Anos atrás me disseram que hoje era uma bobagem. Anos atrás fui tomada de assalto, nessa mesma data, pra não esquecer. A gente tenta deixar pra trás, fingir que não vale a pena, tenta esquecer. Isso, sim, é bobagem. A maior delas. Algumas coisas importam. Na verdade, só o que importa, importa. O resto é meio irrelevante mesmo.

A pior coisa que já fiz num desses dias foi pedir pra você me escrever alguma coisa. Meu Deus, foi tudo muito horrível. Tudo foi absolutamente sem espontaneidade: o pedido e o que você escreveu. Tudo muito errado, muito triste, muito sofrido. Hoje lembro disso rindo, mas na época sofri muito por não ter sido correspondida da forma que eu imaginava. Aquela foi a epítome de uma situação criada artificialmente, por ambas as partes. Tudo muito falso, tudo muito ridículo mesmo, na verdade. Sofri horrores, você não me ama de verdade, você só quer meu corpo, você só pensa em sexo… Justo quem dizendo isso, não? Enfim. Passou. É até divertido lembrar hoje, porque parece que não foi comigo de tão bizarro.

Reli um texto que escrevi há dois anos atrás, sobre como me sentia em relação a relacionamentos. Mesmo escrito em 2016, ainda reflete um pouco – muito pouco – do que vivo e do que sinto por aqui. Das necessidades que tenho. Mas muita coisa mudou, muita ponte foi queimada, muito comportamento foi revisto e alterado – mesmo que lentamente. Não sou mais a mesma pessoa, praticamente. Minhas expectativas e sentimentos são outros. Me relaciono com – e sinto, e quero, e desejo – o outro de formas drasticamente diferentes. E isso requer sempre muito trabalho interno e lutas diárias pra lidar com todas as minhas sombras. Pra lidar com cada uma delas. Nem sempre é possível né, mas na maior parte do tempo a gente tenta sim. Toda tentativa é válida, absolutamente.

Em 2016 já tinha dado uma certa guinada rumando pra auto-consciência e outros estudos de auto-conhecimento, mas ainda não tinha aceitado muito bem esse meu caminho de construção de identidade. Sim, parece bobo, parece raso, mas não é – eu só não quero e não vou ficar falando muito disso porque nem eu mesma sei ainda do que se trata direito, estou descobrindo. E tudo o que faço e descubro é extremamente pragmático, só diz respeito a mim, ao que eu vivo e como eu vivo. Não sirvo de exemplo pra ninguém, não. Só sei que estou nesse chão que estou pisando e que está se fazendo sob meus pés desde 2016 e só agora as coisas parecem estar ficando mais claras por aqui.

Não me privo de nada, no entanto: sinto atração constantemente, flerto, descubro cada vez mais coisas sobre minha própria feminilidade, adormecida por tantos anos, me apaixono profundamente por homens que me parecem muito interessantes, me declaro, observo cada um de meus ciclos e suas variáveis, me desapaixono aos poucos, sem perder a admiração, sem me perder demais no desgostar, simplesmente porque ele não me interessa e não vale mais a pena. Eu estou aqui, mas não sou mais daqui. Demoro muito pra gostar de verdade de alguém, então nada mais natural que demorar pra desgostar também. Tenho tentado ser menos volátil, mas nem por isso menos mutável. Todo o meu esforço tem sido para tentar ser menos reativa e muito mais contemplativa, do meu próprio corpo, do que sinto, do porquê sinto, das minhas emoções. Em enxergar o outro de verdade e evitar julgá-lo, principalmente sem fazer ideia do que a pessoa passou. Tudo ainda é um grande mistério e cada vez mais. Cada vez mais.

Mas me parece que nos próximos anos eu devo permanecer sozinha mesmo e em busca de descobrir mais algumas coisas por aqui e devo focar minhas energias exclusivamente nisso: pra me trazer cada vez mais ao mundo. Cada vez mais pra essa existência aqui e agora. Me abrir mais pra tudo isso o que existe. Pra descobrir minha verdadeira vontade. Pra fazer com que minha existência tenha propósito (mesmo que breve e irrelevante, etc.). Mas para que tudo seja eu e para que tudo seja meu, do começo ao fim. É bizarro isso porque eu já me acho absurdamente auto-suficiente, mas tudo o que me aparece me diz pra eu me tornar ainda mais independente. Talvez seja em outros níveis, em níveis que ainda não enxergo ou ainda desconheço. É bastante solitário sim, bastante triste… Mas é um caminho que eu sinto que deve ser tomado e eu estou tomando. E o mais importante: eu quero essas coisas mais do que qualquer outra coisa. Relacionamentos são legais sim, mas agora talvez não seja o momento pra mim – quem sabe talvez quando eu for mais velha, quando estiver mais madura pra caminhar com um outro alguém. Ou quem sabe talvez nem aconteça, enfim. Isso não é mais exatamente a coisa mais relevante da vida agora pra mim.

