“Nunca serão…”
Falar desse assunto é muito complicado e meio dolorido até, mas foi uma coisa que me ocorreu hoje em certa parte do dia, quando parei pra pensar no assunto. Tenho 2 amigos (vamos colocar assim: moço-01 e moço-02), que não se conhecem, que vieram reclamar pra mim ano passado sobre a mesmíssima coisa: a rejeição afetiva. Ok. Ninguém gosta de lidar com isso direito, mas esse é um fato em que a gente precisa aprender a lidar (às vezes na marra). Eu como filha adotiva, sei bem disso.. Fui rejeitada desde que nasci (E não me venha com “não pense assim…”! Uma ova! Ela, minha mãe biológica, deixou a brecha, então foda-se, penso o que quiser!) .
Bem, a diferença é que ser rejeitada por uma pessoa que você nunca viu na vida e ser rejeitado por quem você ama (gosta, é apaixonado por, “insira adjetivo afetivo aqui”) não é nada discreta. E eu já ouvi mais “não” do que “sim” nessa vida no quesito relacionamentos, então estou muito mais do que acostumada com essa situação… Diferentemente desses meus dois amigos.
Moço-01 é um queridíssimo. Me embala com as melhores histórias. É inteligente e esperto, me faz rir até doer a barriga. Mas eles parece procurar mulheres nos lugares errados e, assim como eu tenho azar com “amizades”, ele também parece ter azar nesse campo sentimental. Mas o que ele tem não é exatamente azar, mesmo por que acredito que ele nunca se apaixonou, nem mesmo amou de verdade, mas até aí tudo bem, bom pra ele, acredito. O problema é que um dia ele veio me falar de uma moça com quem ele ficou uma vez e, repentinamente, ele ficou todo bobo de um jeito que eu nunca tinha visto antes. E aí num segundo momento ele meio que se indignou “Por que ela não quis namorar comigo? Eu não entendo! Não sou tosco, sou inteligente, engraçado, me visto bem e sou boa pinta… Por que? Por que comigo não? Eu não entendo…”
Eu não consegui responder nada pra ele, mesmo por que eu só tive impressões gerais da menina, olhando o perfil dela no orkut. Pensei por um momento, admito, “Poxa, nada a ver essa guria com ele…”, mas ele certamente não pensava (pensa?) assim. A questão é que essas coisas não são exatas, então tudo bem, alguém pode mesmo acabar se apaixonando por alguém nada a ver… Acidentes acontecem, todos os dias. O ponto positivo da coisa toda é que ele é um cara totalmente prafrentéx e de bem com a vida, que não fica esquentando muito a cuca com esse lance de “ela não me ama, ela não me quer!”. Ele simplesmente muda de assunto e segue em frente, é um cara simplesmente brilhante, que ama o que faz, ama a si mesmo, ama outras coisas, cai na balada e vive, vive muito bem. Adoro pessoas bem humoradas e de bem com a vida e esse moço é uma dessas pessoas.
Já com o Moço-02 as coisas não são exatamente tão simples e fáceis. É difícil conviver com pessoas “pesadas”, mas pessoas são diferentes: temos que respeitá-las e respeitar o seu jeito de encarar as coisas e encarar a vida, limitando-nos apenas ao silêncio ou a brevíssimos conselhos. Esse moço sofre como uma mulher e eu não consigo entender como consegue sofrer tanto assim. É uma coisa bem crônica mesmo, lânguida, que se arrasta, como se fosse uma lesma e deixa um rastro, que é pra todo mundo ver mesmo. Às vezes, intimamente, eu fico imaginando se ele não faz isso pra ser um pavão-social às avessas. Não posso falar muita coisa pois, por muito tempo na minha vida, todas as ações que tive e palavras que disse eram pra que as pessoas sentissem dó e pena de mim. Mas felizmente essa época já passou, ainda bem.
Ele não entende como as meninas que ele tanto gosta não conseguem enxergá-lo de forma “diferente”. Não entende como os mocinhos sempre se dão bem, e ele, que não é mocinho, nem bandido, não recebe a atenção de quem tanto precisa e pede, de um jeito todo dele. E tudo é tão complicado, tão difícil e tão impossível na vida dele. Tudo dá errado, tudo acaba numa triste tragédia, ou numa tragicomédia mais trágica do que qualquer outra coisa. Tento iluminar alguns pontos, colocar algumas luzes em coisas que podem ser mudadas e podem ser diferentes, mas é muito difícil convencer pessoas cínicas, inflexíveis e irredutíveis. Quando vejo que não vou conseguir nada mesmo, simplesmente silencio e deixo que a pessoa resolva seus problemas por si só (é melhor assim), ou que vá finalmente dormir e pelo menos esqueça, temporáriamente, da “dor” que carrega consigo.
Eu falo dos meus amigos, mas eu também sei que não é fácil. Soube por sete malditos anos. E também não aguento mais ouvir aquele clichêzão de lascar “a gente precisa gostar de quem gosta da gente”. Porra… As coisas não são assim! Nós somos seres humanos! Sentimentos não são objetivos, nem racionais.. É algo quase que incontrolável, mesmo. E se eu não gosto do cara que gosta de mim? Eu vou ter que me obrigar a gostar dele pra não ficar sozinha? Que porra é essa? Isso é vida? Pra mim não é, cacete.
A grande questão (e a grande verdade) é que nós, eu e os meus amigos em questão, nunca seremos quem nossos adorados e adoradas esperam que a gente seja. Simplesmente por que não é pra ser. E nós temos que aprender a conviver, ao invés de lutar contra isso, nos odiarmos e odiarmos aos outros. Não adianta se revoltar contra a existência. Não adianta querer fazer de tudo pra mudar, ser diferente com o único objetivo de moldar-se aos olhos do ser amado. As diferenças serão notadas, mas as coisas serão as mesmas, sempre. Não é tão simples assim.. Sempre estaremos ou acima do que é esperado de nós, ou não supriremos alguma coisa que falta, não seremos suficientes, ou whatever, N motivos.
Mas, estranhamente, isso não é mais algo que me deixa triste, por algum motivo. Me deixava, quando eu tinha 18 anos. Agora parece que não deixa mais, agora fico serena quando penso nessas coisas e dou um sorriso muito, muito benevolente (sem ironia). Acho que me distanciei tanto de mim mesma e de tudo o que eu sou (e do que eu era mais ainda) que estou numa das fases mais plenas da minha vida. Nunca estive tão bem comigo mesma. Acho que as virtudes e vícios terrenos realmente não me preocupam mais (pelo menos por um tempo). Não digo que virei um ser iluminado não, mas estou numa meia luz plenamente confortável. Eu devo ter sofrido tanto, mas tanto (e por tanto tempo e por coisas tão horríveis), que acho que transcendi os relacionamentos e sentimentos humanos na marra mesmo, só pode.
E parece que é melhor, mesmo, assim.