Apropriação/Desapropriação

Tinha lido um artigo sobre determinado assunto e achado o tema interessante. Falei pra um colega sobre a idéia do tema e que podíamos talvez aplicá-la em um determinado contexto de um projeto em conjunto, que acabou não dando certo.

Um tempo depois, o mesmo colega veio me ‘pedir permissão’ para a utilização da minha idéia em um outro projeto no qual estava envolvido. Achei estranho e disse que ‘sim, por mim tudo bem’ num primeiro momento, mas o estranhamento permaneceu. Tive que dizer a ele que a idéia não era minha – nunca tinha sido – e que outros já haviam escrito sobre aquilo. Apenas me ocorreu utilizar aquele tema no contexto em que iríamos trabalhar – o que é bem diferente de eu ter tido uma grande idéia sozinha.

Mas no entanto, meu amigo achou que se não tivesse perguntado pra mim, eu poderia tê-lo levado a mal, caso descobrisse que ele utilizou a idéia. Ingênua que sou, continuei sem entendê-lo e ao seu pedido de permissão. Como poderia levar a mal a utilização de algo que nunca foi de propriedade minha em primeiro lugar? Nem mesmo concordamos com o que ele entendeu por idéia, que pra mim estava mais para recomendação de um artigo que é público e disponível online a qualquer pessoa que tenha interesse…

Desaceleração

“Você lembra de como você era antes?”

Antes quando?

“Quando você começou me ver, por exemplo.”

Não.

“Faça um esforço”.

Apesar de eu ser mesmo a pessoa mais preguiçosa do mundo, a primeira coisa que me veio em mente foi que ela notou um cacoete que eu praticamente usava como vírgula, um “sabe?” a cada final de frase, ou até no meio das frases. Ela respondia “Sei!” todas as vezes e acho que acabou notando que um dia aquilo me irritou (mas enfim, nunca comentei, nunca comento nada). A verdade é que depois de um tempo me policiei para diminuir esse cacoete, mas é difícil se livrar dele sabe? Pois bem. Me interessei em falar sobre esse assunto porque me interesso muito em formas, modos.. E eu queria saber o que eu achava.

Eu falava mais rápido. Uma fala com pressa de chegar em algum lugar, sem pontuações e com um belo, grande e notável cacoete, que curiosamente não ocorria em nenhuma outra ocasião a não ser naquela. A tranquilidade (que sempre foi característica minha) não existia naquela época e a fala era sempre carregada de constante ansiedade. Ela comentou também que a forma que as coisas eram ditas, as emoções eram sempre em grandes proporções e tudo muito mais dramático que o necessário, beirando o exagero. É mesmo? Bem, não sou capaz de notar isso, sinceramente. Na verdade eu não noto um monte de coisas.

“Você não precisa acreditar no que eu digo”.

Sei que não e também entendo que faz todo o sentido do mundo que eu tenha me recolhido e desacelerado. Não preciso acreditar em você mas a questão é que eu tenho anotações que podem exemplificar bem o que você me diz. Por isso não desconfio de você. Escrever nunca deixou e nunca vai deixar de ser importante pra mim, mesmo que seja verborragia, mesmo que seja escrever por escrever, pra ver o que sai, o que aparece, o que não está aparente, pra descobrir algumas coisas (mas não necessariamente ficar consciente sobre elas, enfim). A escrita solta, pura, sem amarras, sem necessidade, sem constrangimento. Tenho tudo comigo. Por mais que eu seja uma pessoa sempre muito empenhada em esquecer várias coisas, a questão da memória na verdade é bastante importante pra mim. Mais uma contradição.

“Me traga dois textos, um de fevereiro e um de agora, mas quero que você seja pontual e selecione apenas dois. O que você acha?”

Tenho evitado mexer nas coisas que escrevi, com medo de me machucar ou de me chocar demais (estou indo tão bem..). Mas é algo que preciso fazer, qualquer hora dessas. No resto daquele dia tentei me preocupar com outras coisas, com planejamentos, prioridades, o de sempre. Saí com amigas e na hora de voltar pra casa percebo que esqueci minhas chaves em algum lugar na faculdade. A impressão é que esse tipo de coisa ‘só acontece comigo’. Pensamento rápido, o que fazer, pra onde ir, quem chamar, mas o que acabou acontecendo mesmo é que pulei o muro da minha casa e fiquei com as cópias que estavam na escrivaninha.