Os últimos dois anos tem sido o de uma luta, diária, pra ser menos amarga e pra não me tornar um poço de cinismo, por mais que o mundo e as pessoas me forcem a isso às vezes. Já fui isso por muito tempo nessa vida e agora isso não me serve mais. Não combina mais comigo, nem com quem eu sou hoje. Tomo muito cuidado com algumas armadilhas do feminismo que, por mais que nos façam acreditar que tenhamos motivos de sobra pra misandria, não quero odiar a todos os homens indistintamente. Não acho isso saudável, prefiro conviver. Nos últimos tempos tive a sorte de conhecer muitos caras que não são completos babacas e também tive a oportunidade de mudar o meu comportamento em relação aos homens. Aprendi que posso sentir afeto por eles, sem precisar me embrenhar num joguinho odioso e que só traz sofrimento e uma sensação terrível de segregação e inadequação. Não é eu e eles: sinto que posso fazer parte, de fato. Aprendi a lidar com as ilusões que a minha mente e o meu corpo projetam em mim, estudando sobre os mistérios do meu próprio ciclo e também da lunação. Enfim… Existem outras coisas em jogo, agora. Existem MUITAS coisas em jogo, agora.

E eu também descobri que não é força, é jeito.

É preciso muito jeito, pra transformar solidão em solitude. É quase uma alquimia, na verdade. E não só fazer isso, como fazer isso com graciosidade. É preciso um senso absurdo de persistência pra fazer com que todo o auto-abandono que sentimos seja sempre preterido. E que todo o cuidado consigo mesma seja feito diligentemente e de forma diária e constante. Ainda peco muito nisso, mas persisto. É preciso atenção para não aceitar nada menos do que eu acredito que mereço em termos de afeto, pra passar pelos desencontros com sorrisos e com o coração tranquilo e não reclamar muito do tempo, mas fazer com que ele trabalhe ao meu favor, ao meu próprio aperfeiçoamento, a mim mesma, quem eu sou, o que faço, o que penso, etc. Ainda terei muito tempo para passar comigo mesma e, bem, eu só estou no começo da jornada. Na escolha que volta e meia preciso fazer entre o medo e o amor, estou aprendendo cada vez mais a escolher o amor. Uma situação de vida por vez. Ainda acho que o amor é uma ideia sim e um ideal também. E relacionamentos até que fazem parte disso, mas são só uma parte. Mas eu amo mais é essa ideia, mesmo. Esse ideal. Acredito que essa seja a chave pro desdobramento de várias outras coisas.

O desafio não é mais tanto ter cada vez mais amor, mas ser.

E não parar.

Juro que não queria sonhar com você.

Mas acho que, na verdade, tenho sonhado comigo mesma.

Eu só estou disfarçada de você.

I asked myself was I content,
with the world that I once cherished?
Did it bring me to this darkened place
to contemplate my perfect future?
I will not stand nor utter words against this tide of hate.
Losing sight of what and who I was again

I’m so sorry if these seething words I say
Impress on you
That I’ve become the anathema of my soul

I can’t say that you’re losing me
I always tried to keep myself tied to this world,
But I know where this is leading me
Please
No tears
No sympathy

I can’t say that you’re losing me
But I must be that which I am
Though I know where this could take me
No tears
No sympathy

Gracefully
Respectfully
Facing conflict deep inside myself
But here confined
Losing control of what I could not change

Gracefully
Respectfully
I ask you “Please don’t worry,”
Not for me
Don’t turn your back
Don’t turn away

I can’t say that you’re losing me
I always tried to keep myself tied to this world
But I know where this is leading
Please
No tears
No sympathy

I can’t say that you’re losing me
But I must be that which I am
Though I know where this could take me
No tears
No sympathy

No tears for me, no sympathy
No tears for me, no sympathy

Só conseguia pensar que fico abismada com violência gratuita, embora não seja exatamente este o caso do clipe. Explico: ele é chocante não porque a violência é gratuita ou completamente fora da realidade, mas justamente por parecer real demais. Por ser fratura exposta. E isso faz todo mundo prestar atenção, de uma forma bem incômoda e desagradável, mas faz. A obra não faz questão nenhuma de sutilezas.

Essa obra não possui ironia alguma, nem sarcasmo ou acidez. Ela é quase que crua, bastante próxima do real. E é isso o que apavora: essa linha tênue. Sem contar nos contrastes, notas altas, notas baixas e o silêncios que a pistola e a metralhadora fazem ecoar na nossa cabeça. A gente está se distraindo com coisas desimportantes enquanto nos matamos e enquanto a história acontece no background. “I gotta carry on”. Róla um wake up call sim.

