Drogas, morte, sexo
how did you get so big?
how did you get so strong?
how did you get so hard?
how did you get so long?
Nine Inch Nails, Ruiner
Essa noite eu tive um sonho muito estranho. Sonhei que estava dirigindo o carro com mais 2 amigos meus dentro. Um era gay e outro era meu amante. E eu era uma mulher muito, mas muito mais esquisita do que sou nessa realidade. O meu amante era um viciado em drogas e estava numa viagem muito doida de não me lembro o quê. Cocaína ou heroína provavelmente, sei lá. Não sei dessas coisas. Só sei que ele estava muito pirado, botando a cabeça e o corpo pra fora da janela do carro, cabelos ao vento, gritando e agindo como um animal. E eu também estava meio “fora da casinha”, mas não me lembro de, no sonho, eu ter me drogado e nem do que tinha usado.
Só sei que eu estava dirigindo e éramos nós três no carro, “muito loucos”. E eu metia o pé no acelerador, e o barulho me fascinava, os gritos, as luzes, tudo aquilo fazia parte de mim e do que eu vivia. Aquele era o meu pequeno cosmos e eu era deusa daquilo tudo, naquela hora. E eu dirigia muito rápido, a velocidade, o vento, a selvageria, tudo aquilo, eu não respeitava nada, não queria respeito, não queria respeitar. Eu só queria dirigir como se a vida lá fora não fosse NADA, como se as ruas não tivessem faróis, nem lombadas, nem pedestres. E realmente não tinham. Passamos do lado de um cemitério grande e aparentemente abandonado, era noite e eu parecia ver as almas saindo de cada uma das sepulturas, como fumaças cinzentas e elas uivavam, eu podia ouvir, mas na verdade eu me queimava com o cigarro e a fumaça sensual saía mesmo era da minha boca… De nenhum outro lugar.
A comunicação entre nós três inexistia. Cada palavra proferida derretia-se no ar (eu podia enxergá-las, derretendo-se) e tornavam-se outra coisa, onde tudo fazia parte de tudo, e tinha cores, sem texto, borrões, redemoinhos, as conversas eram fractais coloridos talvez, infindáveis, inacabados, estáticos. Voltamos ao primitivo, mas um primitivo moderno, onde a transgressão não existia simplesmente por que eu não queria, por que não queríamos, por que “ei, não estamos fazendo nada demais, então você não tem o direito de nos incomodar”. Não existia tempo nem espaço e rumávamos pra uma boca de lixo em algum lugar entre subúrbio e periferia da cidade. E eu não sabia onde estava indo, mas estava rindo, todos estávamos, então estava tudo bem. De repente o amante sentiu uma paranóia muito louca de querer barbear-se, dentro do carro, com uma gilete, no seco, pois não queria ser reconhecido por políciais ou coisa do tipo.
O sonho começou a ficar engraçado quando me toquei que eu estava dirigindo do lado esquerdo (Inglaterra? carro inglês?) o viado no banco de trás estava COMPLETAMENTE apavorado, mergulhado numa bad trip fudida, e que o meu namorado era praticamente um bandido. Comecei a xingá-lo e as coisas ficaram feias, pois eu queria MAIS, ou tudo estaria acabado, eu queria MAIS ou as coisas não seriam como antes, eu queria MAIS e queria AGORA. Mas infelizmente enquanto ele arrancava os pêlos da cara, surgiu um policial uniformizado – que não vimos de onde pode ter saído – e praticamente o arrancou do carro. O amigo homossexual observador permaneceu dentro do carro (ainda apavorado) e eu desci, mais apavorada ainda, com os questionamentos do policial e SABENDO que o meu amante iria apanhar. O que fiz? Nada. Os segui até onde pude e simplesmente presenciei meu amante ser espancado covardemente por um policial. Não tínhamos drogas, não tínhamos nada, mas naquela hora a realidade surgiu pra gente – literalmente – como um soco na cara.
Ele sangrava e se contorcia, no chão. Levou alguns chutes na boca do estômago e vários socos, e cotoveladas. O sangue corria, abundantemente. Não sei quanto tempo se passou, se cinco, dez minutos ou ainda meia hora. Acho que o policial o espancou até que se cansasse e resolvesse ir embora em sua moto. Fiquei assistindo aquilo como se não tivesse fim.. Senti mil coisas diferentes. Numa hora me senti uma santa, vendo jesus sendo crucificado. Noutra, senti que estava vendo um filme barato, de quinta categoria. Noutra pensei que “Oh, meu deus, ele está ACABANDO com o meu namorado!”. Coisa assim. Enfim… Não sei se ele quebrou algumas costelas, mas algo naquela cena ao mesmo tempo que me entristecia, me excitava. Uma sensação de impotência que é excitante… Um tanto quanto contraditório isso não? Depois que o policial foi embora eu permaneci naquele beco, olhando os suspiros e “ais” do meu amante e vendo-o definhar. Eu não sabia o que fazer.
