Vazio

2008 Dezembro 29
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by Dora

Uma das coisas que mais gosto de fazer nessa vida é observar homens dormindo. Não há palavra que descreva esse prazer, pra minha pessoa. Antigamente eu jurava que era coisa de menina. Depois tentei pensar que fosse coisa de mulher apaixonada. Também não é. É algo que simplesmente não consigo evitar. Observar o respirar, o movimento rápido dos olhos, o movimento da caixa toráxica, todos diferentes, todos idênticos. Quando os homens dormem eles não estão ali. Existe só a visão, aquela casca, tudo está calmo. Eu gosto disso. Mas só gosto disso nesses exatos momentos. É bonito de ver, mas eu prefiro os homens vivos mesmo. Bem vivos.

Conheço homens que dormem acordados e eles me entristecem muito. Na verdade não é entristecer a palavra. Acho que ainda é um sentimento que não tem nome. Eu perco o interesse e começo a nutrir sentimentos que não deveria sentir por homem nenhum, como sei lá… Pena. Dó. É… É triste mesmo de ver. Ainda mais quando isso acontece em homens muito jovens. Vejam bem, não me interpretem mal: quando falo de “dormir acordado” não falo de homens sonhadores, que têm desejos, etc… Mas de homem que, de fato, adormecem pra vida. De homens profundamente deprimidos, e que não se reconhecem como tal.

Ok, todas as pessoas têm problemas, etc, e todo aquele papinho mole. Mas me deixo o direito de não gostar de homens assim. Eles me parecem… Enferrujados, empoeirados, travados, complexos demais, mesquinhos demais. Não são coisas boas. Ok, estou falando de homens mas nada impede que mulheres também sejam da mesma forma, enfim. E não digo essas coisas por dizer, mas sim por que é o que sinto. Um rapaz lindo, na flor da juventude, pode sim ter maturidade… Mas nem por isso precisa se comportar como um inútil, impotente. São coisas bem diferentes. É melancólico perceber um jovem enferrujado. E esses tipinhos, mesmo que sem querer, querem ser ultra-românticos, viver entre vida, morte, drogas e orgias. Não vejo graça, nem vantagem. E eles também não. E é exatamente isso o que me irrita, profundamente, nesses tipos de homens.

Todo mundo é um pouco contraditório. Mas pra esse homem, em um dia ele vai morrer sozinho e no outro ele casaria agora mesmo com a primeira garota que lhe dirigisse o olhar. Tudo bem ser de lua, mas não é pra tanto. Eu sei, não consigo entender, nem os homens, nem as pessoas. Ah, ele é só um menino. Um menino irritado também, que me diz que está cansado demais pra se importar comigo e com o que eu penso. Hoje ele diz que não dá mais a mínima. Num dia é isso, no outro é um beijo na minha boca. E eu aceito isso. Aceito isso? Já não sei mais. A vida é assim, toda torta mesmo então não adianta muito ficar reclamando, querer que tudo seja diferente, que tudo mude. Certas pessoas e coisas nunca mudam. As pessoas esquecem as coisas e isso é tudo natural. Os bêbados, drogados, nunca as lembram. Tem sempre aquela névoa que faz todo mundo esquecer de tudo, até das piores coisas.

Antigamente as pessoas de modo geral me angustiavam. Hoje em dia acho graça, acho muita graça. Mil risos de escárnio pra essas coisas toscas que a vida nos dá. Não vejo mais propósito. Não me esforço pra encontrá-lo. Acho que as coisas terminam desse jeito mesmo. Com as pessoas vazias. E é só o vazio é que resolve tudo mesmo.