Festival de Música Livre, 18/07/2008
Não sei por que motivo, pra mim parecia que o último festival de música livre que eu tinha ido faziam séculos. Mas na verdade o último foi em abril, quando o Bernhard Gal veio. Acho que tive essa sensação por que nessa última edição de abril, além de eu ter chegado atrasada, eu também estava ébria e eu não consegui prestar atenção em nada direito, ou melhor, como gostaria. Na sexta-feira, dia 18/07, eu estava bem. Aliás, melhor. Na verdade, acho que estou melhor há muito tempo e isso se reflete em todas as coisas que faço, planejo, etc. Nessa sexta eu resolvi não beber nada, mesmo por que também eu não sabia onde era o Teatro Álvares de Carvalho e eu detesto me sentir perdida. Bêbada e perdida pior ainda. O googlemaps sempre me ajuda, mas um senso de direção sóbrio é insubstituível. Pois bem.
Botei um casaco e peguei um ônibus. Parei no Shopping Beira Mar, dei um pulinho na feira de tatuagem, vi um amigo que ia se tatuar naquela noite e lá pelas 19:30 parti em direção à Praça XV. Quase uma hora de caminhada ali pela Beira Mar, até o TAC. Foi bom. Fazia tempo que não caminhava por ali. A noite tava tranquila, fresquinha, sem previsão de chuva e com uma lua muito bonita. Não foi difícil achar o TAC, sóbria e seguindo o mapa (heh). Chegando lá, reconheci o Zimmer e o Batavo (ABesta), comprei o ingresso e fui fumar um cigarro lá fora, antes que proíbam fumar em ambiente aberto também… Devia ser umas 20:20, coisa assim. Acho que foi a primeira vez na vida que não me atrasei pro evento, que já tá na 12º edição.
Lá pelas 20:30 mesmo, o local foi aberto e eu peguei uma cadeira na terceira fileira. Não queria ficar muito próxima, nem muito longe também. O TAC por dentro é muito bonito, pelo menos eu gostei do lugar. Não é exatamente pequeno, mas também não é grande. Simplesmente achei adequado pro evento. Acho que lá pelas 20:40 o Peter deu início ao festival, com Diogo de Haro. A iluminação do palco foi interessante, deu pra sacar que foi gradual, de acordo com os movimentos: primeiro um feixe de luz iluminando o músico, depois o piano e depois as luzes amarelas de fundo. Pra mim, o que de Haro tocou soou como uma briga consigo mesmo, em que as duas partes, mesmo concordando entre si, discutiam, não chegavam a um consenso nunca, não havia paz, até que tudo perdesse mesmo o controle e dali sim é que brotava a música livre. É engraçado notar que, depois disso, tudo o que é convencional demais fica parecendo “estranho” ou até mesmo “sem graça”. Algumas partes foram bem dramáticas, e eu gostei bastante da apresentação dele. Não contei o tempo, mas deve ter durado uns 20 minutos.
A melhor parte dos urros verborrágicamente dementes de Amauri Gewdner é a reação da platéia. Algumas pessoas se assustam, outras riem com sinceridade, outras nervosamente. A maioria das pessoas ri, mas é impossível mesmo não rir ouvindo urros retardados. Acho que os únicos que não riram mesmo foram Iwao e del Nunzio que arrumavam no palco a aparelhagem para a próxima apresentação. No entanto, quem se apresentou depois de Haro foi Henrique Iwao, depois que Gewdner silenciou. Se eu pudesse resumir a apresentação em uma frase, essa frase seria “Das coisas que eu não quero que você saiba que eu ouço”. Uns barulhos esquisitos misturados com saladas de músicas pop picotadas, algumas que consegui reconhecer imediatamente e senti uma puta vergonha alheia, mas por dentro pensando “Eu também ouço isso! Que vergonha!”, ou ainda “Eu lembro disso/dessa época!”. Pop, dance poperô 90’s, algumas coisas oitentistas escrotas. De repente essas músicas foram “desaparecendo” gradualmente e só sobrou barulho. Aquele barulho delicioso de disco de vinil repetitivo, como se tivesse calado tudo, calado o pop. Não quero que você saiba que eu ouço. Foi bacana, curti.