Com o nervosismo esqueci qual era a combinação das cópias, de quais chaves abriam quais portas, de como as coisas funcionavam. Esqueci tudo. As amigas foram embora e eu fiquei em casa, me achando condenada a ficar trancada aqui o feriado todo. Decidi que ficaria presa ali mesmo pra sempre e resolvi não ficar tão mal assim. Depois que passou um tempo e me acalmei, testei chave por chave até que uma abriu a porta de onde eu estava e as outras eram mais fáceis de deduzir. Me senti ridícula mas feliz ao mesmo tempo e não consegui evitar de pensar que “esse é o pior fim de semestre de todos os tempos, tudo o que poderá dar errado nesse semestre, dará errado, não se preocupe”. Exagero, drama, dificuldade, é sempre assim, mesmo que em menores proporções.

Depois disso não foi difícil traçar um paralelo das desacelerações que acontecem e aconteceram na minha vida. Desaceleração até a parada completa. E também não foi difícil perceber o quanto isso é importante.

Ilusão e delusão

Picasso, Mulher em frente ao Espelho (1932)

“O que seriam, então, casos genuínos de ilusão? (O fato é que é difícil ver, em qualquer dos exemplos de Ayer, um caso de ilusão, a não ser que forcemos as coisas). Para começar, existem casos muito claros de ilusão ótica – por exemplo, o que mencionamos anteriormente, no qual, de duas linhas de igual comprimento, uma parece mais comprida que a outra. E há, ainda, as ilusões produzidas pelos “ilusionistas” profissionais, os prestidigitadores – por exemplo, a Mulher sem Cabeça no palco, apresentada de modo a parecer que não tem cabeça, ou o boneco do ventríloquo, que dá a impressão de falar. Bastante diferente, e (em geral) não produzido intencionalmente, é o caso das rodas que giram com grande rapidez numa direção, e podem dar a impressão de girar muito lentamente na direção oposta.

As delusões, por sua vez, são coisa muito diferente. Casos típicos são os delírios persecutórios e as manias de grandeza. Trata-se, basicamente, de crenças (e, portanto, talvez também de comportamento) em profundo estado de desequilíbrio, que provavelmente nada tem a ver com a percepção. Mas penso que também se pode dizer que o paciente que vê ratos cor de rosa sofre de delusões – principalmente, sem dúvida, se, como costuma ser o caso, não tem consciência nítida de que os ratos rosados não são reais.

Aqui, as diferenças mais importantes são que a expressão “uma ilusão” (num contexto perceptivo) não sugere que uma coisa totalmente irreal seja produzida por um passe de mágica – pelo contrário, o que ali está é a disposição de linhas e setas na página, a mulher no palco com a cabeça num saco preto, as rodas giratórias; ao passo que o termo “delusão” realmente sugere algo de totalmente irreal, que não está ali de modo algum. (As convicções da pessoa que tem delírios persecutórios podem ser completamente desprovidas de fundamento). Por esse motivo é que as delusões são um caso muito mais grave – algo que está realmente mal, e, o que é pior, mal quanto à pessoa que os tem. Mas, quando tenho uma ilusão ótica, por mais perfeita que seja, nada há de errado comigo pessoalmente, a ilusão não é uma pequena (ou grande) peculiaridade ou idiossincrasia de minha parte; é completamente pública, todos podem ver, e, em muitos casos, podem estabelecer-se procedimentos clássicos para produzi-la.

Além disso, se não queremos nos deixar levar pela ilusão, devemos estar de sobreaviso; de nada adianta, porém, dizer ao que sofre de delusões que esteja de sobreaviso. O que ele precisa é ser curado.”

AUSTIN, J. L. Sentido e Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 34-36

Há alguns dias, fui ameaçada com uma garrafa quebrada. Hoje, notei que duas garrafas azuis – parte de uma coleção, parte de um passado, parte de algo que foi escolhido por mim – estavam trincadas pelo frio da minha geladeira (coloquei o congelador no máximo há uns dois dias atrás). Percebi que tenho essa mania de reinterpretar frases, palavras, termos fora de seu contexto. De resgatar o que não existe mais e recontextualizar em um cenário novo. Talvez não seja a única. Penso que isso seja leviano, ao mesmo tempo em que penso que se arrepender é preciso. Mas a verdade é que me arrependo demais, muitas vezes mais que o necessário. Os cacos de vidro, que serviriam para rasgar facilmente uma boa parte de pele e músculo, foram para a lixeira.

Tenho cautela somente para as coisas que tenho cautela. Para todo o resto, não. Às vezes, ter cautela parece-me um risco pior que a imprudência. Isso me separa – e irá me separar – de muitas pessoas, assim como vários outros atributos meus que igualmente não me são caros, nem indiferentes, apenas fazem parte do que aparenta ser eu, em um primeiro momento, nessa superfície intangível, que ninguém é capaz de alcançar – incluindo eu mesma. É um desconforto que persiste, que assombra e que se faz permanente, perene. Não imagino que isso se transforme com o tempo, mas que permaneça em meio a tudo o que acontece e tudo o que acontecerá. É preciso mais do que paciência, mais do que tolerância. Precisarei de algo que vá além da força de vontade.

