Baratas se escondem nos espelhos de luz da minha casa. Desde o ano passado. Se escondiam na geladeira. É uma espécia pequena, que não cresce muito, que infesta e se enfia em qualquer canto. Se enfiaram na minha caixa de chás. Se meteram em vários cantos desconhecidos ainda da casa, que vou descobrir. Comprei essa caixa de chá ano retrasado, pra levar pro meu antigo local de trabalho, pra tomar chá por lá, pra oferecer chá pras colegas – que não tomavam muito chá. O ano passou, tudo mudou, mudei de emprego, vim pro emprego novo com a antiga caixa de chá e que, agora – mal sabia eu – era casa de baratas. Vim feliz oferecer chás pros novos colegas com a velha caixa e quando a abro: várias baratinhas estão ali, infestadas, aninhadas, vivas, mortas, não sei. Nojo. Claro.

Deixei a caixa na minha mesa, de qualquer modo.

Por meses. Por pelo menos uns três meses.

Não quis limpar a caixa. Não coloquei mais chás.

Apenas deixei ela ali, como se tivesse esquecido. Como se ela não estivesse visível.

Ignorei um peso morto em cima da mesa, que eu não fazia a mínima questão de notar. Ficava ali, só, a caixa de madeira, das baratas, não mais minha, não mais de nada. Mas daquele passado, que já foi e que eu insistia em não notar. Que alguma parte de mim se recusava a desapegar, deixar ir de fato. A gente se apega a coisas que não sabe e nem entende. E não vê. A barata também é um bicho que tem significados particulares no xamanismo tais como aceleração para evitar danos, compreensão de aspectos profundos da própria sombra, mover-se pelo medo, compreender decepções e isso porque eu só estou arranhando a superfície, pois dá pra debulhar bem mais nesse sentido. Enfim.

Ontem a colega do lado perguntou se alguém tinha um chá diferente, porque ela estava enjoada dos dela. As colegas no trabalho novo tomam chás frequentemente, o que me deixa feliz, é algo pra compartilhar com elas. Dei risada e disse “eu tenho chá de barata”. Todos rimos, eu ri. Mas ao longo do dia, aos poucos, fui ficando melancólica até me sentir triste, embora dissesse pra mim mesma que estava tudo bem. “Chá de baratas”, pensei. Ri. Fiquei em um estado que não consigo definir, mas que não era muito bom. De noite meditei, vi pessoas, fiz uma consagração. Estou consagrando arcanos menores do tarô e ontem consagrei a Princesa e o Príncipe de espadas, a terra do ar e o fogo do ar. Overthinking. Meditei, mentalizei, deixei estar. Fiquei exausta. Deixei a química condensar e decantar dentro de mim. Adormeci.

Acordei. Primeiro pensamento do dia: “precisamos trocar aquela caixa de chá que está na sua mesa”.

Não entendi num primeiro momento e ri sozinha. Como assim? Que pensamento é esse? E, de repente, assombro. Um assombro crescente. Um turbilhão de pensamentos, dedos apontados pra mim mesma, julgamento, sentenças, castigos e penitências, ali mesmo. O ego, furioso, por se sentir simplesmente burro, incoerente, inapto. Por não conseguir enxergar o sutil de imediato. Como eu não notei isso antes? Como eu fui capaz de deixar esse pequeno e persistente mal estar durar por meses a fio? Por que não me livrei dessa caixa de imediato? De certo era por isso que muita coisa não estava fluindo na minha mesa. Viu? Se você tivesse feito isso antes, X, Y e Z não teriam acontecido. Como você é mesquinha, por que não comprou uma caixa nova? E assim sucessivamente, etc. etc. etc.

E a gente deixa o macaco falar. A gente deixa o macaco reclamar. É isso o que ele faz: ele racionaliza. É pra isso que ele está aqui e nos ajuda bastante e muitas vezes. Mas a gente não dá mais trela pro macaco do que ele merece.

Se eu notei agora é porque eu tinha que notar agora. E está tudo certo. Um passo de cada vez.

E os olhos, todos, se abrem muito lentamente e um de cada vez.

(Comprei uma caixa nova e chás novos, joguei a caixa antiga no lixo. Segue o baile.)

Esses dias fui questionada anonimamente via Curious Cat sobre estar achando os homens muito bonitos. Resolvi pensar sobre a resposta que daria. Escrevi a resposta e apaguei sem querer. Escrevi no twitter e achei insuficiente. Vim pra cá. A pessoa falou três coisas no seu questionamento: sobre eu estar passando por um período boazinha demais, sobre ser algo astrológico e/ou sobre ser um estado de espírito só, como se fosse algo passageiro.

Primeiramente, eu não tenho bondade nenhuma em achar homem bonito, não. Nunca tive. Não sei se o anon em questão tem me acompanhado via twitter ou não, mas a verdade é que eu nunca estive tão misândrica quanto ultimamente. Boazinha definitivamente não é um adjetivo que se aplica a esse meu momento, de verdade.

Sobre ser algo astrológico, acho que não tem nada a ver, mesmo porque, eu nem tenho observado isso astrologicamente. Talvez tivesse a ver com meu período fértil, mas na época em que fui questionada eu ainda estava bem longe dele. O que eu quero dizer é que o fato de eu me atrair por homens e achá-los bonitos não tem necessariamente tanto a ver com essa parte fisiológica. Claro que ela interfere, mas não agora e não dessa forma.

Sobre ser um estado de espírito, acho que é o que mais se aproxima, talvez. Depois de uns bons cinco anos solteira, reavaliando e revendo uma série de coisas em relação ao meu próprio comportamento e também em relação à forma que eu expresso minha sexualidade, eu me considero disponível de novo para olhar o outro. E pra tentar apreciá-lo. Só que agora de uma outra forma, de uma forma minha, autêntica. Sem tanta interferência externa.

Estar disponível é um estado de espírito? Não sei. Pode ser. É o que mais se aproxima do meu atual momento de vida, agora. E como falei no início, o meu tipo de bonito não é exatamente muito lugar comum. E tanto a forma como me atraio e os motivos pelos quais me atraio se transformaram bastante também. Está tudo bastante diferente… Tenho gostado de me observar nesse sentido. Tenho gostado de me cuidar, de prezar por certas coisas.

Mas sim, embora eu esteja numa fase bastante misândrica (bastante justificada, inclusive), não nego que os homens podem ser muito bonitos sim. Inventivos demais, mas de uma forma diferente, com uma inventividade incisiva. Solidários, quando se permitem. Até sensíveis, mesmo sem enxergar isso. Encantadores de várias formas. E o são principalmente quando menos esperamos… Eu observo, ainda.

Inclusive, estamos e permanecemos de olho.

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