Hoje me dei conta de que sou qualquer uma. De que posso ser qualquer uma. E que, paradoxalmente, ser qualquer uma não é pra qualquer uma. De que, na verdade mesmo, nada do que eu faça faz mesmo muita ou alguma diferença. Notar isso me deixou meio deprimida por alguns instantes, mas na verdade foi mais libertador do que qualquer outra coisa. Sou irrelevante. Não importo. Não faço a mínima diferença. Esse tipo de pensamento tem o efeito contraditório em mim. Ele não me limita, pelo contrário, me impulsiona a ser o que eu quiser, assim que eu quiser ser. Esta parte ainda não está muito bem esclarecida ainda: não sei o que quero. Em vários sentidos. Só sei o que não quero e isso ao menos já é um começo.

Sabia, por cima, que alguma mudança brusca aconteceria, só não imaginava que fosse tanta. E não imaginava que fosse assim. Me vejo sendo obrigada, forçada na verdade, a dizer mais não do que sim, para algumas coisas. Eu nunca fui assim. Sempre tive medo da escassez, o tempo todo. Sempre tive muito medo do que pudesse me fazer falta. Por isso o sim sim sim o tempo todo. Em um espaço muito curto de tempo, disse não para duas coisas que comumente diria sim. Ontem acordei e disse não, mais uma vez, para algo importante. Ainda não dimensionei muito bem o que esses nãos querem dizer, só os observo ali, espalhando-se aos poucos. Não concordo. Não acho certo. Não quero fazer parte disso. Estou deixando de aceitar coisas em série.

Estou deixando de engolir coisas que não preciso engolir.

Dizer não para coisas que não quero ou não me importo é um tanto quanto fácil. O que me assusta é dizer não, genuinamente, para coisas que amo. Ou que quero muito. Simplesmente reconhecer, de forma não afetada, que estas coisas não me servem, que não são pra mim. A imagem que me vem em mente é a de véus, que estou tirando um a um. Ainda não enxergo o que há por trás deles – e talvez isso jamais aconteça, enfim – mas eles estão sendo retirados. Ou ainda, estou consciente de que eles existem e não estou permitindo mais que perturbem a minha visão. Não sei o que é pior: chegar a dizer o não ou antes disso mesmo me perceber desgostosa com situações que há pouco tempo me entesavam muitíssimo. A partir disso acontece o estranhamento. A partir disso, aconteço.

Don’t stop the world, you know you can’t, you have to live what’s only real.
Can’t stop the world and start again,
you have to feel what’s only real.
You’ve got to take life by the hand
let the substance close you in,
hope to one day come alive.
You have to take life by the hand,
hope to one day understand.

Wasting Time
Wasting Time
Wasting…

Nos últimos anos em que morei em CG (2005, 2006), eu tinha uma tosse que achava que fosse tuberculose de tão persistente. Nenhum médico conseguia descobrir o que era. Quando saí de lá, a tosse desapareceu como mágica. No meu último relacionamento, que não foi, nem de longe, a fase mais solar da minha vida, me recordo dessa tosse persistente também. Lembro que em 2013, antes das primeiras férias trabalhistas da minha vida, cheguei a ir em uma pneumologista. Ela bateu um raio-x e, novamente, “não havia nada”. Na verdade foi dito algo sobre uma asma fantasma, que só se manifesta quando quer, mas que eu não poderia ser considerada asmática. Okay. Achei estranho de qualquer forma. Essa tosse retornou este ano (2016) nos meses de junho e parte de julho, antes da operação no final do mês. Mas fui em pronto socorro duas vezes e em uma tomei um benzetacil e em outra só me passaram um remédio. Claro que era uma resposta do meu corpo frente as mudanças que estavam por vir. Toda vez que algo não vai muito bem, ou sinto algo que não consigo perceber muito bem o que é, misteriosamente minhas vias respiratórias ficam atacadas. Curioso, isso tudo. Vou tentar prestar uma melhor atenção na minha garganta, pelos próximos anos.

Eu queria gostar mais de budismo, mas acho que não consigo. Semana passada fui num templo zazen que tem aqui do lado de casa, há uns 200m daqui. Foi interessante a experiência, gostei do ambiente, do ritual, da meditação. Mas de modo geral, não me identifico com aquilo. Acredito que não me adequaria totalmente na disciplina mega estrita deles. Além de ter medo de entrar numa paranóia ainda maior de controfreakness por conta da exatidão dos rituais, eu não me identifico com toda a austeridade que o ambiente impõe à quem se dispõe à prática. Mas embora eu não curta essa sensação, sou capaz de refleti-la perfeitamente (pois sou esponjosa). Depois da prática, quando voltei pra casa me toquei de algo que aconteceu que denuncia essa minha esponjosidade em tempo recorde.

