Ibrasotope: Ibr23, 13 de outubro de 2009, 21h

2009 Outubro 22
by Dora

Fazia algum tempo que eu não ia a São Paulo. Se não me engano, desde maio de 2008, pra ser precisa. A noite tava agradável e pegamos um táxi (sim, sem GPS, tinham roubado) pra ir até o Ibrasotope [MySpace | Blog | Twitter], que fica na rua januário miraglia, 43. Não me lembro do nome do bairro. Até que não nos perdemos muito e eu já tinha visto a casa (por dentro) por fotos.. Em algum lugar, não lembro onde. Alguma rede  social da vida. Parecia um lugar legal. Tinha bichinhos de pelúcia então não tem como não ser legal. É uma casa muito engraçada (rerere), só que tem teto, cozinha e uma sala com carpete, almofadas e uma janela muito foda (é, eu adoro janelas). Mais tarde eu me perguntaria se os vizinhos ficavam chateados ou não com o barulho (aquela rua parecia ser bem residencial), mas claro, não perguntei isso pra ninguém. Deixa quieto.

Não conhecia ninguém ali, mas toda vez que vou nesses eventos é assim mesmo então eu já deveria estar acostumada. Ah, sim, foi nesse dia que eu conheci o Valério… E que não me servi de cachaça e sei lá mais o quê na cozinha do Ibrasotope. Mas a cachaça foi depois. Antes fomos em algum bar onde também não bebi (chata), mas brindei com cerveja e bebi um golinho só pra não ser muito chata. Há algum tempo tenho tido medo de beber depois que fiz a operação. Sem falar que pra mim não rola mais beber quando vou nessas apresentações. É bad trip na certa.. Era pra começar às 21h, mas acho que começou um pouquinho mais tarde que isso. Chamaram de repente, falaram que ia começar aí todo mundo foi pra sala da janela, onde já tinha um monte de coisa montada.

Devia ser umas 21h30 e chamaram pra não ir ficando muito tarde, sei lá. A sala não era muito grande, tinha uma mesona (com coisas que não lembro em cima), um piano no canto esquerdo, caixas de som nos 4 cantos da sala (o que foi legal) e bichinhos de pelúcia espalhados. Sentei numa almofada e tirei os sapatinhos. Acho que devia ter umas 20 e poucas pessoas por lá, se muito. Não contei. Foi o Iwao que começou apresentando e entregando um programinha também, onde também dizia o que ia rolar. Achei bacana. No programa estava assim na sequencia:

a. música eletroacústica

1. jean-pierre caron [MySpace | Twitter | Last.fm]: momentum (para giacinto scelsi II) [2009]

A primeira apresentação do -notyesus> (J.-P. Caron +  R. Sarpa) que eu vi foi em julho deste ano, no Rio, numa noite que acabou sendo bem ingrata pra mim. Não lembro por que não escrevi nada sobre o que (ou)vi (tenho mania de descrever/registrar as coisas) mas a verdade é que em julho eu não estava no clima pra registrar nada. Meu last.fm não mente (rá!) que há algumas semanas eu já vinha ouvindo a 8². De qualquer modo, sou muito suspeita pra dizer qualquer coisa. Dizer, comentar, criticar, you name it… Que sem graça. O que eu poderia dizer então? Que gostei? Que achei lindo? Oras, que graça. Acho que não resolve muito. Isso tudo não é muito justo isso, rs.

Acho que ele disse em algum momento que a música tinha sido ‘comprimida’ pra ficar daquele jeito. Gostei do início. Desligaram as luzes e as pessoas ouviram. O início é silencioso e então a música vai se fazendo. Falei depois pra ele que ela tinha um quê de propaganda no início, tinha um design (ou o que chamam de “textura”) interessante. “Propaganda?”. É, não rolou. Mas é, foi a primeira coisa que me veio em mente. Da metade pro final a música começou a ficar meio lacerante, acho que por causa da repetição. Nessa hora fiquei com medinho do guaxinim na janela e dos outros bichinhos de pelúcia, por um momento. Mas passou. Depois que acabou, palminhas e suspiros altos, pessoal sem ar. Eu também suspirava, mas por outros motivos,. Não sei se o som estava suficientemente alto. Talvez nunca esteja, rs.

MASP - São Paulo

2. rodolfo valente [MySpace]: jornal nosso de cada dia [2009]

Não me lembrava que a música tinha esse nome, mas essa música quando ouvi me fez cócegas na cabeça. A achei engraçada. Não pensei em nada relacionado a jornal, de nenhum modo. Pensava em desenhos animados que eu assistia quando era criança, Tom e Jerry e essas paradas que eu não lembro mais. Mas não ri, contive o riso. Foi uma música curtinha, mas no final ela ficou diferente, virou outra coisa. O legal é que dá pra ouvir ela de novo no MySpace do moço. :)

3. elio martusciello [MySpace | Wiki]: ibidem [1993-4]**

Acho que foi meio longa essa música, mas gostei do que ouvi. Acho que gostei por que tinha elementos que eu gosto de reconhecer: ruído branco, ruído de mal contato, um som de rádio às vezes e aquele de vitrola, quando o disco termina. Ruídos de coisas antigas. Aí vez e outra aparecia um vidro quebrando, outro barulho que também gosto. No início a música era lenta, parecia algo que se arrastava, um início difícil. Pela metade (acredito) algumas partes me lembravam uns ritmos mais industriais, era mais ritmado – mesmo que barulhento – com algumas partes encorpadas.. Mas o vidro continuava quebrando. Parecia que ele queria dizer alguma coisa com isso. Mas juro que nem vou tentar descobrir o que era. Deixa estar.

