Pisciana
quando eu o encontrar
não vou ter medo de falar
umas poucas e boas pra ele.
não vou gritar
nem meter o dedo na cara
não preciso disso
não precisamos
não é isso, é diferente
não é dor, nem mágoa, nem rebeldia
é só essa coisa que
a gente sente.
eu minto que não sinto
mas sei.
já ele
não sei
não sabe de mim
e também nem quero
que tenha fim.
fica assim.
e vou dizer tudo atropelado
tudo de qualquer jeito
com aquele olhar semi-cerrado
semi-bêbado, de peixe morto,
de mulher quase morta
serei eu
sereia eu
corajosa
minhas guelras abrindo e fechando
e eu perdendo o ar
e vomitando as palavras
que também vão se perdendo
na cabeça, nos ouvidos
na mente dele.
nele inteiro.
nele todo.
e o mundo vai sumir
todas as coisas irão ao chão
e nada mais vai existir
naquela hora
a não ser meus olhos fixos
a não ser minhas palavras
mortas e tortas,
doces, ameaçadoras
escorregando pra fora da minha boca
enquanto ele ouve
estático, inconformado
incrédulo,
e ele me absorve
e se absurda
todo.
não sou uma mulher que grita
não meto dedo na cara
não tenho nem por que gritar com ele
na verdade
não tenho nada com ele
não tenho
ele.
nem ele eu.
[...]
mas tu te prepara por que
eu vou te dizer poucas e boas cara.
é só uma questão de tempo…
eu vou te dizer umas poucas e boas..