Normalmente, na minha vida, toda vez que vejo alguém cair ou se acidentar na rua, eu fico rindo ao invés de ajudar a pessoa. Fico rindo, não ajudo, não consigo me controlar. Enfim, sou uma idiota. O ambiente para a meditação zazen é uma sala à meia luz, quase escura. Existe todo um ritual de reverência e posicionamento e no total são duas seções hardcore de meditação de 40 minutos. Durante a meditação, minha perna direita dormiu completamente. Me desconcentrei e enfim, foi uma empreitada. Mas teve um exercício entre as duas seções. Quando o monge falou para levantarmos para o exercício pensei “eu vou cair aqui, minha perna tá dormente, vou cair e estragar tudo”. Levantei o mais lentamente que pude, estiquei a minha perna direita para melhorar a dormência e felizmente não caí.

No entanto, uma mulher que estava na minha frente caiu e eu automaticamente estiquei o braço para ajudá-la a se levantar, em silêncio. Na hora não pensei no protocolo, nem no ritual, mas na verdade não foi bem isso o que me causou estranhamento. Horas depois, já em casa, me liguei que eu não ri da mulher na hora em que ela caiu. Nem em pensamento. Nem de modo algum. Só aí me dei conta do quão rapidamente consegui incorporar e refletir de volta um ambiente extremamente austero. Eu só consegui rir de tudo em casa, depois, quando me tornei consciente do que aconteceu. Acho que realmente não sirvo para o budismo, embora tudo me encante na ritualística deles e eu considere a meditação algo importante pra mim desde já. Mas posso voltar ali outras vezes né, por que não?

Outrun the fight
I use to hide
In quiet places

I’ll refrase my cry
For I would keep on wondering
The rest of my life

You’re all moving too fast
My biggest fear is
That we’ll never ever last

I know, I know it’s not that easy
Let’s hit, let’s hit the brakes

Don’t take no time
Unless there’s a crime
To be committed

I guess we lost our faith
While we stand and wait
Until nothing ever happens

Mês passado eu tive um sonho erótico. Eu não ia escrever sobre ele, mas ele tem me perturbado tanto e ficado de forma tão persistente na minha mente até então que acredito que se eu escrever sobre, talvez ele desapareça. Sonhos eróticos para mim são raros, mas às vezes acontecem, nunca sei bem porquê. Não acho que seja pela falta de sexo ou por algum desejo latente. Talvez seja pela falta do sensual na minha vida, mesmo. E esses sonhos nunca acontecem com pessoas que eu quero que aconteça, mas sim com pessoas completamente aleatórias. Quando acontecem com alguém que quero, o erotismo, no sonho, tende a não fazer sentido algum, simplesmente. E os sonhos eróticos que tenho, geralmente são um tanto quanto esquisitos e raramente envolvem sexo propriamente dito, com penetração, etc.

É sempre mais uma atmosfera mesmo, de que “algo está rolando”.

Com este sonho não foi diferente.

Mas o que mais me perturba nesse sonho foi a pessoa que estava nele. O cara é praticamente um semi-desconhecido. Nunca troquei frase alguma com ele. Só o conheço de internet, por observá-lo – ele escreve e é relativamente famoso. Certa vez, uma amiga disse que uma outra amiga (sim) trepou com ele e que ele trepa mal. Acho que fiquei com este dado na cabeça por algum motivo que desconheço. De qualquer modo, o cara não faz o meu tipo em nenhum sentido. Ele é bonitinho demais. Charmoso demais. Tem toda aquela aura de escritor, pela qual as menininhas ficam loucas. Escreve bem, de fato. É engraçado e parece limpo. Não gosto do cabelo dele. E eu poderia ficar aqui falando sobre todos os high stakes que uma mulher na minha idade bota pra não arrumar caso com cara que não vá dar em nada, mesmo.

Mas eu sonhei com ele. E foi um sonho erótico.

Não é de hoje que eu tenho um pézinho no frotteurismo, embora o meu frotteurismo nunca seja público. Mas tenho essa coisa com tecidos e roupas e um jogo de mostrar e esconder, que acho excitante demais. E esse cara é completamente desprovido de estilo. Ele é completamente plano. Calça e camiseta. Ok, tudo bem. Lá estava eu no meu sonho, não lembro muito bem o que fazia, só me lembro que estava de bruços. Provavelmente estava dormindo assim. E de repente essa criatura se aproxima, como se rastejasse lentamente por cima de mim. Aquilo me incomoda, mas eu não me movo e não o mando sair. Ele está completamente vestido e eu também. Ele, rígido, se encaixa na minha bunda e fica se esfregando muito lentamente em mim enquanto sussurra a leitura de um livro (!!!) no meu ouvido direito. Eu, percebendo que aquilo era sonho, não acreditava e pensava “o que esse paspalho tá fazendo aqui?”

Mas a eu que estava no sonho estava completamente em transe e curtindo à beça. Enfim. Absolutamente nada aconteceu. Nem beijo, nem penetração, nem mucosas. Mas sinceramente, não me lembro da última vez que sonhei algo tão erótico assim.

Espero que depois de ter escrito isso eu consiga tirar esse sonho da minha cabeça de uma vez por todas.

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