4. rodolfo valente: poslúdio [2009]

Gente… Não me lembro dessa música? Nem um pouquinho. Nada. Ai que feio, mas juro que não lembro. Isso por que nem bebi. E nem tem no MySpace do moço, pra eu “colar”, rs. Estou me esforçando, mas não consigo lembrar. A única coisa que tinha anotado no meu papel era que a música era algo que “lembrava uma fala”. Só.

Depois destas quatro apresentações teve um intervalo de uns 15 minutos, pra que depois acontecesse a performance da arte B. De novo, de acordo com o programa:

b. cyrko synema apresenta

da obra de safo de lesbos

CORPORNOS [2009]*

para bocas, trombone de vara,

teatro de sombras e tocófono

{eduzal, efe erre [MySpace], gli altri & rictones}

Depois que as pessoas saíram da sala, fizeram ‘um fumacê’ antes de começarem a performance. Ninguém fumou nada, mas apareceram lá com uma panela e umas ervas queimadas (que não consegui identificar quais eram). Não faço idéia do que era aquilo. Não era um cheiro bom nem ruim era só um cheiro. Depois chamaram a todos rapidamente por que “já tinha começado”. Entrei na sala e tava passando filme de safadeza no telão. Constrangedor, haha. Aí as imagens começaram a se repetir, meio que numa vibe caleidoscópica. Não sei se era o (meu) sono, mas eu não sabia no que prestar atenção direito. Não anotei nada. Não quis anotar nada. Não conseguia. Se anotasse, perderia o que estava no telão e queria prestar atenção. Só que daí, não sabia se prestava atenção na música ou no telão e prestar atenção nos dois ao mesmo tempo foi difícil. É, eu sou uma pessoa meio limitada mesmo.. haha..

Aí decidi-me por prestar atenção no telão e depois de um tempo começou a me dar uma dor de cabeça violenta, sendo que raramente tenho dores de cabeça. A parte de trás da minha cabeça doía muito. Acho que talvez era o meu cérebro de primata, que ficava buscando as cenas de sexo e aquelas cores, delays, caleidoscópios, uóréva, ficavam me atrapalhando. Tinha muitas cores, inclusive as adoráveis CMYK. O magenta meio que me deu náuseas. No fim, o vídeo mudou pra outras coisas, igualmente pornográficas mas não muito identificáveis. A essa altura eu já não aguentava mais olhar pro telão não, minha cabeça parecia que ia explodir. Comecei então a olhar pras pessoas e tava todo mundo tranquileza, tinha gente deitada.. E a maioria prestava atenção no vídeo mesmo. Menos eu, a chata. Pra não perder o costume, rolou um cafuné indígena e uns beijinhos na testa de quem estava no meu colo. E assim, tudo acabou bem.

“E aí Dora, o que você achou?”. Sempre fico sem graça com essa pergunta. E sempre respondo que “não sei”. Ou ainda, um “achei legal” que sempre sai meio amargo da minha boca por que não diz tudo o que eu quero, nem tudo o que sinto, ou senti. Nunca acho nada de primeira. Às vezes nem de segunda. Ok, às vezes nunca acho nada de nada mesmo. Mas nunca sei exatamente o que responder na hora. De cada momento eu achei uma coisa diferente, não dá pra colocar tudo num mesmo patamar e fazer uma média. Não faço isso. Falo pra lerem meu blog depois por que talvez eu escreva algo.. Algo, claro, totalmente descompromissado com qualquer coisa que seja. Até comigo mesma, dependendo do caso.

Antes de sair testei todas as cores de uma caixinha de giz num papel que estava por ali. Não quis desenhar nada, só fazer uns rabiscos aleatórios e o desenho foi se formando sozinho depois, um semi-quadradinho colorido. Não tenho muita criatividade com cores, nem formas, mas fiquei ali me entretendo. Enquanto desenhava comecei ouvir alguma coisa no piano, reconheci rapidamente e sorri. E aquela imagem ficou bonita na minha cabeça, fiz um quadro e guardei: eu ali brincando de testar cores e ouvindo um som amado. E eu não deveria escrever essas coisas, mas não tenho como não escrevê-las. O som do piano acabou repentinamente. O meu desenho também ficou inacabado, por que a gente teve que ir embora. A noite ainda estava fresca.

* indica estréia

** indica estréia brasileira