Tive uma longa conversa sobre a dificuldade de se sentir confortável no limbo, de não deixar que a certeza nos paralize ou nos abale. Uma conversa que deveria arrastar-se e ser difícil, mas que acabou sendo leve por não ter se tornado uma busca por confronto, uma disputa por convencimento. Dois cappuccinos, talvez três, para falar sobre desconfortos com alguém com quem me sinto confortável, genuinamente. Nos perdemos nos contextos – na verdade nem os mencionamos, ficaram soltos, subentendidos – mas a identificação foi bastante semelhante. E é um tal de equilibrar-se em contradições e paradoxos tão inconcebíveis, que a minha parte control freak ficou realmente aborrecida. É difícil reconhecer a impermanência.

É difícil relaxar, não sentir-se insegura, derrotada. Mais do que relaxar, é dificil aceitar, assumir e fazer frente não ao outro, mas a si mesmo. É sempre a mesma lição, repetida de modo diferente. Me sinto cansada. Realmente cansada. E tudo isso nem começou. Não me sinto civilizada. E sei que encontrarei muitas dificuldades em sê-lo, sendo que a maior delas é a simples falta de vontade. Não sou civilizada porque nem todos compreendem meus gestos, nem todos entendem o que digo e nem todos me interpretam como quero e penso. Então para quê servem estes gestos? De que me vale utilizá-los? Me parecem vazios, mas acredito que quem seja vazia sou eu. Não sou do tipo suicída, sou do tipo que já morreu e esqueceram de enterrar.

A conversa acabou. Agradeci e disse constrangida, quase que sufocando, “fico feliz por você existir”. Ainda não sei bem para quem disse esta frase.

63º

Contagens regressivas e progressivas me agradam muito. Acho que estabelecer uma contagem é um dos modos de prover significados ao tempo e ao mesmo tempo faz com que possamos nos apoderar de algo que, do contrário – sem o cálculo, sem a métrica, ou sem o anti-tudo isso que ainda estabelece isso – estaria fora do seu domínio. Fazer contagens é fazer um recorte, e recortes excluem outras possibilidades e então contagens aprisionam o que queremos manter sob nosso controle – mesmo que de um modo muito singelo. Contagens nos permitem saber o que é e o que está.

Também gosto de observar – ao longe – o efeito que causa a ventania nas dunas, a transformação sutil e sólida, lenta, mas adequada da paisagem. É um algo quase que sem porquês, que simplesmente acontece, mas que só enxergamos quando é assim, cru, da natureza, frente aos nossos olhos. E nos parece inadaptável a qualquer em qualquer outra área do que entendemos por vida. Em uma cidade leva muito tempo. Em uma pessoa parece que simplesmente nunca prestamos atenção o suficiente. E além de contagens, além de mudanças, existem as listas, um segundo recorte. De coisas a fazer ou a comprar. De metas a atingir. De coisas que gosto, de imagens, músicas, palavras, expressões.

Mas as listas geralmente seguem os mesmos padrões. Ela é finita, termina quando decide-se terminar, quando vemos que não faz mais sentido mantê-la é amassada e substituida por outras listas. O conteúdo substitui-se, a prática, não. A listagem apesar de efêmera é sempre contínua, os índices para que eu organize e reorganize, as remissivas para que eu saiba para onde ir, o checklist para que eu não esqueça, o sumário para que eu não me perca e lembre de toda aquela estrutura de suporte, de apoio, para que lembre de onde vim, onde parei, para onde devo ir, o que devo trocar e se devo recomeçar. Ou para me lembrar que posso observar o quanto toda esta estrutura é falha e decidir-me por não mais utilizá-la. E aí sim, é o fim da lista, da prática, de qualquer conteúdo.

(“Nunca foi uma questão de amor, mas uma questão de poder, de apoderar-se de algo. Ou alguém.”)

As contagens, ao contrário das listas que são efêmeras, são paradoxais: terminam continuando. São divisores de águas, entre o que foi e é. Dia a dia, mês a mês, ano a ano, semanas, horas e todas as coisas que cabem – e principalmente as que não cabem – em todo esse tempo. Todas as coisas que pesam, que sofrem, que velam. Todas as coisas que não são ditas. Contagens demarcam. Independente do que e de como são organizadas. Lembranças e esquecimentos. O que foi dito, o que foi feito, o que foi calado, o que foi resignado. As contagens demarcam porque foram escolhidas. Por isso continuam, mesmo finalizadas, mesmo não sendo mais acolhidas. E permanecem, mesmo tendo sido esquecidas e abandonadas.