Enraízado
De cada homem peguei um pouco. De um, a inconsequência. Do outro a seguir, a loucura, total e completa. A irresponsabilidade. Depois ainda passou um tempo e um homem então me mostrou um mapa. Países distantes. Outras realidades. E depois foi embora. Sempre vão. Algum tempo depois outro apareceu e me mostrou o que não era música e o que podia ser. Com ele, aprendi a ouvir mais atentamente à todas as coisas e a pensar sobre o que ouço. Depois disso, o silêncio. Um silêncio duradouro.
Até então os homens que passaram pela minha vida, todos, tinham suas especialidades. Até aparecer um que não tinha especialidade nenhuma e todas ao mesmo tempo. Me mostrou tudo o que tinha, a sua vida simples, me levou em museus. Me quis, como há muito tempo eu não era desejada por alguém. Hoje ainda existe um homem que me fala de coisas que não entendo, não consigo acompanhar muito. Talvez por preguiça pura, displicência da minha parte. Ele me fala de números e formas geométricas, política e filosofia.
Não participo muito pois prefiro ser limitada mesmo. Uma mulher com quem um homem pode discutir a sério demais, perde ao menos metade de sua magia. Me é confortável ser ignorante e não constrangedor. De qualquer forma, tantos homens já passaram pela minha vida e me ensinaram e mostraram tantas coisas. E de cada um eu peguei seus vícios, seus trejeitos. Chás, cigarros, detalhes. Gostei e desgostei. Amei e ignorei profundamente. No entanto o desapego, por todos, foi muito simples, nada que me desgastasse, me tirasse pedaço.
Hoje tirei fotos de mim mesma. E mesmo depois de uns bons anos, pude enxergar no meu próprio rosto traços do meu primeiro homem. Não consigo definir ao certo o que sinto: se raiva, se constrangimento, se tristeza ou ainda se um misto de todas essas coisas. Meu olhar e meu sorriso tão idênticos aos dele. Uma espécie de impressão digital, uma pessoa profundamente enraízada na minha personalidade, por mais que – talvez – ele acredite que não. Por mais que tenha se esquecido completamente de mim, por mais que eu não faça mais parte de nada.
Enxergo ele ali, na curva do meu sorriso sinistro, na benevolência do meu olhar bovino. Ele, que nunca me mostrou, ensinou nada, nunca me adicionou nada e nem me fez (querer) ser melhor em nenhum sentido, está em partes não evidentes de mim, onde ninguém reconhece, ninguém enxerga, só eu. Isso é até irritante. E pode parecer loucura e talvez até seja, mas não posso negar isso pra mim mesma. Fora isso, a existência é vazia, não existe nada. Não há voz, não há compreensão, não há perdão, não há conversa. Não há paz. Nem nunca haverá.