O verdadeiro esquecimento

2008 Junho 6

Ontem eu presenciei uma das cenas mais deprimentes do ano, pra mim, até agora. Talvez vocês não achem nada demais, mas pra mim, sei lá, me senti horrível por testemunhar aquilo. Foi bem deprimente. Foi por volta das 8h30 da manhã, eu tinha voltado de um exame médico e estava na cantina do lugar onde eu faço estágio. Por causa do horário, lá estava bem cheio, todo mundo querendo ser atendido, tomar café e eu logo percebi que não ia ser atendida tão cedo, mas por mim tudo bem, eu estava de bom humor e resolvi esperar.

Logo na minha frente tinha uma velhinha, idosa mesmo, cabeça branca e tudo o mais. Aparentemente, ela tinha pedido um café. O cara da cantina que estava atendendo ela perguntou umas três vezes seguidas “A senhora vai querer com açúcar ou adoçante?” e ela não respondia. Primeiro eu pensei que realmente, ela não tivesse ouvido. Mas depois que o atendente quase começou a gritar e ela ainda não respondia, eu suspeitei que a coisa pudésse ser bem pior do que eu imaginava.

Olhei bem pra expressão daquela senhora e ela fitava o atendente com um misto de estranhamento e depois de alguns segundos sorria, como se ainda estivesse esperando o café, que nunca vinha. A cantina estava cheia, as pessoas agitadas e algumas já começavam a olhar feio pra velhinha. Foi bastante constrangedor. E eu odeio cenas constrangedoras, mesmo quando não são comigo. Talvez principalmente quando não são comigo. O momento durou segundos, mas pra mim pareceram horas. Ela realmente parecia não entender o que o atendente falava. Foi bem surreal.

Me identifiquei por que já sonhei / pensei algo similar, do meu isolamento ser tamanho, que algum dia quando sair na rua e for em algum lugar, não vou saber me comunicar com ninguém, vou esquecer palavras, esquecer como me portar, esquecer de tudo mesmo. Mas no caso dessa velhinha eu tenho duas hipóteses: ou ela era bem, mas BEM surda… ou ela tem alzheimer (e talvez não saiba) e esqueceu completamente os significados de “açúcar”, “adoçante”. Sei lá né… Nunca se sabe. Aposto na segunda hipótese, só pela cara que ela fazia.

Outra coisa bastante intrigante foi que ninguém que estava por lá, conversou, ajudou ou teve compaixão com a velhinha. Todo mundo só queria ser atendido o mais rápido possível e ir embora. Foi bem estranho, bem angustiante. Simplesmente não consegui ficar por lá pra ver o desfecho daquela situação, fui embora pro meu estágio e só voltei uma hora depois. Aquela cena me impressionou. Passei com ela na cabeça o resto do dia. Deve ser muito horrível perder o controle sobre si mesmo, sobre o que se quer. Sei lá…

Mais tarde eu contei pra ele sobre a cena e sobre como aquilo deprimiu o meu dia. E ele, sempre querendo me fazer rir e sempre melhorando o meu dia (efetivamente), me disse “Vai ver ela não ‘funciona’ antes de ingerir cafeína, o que é um paradoxo. Aposto que depois do café (sem açúcar) ela foi pro departamento de física discutir o paradigma da interpretação de Heisenberg. Vai ver era isso que tava na cabeça dela o tempo todo enquanto o carinha lá enchia o saco dela sobre coisas triviais e mundanas como ‘açúcar ou adoçante’”…

Heh. Hihi.

Fato indiscutível: ele é doce.