Uns cigarros
Sinto-me péssima. Um lixo em forma de gente. Sinto muita vontade de chorar. Mas eu sei que não vou. Não por que não quero, mas por que não consigo mais. Acho que talvez nunca mais. Nunca mais por ele, nem por nada que derive dele. Eu nunca vou conseguir me perdoar. Nunca vou conseguir perdoá-lo. Vou viver o resto da minha vida com medo, desse jeito. Me afastando das pessoas que gostam de mim, me afastando de alguns amigos. Tudo, tudo, tudo, tudo pra apagá-lo da minha memória, fazer com que ele finalmente suma, desapareça.
Mas isso não vai acontecer. Nunca. Nunca mais.
As lembranças não se apagam. Elas ficam ali, espreitando, sempre… A vida inteira, o resto da minha maldita vida. O que eu faço é tentar, ao máximo, apagar os ícones que podem voltar a ressucitar essas lembranças. Apago-os todos, sem pensar muito. É instintivo, auto-proteção paranóica. Apago e não me arrependo. Cesso qualquer tipo de comunicação. Tornei-me mais fria do que supunha. Tornei-me mais do que fria, fiquei amarga, vazia por dentro, com um passado oco, que ninguém sabe como é, ninguém sabe mais como foi. Nem eu. Tento (em vão) desregistrar tudo da minha memória. E no processo fiquei muito amarga com pessoas que não merecem, nunca mereceram, nunca me fizeram NADA de ruim pra que eu fosse assim…
Não é justo comigo. Não é justo com eles. Não é justo com a vida.
“Mas quem disse que a vida é justa de qualquer forma?” minha amargura BERRA na minha cara.
“Você precisa fazer o que precisa fazer, mulher!” orgulho e coragem me dizem em uníssono, alto e bom som.
E então eu incorporo todas essas entidades mesmo e faço um juramento Scarlet O’Hara de que eu farei DE TUDO (possível e impossível) o que for preciso pra não sofrer (tanto) novamente. Não me entrego mais (nunca mais). Não acredito mais. Desacredito no verbo amar, acho que é fantasia, que é bobagem, que não existe, nunca existiu e se existe é algo PATOLÓGICO, doentio. Não entendo mais como funciona a afeição com quem quer que seja. Pra mim esses são conceitos perdidos, inválidos, que não me dizem mais respeito, que não consigo entender mais quando enxergo na vida dos outros. Digo que é pouca bobagem, que não vai dar certo de novo, que tudo um dia tem fim. É esse o meu discurso pra felicidade alheia, sempre.
Não deixa de ser verdade, mas eu sei que não precisava ser assim. E eu sei disso.
A amargura em pessoa. Alguém que não perdoa ninguém, nem a si mesma. Alguém que será infeliz até o dia de sua morte. Alguém INCAPAZ.
E essa pessoa sou eu.
Sou a pessoa que não deu certo. Uma mulher quebrada por dentro e que não vai se refazer nunca mais. Não é questão de “você está assim por que quer”. As coisas – infelizmente – não são assim tão simplistas. Gostaria mesmo (MUITO) que fossem.
Agora eu vou ser pra sempre frágil, como ele mesmo me dedicou essa música há muito, muito tempo atrás. A letra (nunca vou saber se ele prestava atenção nisso ou não) são promessas que ele NUNCA cumpriu. Além de frágil, vou ser pra sempre fraca, pequena, pobre de espírito toda vez que o assunto vier à tona, que o passado me assombrar, que eu reencontrar pessoas, ir em lugares, etc. Esse vai ser meu eterno ponto fraco e eu assumo isso, publicamente.
Na minha vida existiam, existem e EXISTIRÃO muitos outros COVARDES que farão questão de enfiar o dedo na minha ferida, sempre que possível pra me ver mal, pra me fragilizar ainda mais, pra tentar me desarmar. Não tenho medo, pois já não tenho mais nada a perder, mesmo. Perdi tudo o que era precioso demais pra mim nesse percurso: minha auto-estima, minha vontade de vida, minha vontade de entrega, minha vontade de AMIZADES perenes. Perdi minha fé em TUDO o que era (e podia ser) bom.
São poucos os pilares que me mantém de pé hoje em dia, mas acredito que me sustentam o suficiente a ponto de eu não enlouquecer de vez. Acho incrível por si só o fato de eu ainda continuar em pé, de me equilibrar no meio fio da vida e ainda conseguir seguir em frente, mesmo que cambaleante, torta e pro caminho ERRADO, talvez. Mas se tudo fosse muito fácil a vida não teria graça nenhuma. Assim como os vídeo-games. O futuro consistirá na emulação de sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Pois hoje em dia as pessoas já estão vazias de qualquer forma.