Neguinha, eu?

2008 Fevereiro 19
by Dora

Hoje fui almoçar num restaurante aqui perto de casa. Depois que me servi, a mulher que me atendeu, com um sotaque manézíssimo carregadézimo me falou “Vais querer o quê pra beber neguinha?”. Falei pra ela que queria um suco e depois ela me trouxe. Moro em Florianópolis há um ano e sei que chamar as pessoas assim por aqui, é modo de dizer. Na verdade é até mesmo um modo carinhoso de chamar. No interior do Rio Grande do Sul, se não me engano, também tem disso. Minhas tias, que são gaúchas, me chamam assim, de “neguinha”. Também tenho uma prima, filha de gaúchos, que mora no interior do Mato Grosso, que é branca de olhos verdes e que só atende pelo nome de “Preta”. Até hoje não sei o nome dela… Enfim.

Em primeiro lugar, eu não sou recalcada, apesar de ser parda. Mas fico imaginando que infernos essa mulher que me atendeu, me chamando de “neguinha” não sofreria se pegasse uma “negra/parda nazi-fascista” no meu lugar, daquelas que pensam que absolutamente qualquer coisa seja racismo e/ou preconceito. Aquele “neguinha” ia lhe custar o resto da vida, arruinaria seu emprego, sua família, traria sofrimento aos seus filhos e tudo o mais. Tudo por causa do quê? De uma expressão regional, de uma palavrinha a toa e de uma pessoa que talvez (note o talvez), seja insensível o suficiente pra não mesurar esse tipo de coisa. E eu simplesmente não suporto esse tipo de gente e deixo isso claro aqui e onde mais for.

Durante toda a minha vida, tive muitos motivos pra reclamar de discriminação, mesmo não sendo negra, mas parda. Mas a vida inteira optei por simplesmente ignorar. Opção pessoal, pura e simples. Isso me faz/fez conivente com os meus “algozes”? Talvez sim. Talvez não. Eu só acredito que eu tenho mais o que viver a minha vida, do que ficar me preocupando com superficialidades como cor de pele. Se os outros gostam tanto de se preocupar com isso, problema deles. Não tenho nada a ver com isso. As únicas coisas que sei e tenho certeza, é que sou parda e brasileira apenas, e de que fui criada por um casal gaúcho, branco, de classe média, apesar de não ser filha co-sanguínea deles.

Bem como eles, também não sou tradicionalista: meus pais são gaúchos completamente desgarrados. Não tomam chimarrão e não tem (muito) sotaque. Afinal, fazem quase 30 anos que minha mãe mora no Mato Grosso do Sul. Logo, eles são mais sul mato grossenses do que qualquer outra coisa. Enfim, minha origem termina por aí mesmo. No mais, não peguei muita coisa da educação deles a não ser o pragmatismo e o senso absurdo e patológico de organização de papai e a bondade, determinação e esforço de mamãe.

De qualquer forma, retomando ao assunto, já tive que ouvir uma vez de um senhor bêbado como um gambá, que estava incomodando todo mundo dentro de um ônibus, a seguinte pérola “Vocês só estão reclamando de mim por que eu sou preto e pobre”. Até quando as pessoas vão ficar usando as malditas muletas sociais pra esconderem de si mesmas (e dos outros) os seus problemas? Sério. Isso tá ficando ridículo. Isso me irrita. Profundamente.

Não suporto. Não apoio. Sou contra. Condeno.

Não tenho orgulho algum de nada na minha vida. Meu país não me orgulha e o “meu povo” me envergonha. Não consegui absorver os costumes do estado onde fui criada. Sou filha adotiva de pais desgarrados. Meus pais são brancos, minha irmã, que também é adotiva, é branca. Eu cresci estudando em apenas uma escola até o ensino médio, onde na minha sala eu era a única parda. Uma vez fui estudar com um professor particular, vizinho da minha família e ele achou que eu fosse a empregada da minha casa. Fiquei puta por isso? Dei escândalo? Falei mal dele pro resto do bairro? Chorei? Me recalquei pro resto da vida? Não. Decisão minha. Eu não preciso disso. Nunca precisei. Tanto que ano passado prestei vestibular pra UFSC e, se eu quisesse, eu poderia me inscrever no Programa de Ações Afirmativas. Não o fiz. Já disse: não preciso.

Enfim… Nunca fui chamada de “neguinha” de forma pejorativa, mas já passaram algumas pessoas na minha vida que pisaram na bola, cometeram enganos, mas nem por isso fiquei remoendo. Nunca tratei ninguém diferente, só por que a pessoa me tratou diferente. Simplesmente ignorava. E ignorarei. É assim que eu sou. É isso quem eu sou. Não sei se felizmente ou não mas… Não é a minha cor de pele, pra mim, que define a minha identidade, o meu caráter, e a minha competência (ou falta dela). Sei de onde vim, sei quem sou, sei qual foi minha criação e isso me basta. Não é o que os outros pensam ou deixam de pensar, falam ou deixam de falar, que vai mudar isso tudo. Felizmente.