É ela que eu quero

2008 Janeiro 18
by Dora

Eu prometi não dizer mais nada. Mas promessas são feitas pra serem quebradas, senão a vida não tem graça. Você me puxa pelos cabelos, me diz vem comigo e eu fico. Não vou mais, não tenho mais coração pra tanta emoção.

[Eu e o meu sorriso, falido.]

Não sou mais eu mesma, não sou mais eu, não tenho mais nada do que você gosta. Sinto por isso mais que tudo. Fecho os olhos sempre e ouço vagarosamente a intensidade das minha batidas cardíacas diminuindo pra logo em seguida acelerarem vertiginosamente.

[Não me toque assim.]

O amor bate na aorta disse aquele poeta. A minha aorta bate-estaca, em total disrritmia, quando eu penso naquela fumaça engolida, no beijo dado, na saudade brutalmente escondida, enterrada como um cadáver homicida num jardim sem flores.

[Triste né? Não. Pior.]

Naquele último olhar de abandono que você me deu antes d’eu dizer “deu, adeus”.

[Pra mim mesma.]

Sinto o coração pulsar e sair quase que pela boca, passando antes por aquele lugar onde se escondem o perfume e o suor. Os homens nunca se cansam desse cheiro, de caramelo, acham bom, acham doce, acham estranhamente atraente, um prato quente a ser servido.

[E é aí que elas te armadilham.]

Aquele odor traz conforto, aninho, calma, cuidado, o que eles precisam. É refinado, como um me diria, num dia. E por dentro tudo treme em mim, tudo reinicia, segue o seu ciclo e me trás a tona novamente. Uma nova, uma outra, a mesma, a torpe. Aquelazinha.

[Lembra?]

Vento sul passa pela minha nuca nua, arrepia minha espinha, que insinua uma dor ainda maior em meu ventre, agora vazio de você. Um ventre impaciente, intolerante, intacto, desde então. Morto-vivo. Me deixo de novo, finjindo mil vezes que não. Que não quero.

[Samba do grande amor: mentira!]

Me engalfinhando em mim mesma, abandonada, perdida, achada.

Me perdoe meu amor, por mil vezes, por favor, me perdoe.

Eu sou só uma menina, que ainda não aprendeu a voar.

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