar. Só houve uma mudança, nada demais. E eu só tive tempo de ser forte e de me fortalecer. E eu descansei bastante também. Descansei pra um caralho. Respirei e me renovei. Aprendi a ter fluência no trânsito de São Paulo, que é muito mais orgânico do que jamais imaginei que seria. Conheci muitas pessoas e não só isso, mas tive verdadeiros encontros, pessoas que me olham nos olhos e falam a mesma língua que eu, que se aproximam, que me fazem eu me sentir um pouco menos sozinha, mesmo que momentaneamente. Tive aulas da pós-graduação, fui em todas mesmo quando tava ficando chato, no final. Castrei as três gatas porque era isso o que tinha que ser feito e foi tarde até. Ajudei um amigo a fazer uma viagem internacional, dando muito apoio moral e conversa. Cantei no karaokê músicas cafonas com amigas que gosto muito. Fui em vários rituais e cada um deles abriu olhos diferentes meus que estavam fechados e eu sei que existem muitos mais a serem abertos. Senti muito a sua falta e amei cada memória que ainda me resta de tudo o que houve, mesmo as ruins – é o que me fez ser quem sou, é o que me faz estar aqui, logo, sou grata. Caí de moto, mas contatei o pessoal do grupo de moto e vieram consertar, pessoal gente boa, pessoas incríveis que trabalham com as mãos. Fui num show muito foda perto de casa com amigos de longe. Dei algumas caronas de moto pela primeira vez. Peguei um freela que me ensinou umas coisas e me deixou muito bolada, mas consegui resolver. Fui chamada pra dar aulas e aceitei na lata, mesmo sem ter muita certeza se é isso mesmo o que quero pra mim. Ajudei uma amiga a conseguir um estágio FODA na minha área. Descansei meus olhos por mais tempo do que deveria em algo que considero bonito e ainda não aprendi a lição da beleza (mas sei que ela está por vir e será logo). Senti falta (e ainda sinto) da minha família, dos meus pais, de estar entre os meus de algum modo. Senti falta de gente que não merece que eu sinta nada por elas. Fui pra Santos de moto e voltei. Não soube o que queria e soube, exatamente, o que não queria em absoluto. Fiz uma tatuagem pra marcar o tempo e farei mais outras pra marcar o tempo novamente. Gritei com a minha mãe, me arrependi, vi que eu era uma imbecil, pedi desculpas, segui em frente. Me olhei no espelho e senti dismorfia corporal, várias vezes, talvez diariamente. Fui paciente e esperei. Meditei em casa, andando, pilotando a moto. Orei em romeni todos os dias antes de dormir. Fui mesquinha e mão aberta. Li um livro sobre o sagrado feminino. Menstruei em todas as luas novas. Ovulei em todas as luas cheias e, assim, criei o meu presente. Enfim… Não houve tempo pra introspecção. Mas houve um tempo necessário para uma série de coisas que pavimentaram (e muito) o agora. E agora haverá mais.

Ontem eu gritei. Eu gritava ao telefone. “Você está ouvindo alguma coisa do que estou dizendo? Você me ouve?”. Dizem que quando duas pessoas que se amam gritam uma com a outra é porque seus corações já estão distantes. Algo assim.. Não percebi na hora, mas percebi depois. O quanto sou mesquinha, egoísta. Quem não ouvia nada era eu, na verdade. Quem era orgulhosa e se recusava a dar o braço a torcer. A aceitar ajuda, cuidado, carinho. Eu sou reativa com quem não merece, com quem me quer bem. Demorei pra perceber isso mas percebi muito mais rapidamente que há alguns anos atrás. Fui meditar. Me senti mal, muito mal. Me senti triste, de verdade. E me aprofundei nessa tristeza, questionei ela de todos os modos possíveis. Por que eu gritei? Qual a necessidade disso? Desse tipo de reação? Por que mesmo reagi assim? E de repente me dei conta de que eu estava na verdade reagindo contra mim mesma. E fiquei profundamente triste. Com o que aconteceu. Comigo mesma. Com tudo. Não precisa ser assim. As coisas, elas não precisam ser assim. Me senti constrangida, com vergonha mesmo. Me senti tentada a me auto-depreciar no mesmo instante. Segurei essa tentação e a afastei. Inspirei, expirei, deixei ir. Mas me lembrei, de tudo. Hoje quando nos encontramos eu pedi desculpas, timidamente. No fim do dia não senti que o que eu disse foi o suficiente. Falei com outras pessoas, fiquei ainda mais consciente do ocorrido, chorei um pouco, fiquei angustiada. E então resolvi pedir desculpas por escrito, me responsabilizando pelo que aconteceu e falando sobre o quanto aquilo me aborreceu e do quanto estava (estou) chateada e constrangida com tudo. Pedi desculpas, pedi perdão, disse que a amava e que era grata, pela preocupação dela comigo. Ela tem razão. E não estou dizendo isso de forma passivo-agressiva, pra terminar uma discussão, nem nada do tipo. Mas estou dizendo genuinamente, com tudo o que eu sinto, de verdade. Eu sou boba às vezes, é verdade. Mas é meu dever me redimir, me perdoar e seguir em frente.

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