Sobre a beleza
Beleza não é uma coisa estática. Ela é um conjunto de coisas, uma série de fatores e contextualizações. Mais complexo ainda do que um conjunto de coisas, a beleza por si só tem uma essência muito fina, que não é possível ser vista a olho nu. Ao contrário do que se pensa a beleza não é apenas vista, mas também pode ser percebida e sentida. Não é à toa que nos arrepiamos ou nos emocionamos com certas coisas: a beleza independe do nosso julgamento. O belo é imperativo, sempre. Não precisa de julgamentos ou concessões de nada, nem ninguém.
Mas as pessoas hoje em dia andam completamente insensíveis quanto a isso. A beleza óbvia pode agradar muito às hordas de símios acéfalos que existe e que é visivelmente crescente, mas ela é extremamente irritante aos mais sensíveis, da mesma forma que a beleza absoluta também é. Particularmente, me apetece o tipo de beleza que precisa ser buscada, sempre. Da beleza difícil que precisa ser atingida. Daquela que preciso encontrar. Ou ainda: daquela que precisa me achar. E que me encontra, eventualmente.
Tenho profundo apreço por aquela beleza que se desenvolve de tal forma que, quando no seu ápice, destrói a tudo, como um furacão. E assim como um furacão, de repente, essa beleza já não existe mais, como se tudo ali tivesse sido uma ilusão, como se ela nunca tivesse existido de verdade, mas fosse apenas mais um delírio da nossa mente. E então tudo volta a ser como era antes, e a vida volta ao seu cotidiano, e as pessoas voltam a ser humildes de novo. Mas voltam diferentes, dessa vez. Por isso, a verdadeira beleza não é e nunca será, popular. Por que ela tem um destino próprio, vontades próprias. Por isso às vezes eu insisto em acreditar que ela só se mostra de verdade aos que já tem pré-disposição a transcender.
Essa é a verdadeira beleza: ela se impõe, intimida, imobiliza, faz o mundo parar e devasta todo o mundo dos homens, impiedosamente. E ninguém se opõe, e todos a aceitam, se rendem e sucumbem. E tudo é devastado. Nada resta a não ser ela. E você pode até tentar rejeitá-la, fechar os olhos com medo, mas ainda a vê, a sente, a percebe. E aí já é tarde: ela faz parte de você, agora. Pra sempre.
Pode ser um pesadelo, mas a realidade é que isso é beleza pura.
E pode ser clichê também, mas é verdade. Depois disso, desse “momento de beleza” (que pode durar um minuto ou um segundo), as coisas nunca mais serão as mesmas. Sempre há uma reconfiguração de tudo, internamente. Não foi a toa que já disseram que “Só a beleza salvará o mundo”…
Resistir ao afronto de uma real beleza é algo muito difícil e complexo. Não dá.
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