Marcante
Mulheres se enganam muito fácil. Eu, mais fácil ainda. É chato ter que precisar viver pra entender como as coisas funcionam, mas é assim que as coisas acontecem. Só percebo agora a forma agressiva com que ele quer se marcar em mim. Isso não é uma reclamação, apenas uma observação. Ele não é nada sutil. Ok, tudo bem, já passaram na minha vida homens também nada sutis, mas agora, hoje, que me considero outra, é diferente. Entendo que a intenção dele não é de sutileza comigo. Mas acho um tanto quanto peculiar a forma com que ele pretende me marcar. Ele está tocando acordes inversos, começando pelo fim e por mim, tudo bem.
Às vezes eu finjo que não é comigo. Mas aí percebo lembranças, fecho os olhos, mordo os lábios, suspiro e ele está ali. Mas a verdade é que todos estão, cada um a seu modo. O problema, também, é que eu tenho má memória quando se trata de algo em que não existe uma afeição concreta. Vira outra coisa, imaginativa, conto de fadas, algo que está por vir. Meu sentimento com essas lembranças é de quase indiferença, não consigo sentir nada e depois vem o vazio, imensurável, tomando conta. Não me apetecem contos de fadas, não gosto de me alimentar disso, por isso o desprezo. Depois lembro das coisas concretas (seja lá o que elas forem) e me sinto muito mais confortável, me sinto em casa.
Sinto as mesmas coisas, só que aí não me sinto sozinha. E aí é que está toda a diferença.
Ele quer me marcar da forma errada. Talvez não consiga a principio, mesmo por que, já sou alguém marcada o suficiente. Há alguns dias atrás eu realmente imaginava que fosse algo muito diferente, muito inusitado. Eu sentia isso, fisicamente, pernas bambas, coração acelerado. Mas não passou de uma semana de sensibilidade e agora as coisas são outras, tornaram-se, talvez, o que sejam realmente. Nada muito grande, nada muito longo, nada muito forte, nada muito duro. Gosto de voltar a mim mesma e perceber as coisas como realmente são, sem tentar me auto-sabotar e iludir, como geralmente faço. Que ele não irá passar em branco é certo. Mas nem por isso eu preciso me desintegrar inteira pra ter certeza disso.
Superestimar algumas sensações não é nada, nada bom. Mesmo.