Causar mal estar e desconforto entre os seus (pra expôr uma dor ou um problema ou o que seja) é uma arte extremamente difícil de dominar e que admiro bastante. E o Childish Gambino fez isso com maestria. Acho que não existe nada mais aterrorizante do que algo que seja muito familiar e que te traga conforto, repentinamente te causar medo ao mesmo tempo. Porque o medo real não está fora, não está no outro, nos inimigos, no óbvio. O medo está dentro.

Eu estava escorada no balcão do bar, não lembro bem no que estava pensando, quando de repente tenho uma sensação quente na parte de trás do meu braço esquerdo. Tirei o meu braço rapidamente, assustada. Não vi que era o seu braço encostando no meu, entregando coisas pra algum outro alguém atrás de mim. “Desculpe!” você me falou, por me tocar sem querer. Eu já estava alcoolizada e provavelmente respondi “ah, não foi nada” com a voz alcoólica mais macia que consegui fazer. Não nos tocamos com frequência. Das duas vezes que estive no bar, estendi minha mão direita e te cumprimentei com a voz mais firme que consegui fazer. O lugar estava cheio, minha presença precisa ser notada e eu não gosto de ficar com a garganta seca por muito tempo. Gosto do som da sua voz, da curva de cada uma das suas letras que caem no meu ouvido.

Passei meses sem perceber isso, final do ano percebi, despercebi e no início do ano percebi novamente. Eu me confundo, me distraio. Mas as coisas se encaixaram. E no início é sempre tudo muito estranho. Não me constranjo mais, não sou uma menina. Acho que nunca fui, só que sempre pelos motivos errados. Em um dos passeios, assim que cheguei, fui reta e direta te cumprimentar, sem medo algum. Eu estava com um batom escuro, você me olhou com olhos arregalados, pois achava que eu fosse te ignorar. Mas naquele dia eu já sabia. Te cumprimentei, com abraço e beijo mas foi isso. Eu não tinha nada a oferecer naquele momento que não fosse um desejo cego, vazio. Não tinha te aprendido ainda. E ainda não haviam todas as coisas que existem agora, hoje. Eu não as carregava em mim.

Agora entendo que não preciso ter medo. E que também não quero programar nada, planejar ou pensar em nada. No momento, eu só quero sentir. Só sentir. Estar aberta pra isso, de fato: pro sim, pro não, pro que vier. Eu só quero estar ali. Sei que tenho um longo caminho pela frente. E quero isso.

I watched you in your tragic beauty walk beneath my window.
Eyes aimed high, but unfocused. You never noticed me.
You always wore the same dress; always bore the same
expression: “It’s a loveless world so what’s the point of looking? Let it be…”
I considered throwing roses – thought I’d maybe wave a flag.
Had to try and force some small connection – but, there’s a snag.
It’s my confession that I watch you in my tragic isolation.
In my fear… That’s the way it’s been for years.
That’s the way it will always be…

Sonhei que estava num escritório com espelho pra frente do mar, trabalhando, quando de repente a terra se dobrava e avançava em direção ao prédio. Dava pra ver os outros estados, dobrados, vindos do céu. Até que o mar veio. Primeiro, foi aterrorizante. E depois tudo muito, muito, muito errado. Eu diria num primeiro momento que “sonhei com um tsunami”, mas não. Era algo muito pior. Era a terra se dobrando e vindo do céu, com tudo junto. E antes do primeiro impacto, eu estava em meditação. Não o senti, porque na hora que bateu no vidro, acordei pra essa realidade aqui. Enfim…

Vai ter mudança. E não vai ser pequena e nem sutil. Vai ser brusca e a olhos vistos, de todos. É a terra no céu junto com a força avassaladora e devastadora da água.

Como continuar vivendo quando a gente sabe que a catástrofe está a espreita na esquina? E que somos pequenos e impotentes e que não há muito o que possamos fazer em relação a isso? Bom, a gente só levanta e vai trabalhar porque não há exatamente muito a ser feito mesmo.

Ao mesmo tempo em que fico prostrada, também fico inquieta. Sinto medo ao mesmo tempo em que quero mais é ver o oco, para que o marasmo e o tédio se dissipem ao menos temporariamente. As coisas são todas meio ambíguas por aqui, desde que eu consigo me lembrar.

A sensação e o sentimento mais demarcado que esses sonhos causam em mim é uma sensação de urgência mesmo. Mas urgência do quê, exatamente? Bem, o tempo e os caminhos vão mostrar… No tempo que me resta, eu danço no abismo. Não tenho pressa, mas não perco tempo. Apresso-me vagarosamente. Festina lente.

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