Logo depois, juntamente com Henrique Iwao se apresentou Mario del Nunzio, com guitarra. Foi impressionante perceber como esses caras conseguem tocar com as mãos e com os pés, fazendo aquela barulheira impossível. É difícil entenderem que, apesar do som ser espontâneo (e às vezes também, improvisado), não é só por que é barulho que a coisa é feita de forma aleatória. Bem, pelo menos eu acredito que não seja, se existem partituras é por que não é de enfeite, né? No entanto confesso que foi difícil assistir essa apresentação sem ficar com sono, mas depois eu acho (acho…) que entendi por que isso aconteceu. Penso que durante a apresentação do Iwao, a quantidade de informações que a música tinha era tamanha que foi complicado processar a música de uma vez só. Daí, na apresentação do del Nunzio, que eu acredito que era relativamente mais densa (por assim dizer), repetitiva, etc, o resultado foi: sono. Foi como se o meu cérebro tivesse acabado de almoçar uma feijoada e então quisesse fazer uma sesta, por assim dizer. Bocejei. Bocejaram do meu lado e atrás de mim. Bocejos bem audíveis, (in)felizmente (?). Não foi culpa deles, não tava chato, mas aconteceu.
Depois reorganizaram o palco (tiraram o piano e as outras aparelhagens) para a apresentação de Peter Gossweiler que, com toda a certeza, acordou a platéia. Bem, se aquela porradaria toda da bateria não acordasse alguém, paciência. Acho que eu ouvi uns discursos do Papa e do Bush ali e mais um discurso não identificado. Discursos alternados com solos de bateria destruídores e luzes vermelhas pra todos os lados. Foi muito show. Eu já comecei a imaginar algumas coisas também, mas isso é coisa minha: acredito que algumas apresentações do Peter (aliás, não só dele, de quem fosse) deveriam não só ser ouvidas, mas transmiti das num telão. Seria interessante observar os movimentos, as coisas que acontecem, o que estão fazendo de fato. Tem vezes que não dá pra ver, do palco ali do TAC não rolou enxergar. No auditório do Sol da Terra (onde ocorreu os eventos anteriores), se você sentar bem na frente é possível ver tudo de perto, mas de longe também complica. Enfim… Isso foi só uma idéia que me ocorreu. De qualquer forma, a apresentação foi bem bacana.
E pra finalizar a parte que eu mais curto de todos os festivais de música livre, a improvisação final, onde todos os convidados tocam juntos. Não acho que tenha durado muito, os músicos foram abandonando o palco e daí tudo acabou meio que assim,.. Sem acabar. Heh. Ainda assim, foi legal. Acho que foi uma das melhores edições do festival que eu já fui. Eu também cooperei: não me atrasei e estava sóbria, ou seja, contribuí bastante. Não adianta mais chegar atrasada: perde mesmo, e eu não reclamo: isso é bacana (evento que começa no horário) por que dá credibilidade. Coisa fina. Assim que acabou eu saí rápido, sem falar com ninguém. Andando na rua, sentindo um friozinho, eu já começava a pensar em outras coisas, no que comer, em que ônibus pegar, quando fui abordada por 2 seguranças que estavam bem do lado do TAC, que me perguntaram com uma curiosidade absurda e absoluta “Como foi o show?”. Quando falei que “Foi ótimo, foi legal, foi a melhor edição do festival que eu já fui” eles me olharam bem esquisito.
“Não.. A gente só tá perguntando por que teve um casal que fugiu no meio de uma das apresentações. A gente perguntou pra eles por quê eles estavam indo embora eles disseram que era “muito forte” pra eles, etc.”. Perguntei se eles conseguiram ouvir lá de fora alguma coisa do que foi apresentado. “Ah, a gente ouvia alguém berrando.. Mas não dava pra entender nada do que ele falava!”. Eu ri por dentro, mas mantive a seriedade. “Mas falando sério agora moça, o que tocou aí hoje à noite?”. Música experimental. “Ah tá…” balançando a cabeça e olhando esquisito ainda. Eles não conseguiam entender como eu tinha gostado. Eu não consegui conter o sorriso de satisfação. Lembrei depois no caminho de casa que eu tinha lido no DC uma nota bastante convidativa sobre o Festival. Imaginei o casal todo animado pensando que ouviriam algo convencionalmente “diferente”, pra poder contar pra outras pessoas depois. A vida tem dessas coisas…