Little Sister
Nunca me dei bem com a minha irmã. Mesmo. Não vou entrar em detalhes. Que nunca me dei bem com ela é tudo o que vocês precisam saber. Voltei a falar com ela há pouco tempo. Ela tem 17 anos, acho. Não somos irmãs co-sanguineas mas isso também não vem ao caso. Somos filhas adotivas de pais (biológicos) diferentes e somos VISIVELMENTE diferentes e isso – ao menos pra mim – sempre vem ao caso. Eu não me importo em saber que sou filha adotiva, ela se importa. Ela não se considera, não quer nem saber, nem lembrar disso. Eu já penso diferente mas enfim, eu sou outra pessoa.
A coisa é que minha irmãzinha, de uns tempos pra cá, começou a ler. Ler livrinhos best-sellers, essas coisas, “O caçador de pipas”, etc. Isso foi entre dezembro do ano passado e janeiro desse ano. Lembro que cheguei a ler esse livro que citei por causa dela. Enfim… Lembro também que, na época, eu ria dela, fazia pouco caso, pensava “até parece que ela entende alguma coisa do que lê”, ou qualquer pensamento maldoso do tipo. De formas muito singelas, eu subestimava a minha irmã. Sempre subestimei, muito. Acho que faço isso até hoje, de certa forma. Mas não fico pegando no pé dela por causa disso mais. Acho que já estou velha demais pra isso.
Ontem ela veio conversar comigo, reclamar pra mim da vida. “Não aguento mais essa cidade, não vejo a hora de sair daqui!” disse ela. Tomei um primeiro susto. Eu sempre achei que ela gostasse de lá. “O povo daqui é muito ignorante, sem cultura, sem noção”. Aí sim que eu caí da cadeira. Nunca achei que ela fosse pensar isso algum dia e fosse querer sair de Campo Grande por esse motivos. Fiquei sem reação. Acho que essa foi a primeira vez que eu e minha irmã concordamos num assunto, em toda a minha vida. Ela pensa em ir embora ano que vem, em ir pra São Paulo. Eu gostaria de que ela viesse pra cá, mas enfim.. Não vou me empenhar muito em tentar convencê-la não.
Mas o que me surpreende é como a literatura de livros aparentemente bobos e inofensivos – como best sellers, por exemplo – pode mudar tanto uma pessoa. Na verdade não são nem os livros os grandes “culpados”… Mas a aquisição e ampliação de um vocabulário maior, pode sim transformar as idéias e os pensamentos de alguém. Isso é bastante impressionante. Já tinha lido sobre isso quando estudei teoria da comunicação… Alguma coisa sobre os chavões e de como eles funcionam. Mas isso não vem ao caso agora. O importante é que estou feliz por poder conversar com a minha irmã quase como converso com uma pessoa normal, agora.