O “normal” seria sei lá… Chamar uma ambulância, ou enfiá-lo dentro do carro e tocar pro hospital mais próximo. Mas eu não queria fazer nada daquilo, tudo muito justo, tudo muito certo, tudo muito CHATO. Permaneci observando-o grunhir de dor, provavelmente dores lacerantes, não sei. Sua constituição era de um homem grande, mas ele não era forte e quando ficava muito drogado, perdia o resto de força que pensava ter. Me aproximei dele, ajoelhei-me perante àquele sangue todo. Estava muito escuro, eu não conseguia enxergar nada, a não ser sua respiração, seus gemidos de dor, e parte de sua silhueta. Senti medo de tocar nele, mas não hesitei. Ele estava frio, mas o sangue estava quente e não mais tão abundante quanto da primeira vez. Entre um quase choro, murmúrios e lamentos eu o fiz levantar e falei que tudo ficaria bem, que logo sairíamos dali, que aquilo não aconteceria novamente. Não lembro se fiz promessas, não lembro do que lhe falei. Lembro que limpei seu rosto, limpei seu sangue e o ajudei a caminhar até quase a esquina, até ele se escorar numa parede mais próxima.
Ele queria pegar ar. Parecia que ele ia morrer. Definitivamente, nunca o vi tão feio. Cabelos, sangue coagulado, cortes pelo rosto. Abracei-o longamente e notei que depois ele não queria mais me soltar. Notei também que as mãos dele passeavaam por lugares onde não deveriam (pelo menos não num momento como aquele) e simplesmente não acreditei que esse ser decrépíto, drogado, arrebentado queria agora, também, ser fodido. Mas como em sonhos tudo é possível, isso aconteceu. Ele provavelmente tinha algumas costelas quebradas, alguns dentes a menos, fedia e seu cérebro tinha virado apenas um punhado de massa cinzenta que não valia nada, mas ainda assim, ele usaria o seu último pulsar de vida pra me comer, numa esquina suja, numa noite fria, no meio do nada. Isso tudo não é excitante por si só? Aliás, no meio do nada não: próximo ao meu carro onde o homossexual nos observava e, também, se masturbava furiosamente. Excitante e nauseante ao mesmo tempo, uma sensação muito única, que simplesmente não consigo definir.
E esse foi o último frame que tive desse sonho, pois ele não teve “fim” propriamente dito, acabou nisso aí, ou se tornou numa outra coisa menos significante que agora não lembro… No mundo dos sonhos tudo pode e infelizmente eu não posso lembrar de tudo: se sonhei outra coisa, se acordei ou sei lá.
De qualquer forma, sonhos em primeira pessoa são muito complicados de lidar pois ao mesmo tempo em que encaro os sentimentos e vontades da “personagem” do sonho (que geralmente sou EU MESMA), também existe o EU REAL (a pessoa que sonha) que TAMBÉM tem sentimentos, sensações, e sente tudo o que a personagem do sonho sente – apesar de sermos as mesmas, somos diferentes. E é muito difícil administrar isso tudo. Eu, enquanto mulher que sonha, durante a maioria desses acontecimentos, sentia náuseas fortíssimas e acordei com ânsia de vômito. Não que esse meu sonho tenha sido tão assim impossível, mas a verdade é que ele é INCOMPATÍVEL com a vida que vivo, com meu estilo de vida, por isso ele “me chocou”, por assim dizer – por que não ME VEJO vivendo isso. Mas a questão é que tudo nesse sonho era tão fascinantemente HUMANO e realista, que eu não consegui me fazer acordar e não consegui RESISTIR à esse sonho, por assim dizer. Acho todas essas coisas tão batidas, essa conversinha besta de sexo, morte, risco, perigo, vermelho. Mas há algum tempo eu já havia parado pra notar que são coisas que estão interligadas e de como o ser humano é baixo, frágil e vive, VIVE com medo e sobrevive (e se multiplica, como um câncer) JUSTAMENTE por causa disso, por pior ou melhor que seja a sua situação.
Sempre acordo dessas maluquices gostando da minha vida que é totalmente privada de “emoções” desses tipos, como as que tive no sonho. Existem sempre os filmes e existem sempre os sonhos onde podemos emular o que quisermos: é tudo uma questão de se permitir sonhar, de saber como alimentar os sonhos e de conseguir administrar (por assim dizer) essa “prática” que é o sonhar..
Então por que eu arruinaria minha vida com essas coisas, não é mesmo?