Sobre abraços
Esses dias eu fiz algo que eu não fazia há muito tempo. Eu pedi um abraço. Na maior cara de pau do mundo e sem constrangimento nenhum. “Ei, antes de você ir embora, vem aqui e me dê um abraço”. Não lembro a última vez que tinha feito algo assim. Isso é algo difícil de se fazer, ainda mais pra alguém como eu, que sou toda travada.
Não é o ato de abraçar que é difícil pra mim, mas sim o pedido “me dê um abraço”, sem nenhum motivo específico para tal a não ser pelo próprio abraço. Mas na verdade, eu gosto de coisas assim. Gosto mesmo. Devo dizer que não me arrependi do pedido que fiz.
Não mendiguei nada. Apenas pedi o que já era meu.
Eu sei, hoje, pra quem pedir abraços. E a quem abraçar.
As pessoas geralmente dão abraços automáticos, cumprimentos. Ou ainda, abraços lascivos, com segundas intenções. Não falo disso, não falo do abraço de amantes, de pessoas apaixonadas, nem nada. Isso é outra coisa. Isso é coisa que passa. Falo do que permanece, e o que permanece é essencialmente efêmero. Ao contrário das paixões.
Eu falo dos melhores abraços, mesmo, do mundo todo, que são os abraços de amigos. De pessoas que se gostam de verdade, independente de qualquer coisa, do tempo, das brigas, das diferenças, dos desencontros, das paixões. Essas coisas viram pó perto de um abraço longo, sincero, mútuo.
Pois sim, existem abraços que não são mútuos. É tudo uma questão de percepção. Enfim… Não vou chegar aí.
Falo daqueles abraços que parecem não vão acabar nunca, que você na verdade não quer que acabe, aquele abraço que faz “cósquinha no cérebro” e faz a gente ficar feliz por um dia inteiro, mas sem saber exatamente o porquê disso. Estes, sim, são os abraços verdadeiros. O resto é perfumaria.
Nesse ano abracei várias pessoas com a exata intenção de abraçá-las, apenas. O tal do ‘agarramento primordial’, onde as palavras são completamente suprimidas e existe apenas o abraço pelo abraço e só. E todas essas vezes foram memoráveis. Gosto disso e não banalizo isso. Quando falo que abracei ‘várias’ pessoas desta forma, podem ter certeza que elas não passaram da quantidade de dedos que tenho nas mãos.
Foram abraços preciosos de pessoas mais preciosas ainda. São pessoas que me entendem e com quem, por incrível que pareça, não preciso conversar muito. A verdade é que, as melhores pessoas que conheço não falam muito comigo. Talvez as coisas sejam assim mesmo. Não me incomodo mais. Na verdade não tenho me incomodado faz muito tempo. E isso não me deixa ansiosa e nem desconfiada de que ‘o pior está por vir’. Não penso mais assim. É sempre bom pensar menos e perceber e sentir mais. Equilibra um pouco todas as coisas que sou.