O que me fez sentir mulher?

2008 Março 8
by Dora

Pode até parecer muito bobo e também muito óbvio. Mas o que fez me sentir mulher, foi (pasmem!) um homem. Sério. Um homem de verdade, inteirinho. Chocante uma mulher dizer isso nos tempos modernos não? Também acho. Numa época em que a diversidade sexual é o que impera, dizer isso é um tanto quanto esquisito. Pelo menos eu me sinto inadequada ao dizer isso. Mas no meu caso (fazer o quê…) é verdade. Posso afimar com toda a certeza que me senti “uma menina”, até mesmo “uma garota”, até os meus 23 anos. E eu me referia assim a mim mesma, sempre.

Nunca engoli o papo de “menina-mulher” ou ainda o tal “jeito moleca de ser”. Isso pra mim é eufemismo de guria que quer dar, mas nega, e eufemismo pra puta. Um porre. Se fuder. Acho escroto e pronto. Nunca assumi nenhuma dessas coisas aí. Mas sempre achei que o adjetivo “mulher” esteve anos luz distante de mim. Minha baixa auto-estima, depressão, entre outros problemas emocionais me impediam de enxergar a mulher que existia em mim, então eu sempre me menosprezava e toda vez que aparecia uma oportunidade pra que eu pudesse me diminuir, eu a acatava.

E quando eu falo do homem que me fez mulher, ao contrário do que você deve ter imaginado, não falo do ato de desvirginamento em si, também não falo de um cara com um pau enorme. Amor da minha vida? Não exatamente. Meu pai? Credo! Falo de um cara completamente comum, mesmo. Desses esquisitos que você vê por aí andando na rua, indo pro trabalho. Ou ainda daqueles que quando você vê, não daria nem 0,50 centavos, caso ele estivesse tocando um saxofone no metrô. Falo daqueles caras que não precisam te dizer nada, absolutamente nada pra mudar a sua existência inteira. Falo dos homens que não lhe dão “lição de moral” nem te contam “histórias de vida”. Não sei como e também não sei por que cargas d’água, ele conseguiu, de fato, intimidar e simplesmente fazer sumir a “menina” que existia em mim. Como aconteceu? Não sei. Mágica talvez. De fato, eu sei que é mágico velar o sono de um homem desses..

Não foi meu primeiro. Não será meu último. Mas foi ele mesmo. E foi (aliás, é) muito importante pra mim.

Ano passado a menininha raivosa dentro de mim odiou o dia das mulheres. Tacou fogo. Nunca cheguei a ser absolutamente “contra” esse dia, mesmo por que nunca queimei sutiã em praça nenhuma. Não gosto de militantes nem de pessoas reacionárias demais. Mas da mesma forma, nunca cheguei a ser a favor do dia das mulheres não. Acho que indiferente é a melhor palavra. Até hoje não sei se gosto de mulheres ou não (não no sentido sexual, mas no sentido de ter/sentir simpatia mesmo). Mas a minha tendência é não gostar delas de qualquer jeito mesmo. Até hoje não sei se gosto da minha condição de mulher ou não. Sei lá.. Eu não gosto de gente, bottom line. Pra mim, mulheres são gatos e homens são cachorros. Nenhum presta, ninguém presta (até que provem o contrário), simples assim.

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Duas coisas são bem certas pra mim: nunca mais tive uma amiga muito próxima e eu, pessoalmente, prefiro não confiar (mais) em mulheres. Em nenhuma. Nem na minha mãe. Aliás, principalmente, não confio na minha mãe, apesar de (e justamente por) ela ser quem é.

Se vocês soubessem de metade das minhas histórias, entenderiam que, no mínimo, 50% da minha misoginia/misantropia são completamente justificáveis.

Eu realmente sou uma mulherzinha esquisita e não vejo mérito nenhum por ter nascido assim. Sempre fui esquisita e sempre serei. Meu maior defeito hoje em dia é ater-me por demais a realidade. Tudo culpa do niilismo no qual acredito. Fora isso, sou completamente histérica (homens que eu já gostei/amei sabem bem disso). Por causa do que chamo de “senso de realidade” nunca entendi a paixão por bolsas e sapatos, das mulheres. Só fui entender mais sobre futilidade ano passado, quando entrei numa academia (É… Até o meu lado fútil é mais masculino!). Nunca soube me maquiar direito, embora já tenha me esforçado bastante pra isso. Quando me maqueio, me sinto uma drag queen. Sinto que “há algo errado aí”. Agora que estou com o cabelo raspado vejo minhas fotos de cabelo comprido e percebo intimamente que o meu cabelo parece uma peruca, apesar de, de fato, eu ficar melhor de cabelo comprido. Sei lá,… Essas coisas todas parecem falsas, inventadas.

Minha futilidade é primitiva. Baseia-se em tatuagens, piercings e exercícios, apenas.

Pra mim, ser mulher está tão mais além de bolsas, sapatos e maquiagem. Sempre esteve. Tudo tem seus prós e contras, então não vejo muita vantagem em ser mulher, só algumas pouco aparentes tirando as mais óbvias (facilidades de sedução, de gênero, habilidades físicas e fisiológicas). Por isso nunca me importei com essas coisas. Acredito que eu tenho mais o que ler, que viver, que observar. Acredito numa vida prática, onde não ficamos contando vantagem e nem parando por um dia pra nos lembrar-mos de algo que é uma condição. Condição essa que é tão igual, mas tão diferente nos milhares de casos que existem por aí. Não nego que existem mulheres “que lutam”, mas eu não sou “grata” a elas. Não tenho culpa de não ter nascido na idade média: tive sorte, apenas. E mulheres que não estão nem aí? E as que não se importam e viram amélias? Ou que optam por não ter filhos, por trabalhar, por andar a cavalo, por rasparem as cabeças? Seriam essas menos-mulheres do que “o restante”? Sei não. Devo estar falando merda já. Mas enfim…

Se ser mulher em essência é se limitar apenas a todas essas coisas, então me desculpem… Mas eu não sei o que sou.

Apesar de não me considerar mais “uma menina” e sim uma mulher, tenho plena consciência de que nunca serei uma “mulher completa”, uma “mulher de verdade”. Não cumprirei meu propósito nessa existência por que não terei filhos. Além de ter nascido desprovida de qualquer tipo de “instinto maternal”, tá pra nascer o cara que vai fazer surtir em mim o desejo de ter filhos com ele. Posso estar muito enganada, mas penso que nasci pra ser um espírito livre, independente de qualquer coisa… E filhos dependem de nós, querendo ou não. E a gente precisa sofrer um pouco (só um pouco) na vida pra entender certas perspectivas e ajustá-las de acordo com as nossas necessidades. E acho que já sofri o suficiente. Não penso mais no meu futuro: eu o vivo, todos os dias. As coisas mudam em mim, mas permanecem as mesmas. É complicado explicar, mas com certeza é bonito de observar (quem me conhece, sabe).

De qualquer forma, hoje não sairei na rua, não receberei rosas, não receberei elogios. Receberei “parabéns” de algumas pessoas mais chegadas e isso não fará a mínima diferença pra mim de qualquer forma.. E as meninas continuarão a ser meninas, e mulheres, mulheres… And I?

I’ll just keep on walking, Johnny…