Balada Existencialista

2008 Janeiro 9

Vem dançar comigo bebê, e me dá aquele sorriso que me faz sorrir de volta sempre pra você. Faz com que as surpresas agradáveis ou não me encantem, todas as vezes. Tudo o que pra você é gigante pra mim é mínimo, mas igualmente encantador, repetidamente. Te ensino passos novos, passos que você nunca deu. Na verdade você não entende o que é música, não tem nem coordenação pra entender o que é ritmo e não sabe o que é dançar. Mas ainda assim é adorável. E eu, com certeza, sou uma pessoa bastante, bastante paciente.

Vem dançar comigo, menino. Não corra de mim. Páre quieto! Preste atenção no que digo, no que falo, no que ensino. Sinta a música. Você consegue ouvi-la? Consegue pensar em passos pra ela? Você e seu cabelo bagunçado. Você e sua camisa pra fora da calça. Você me enlouquece, mas me encanta ao mesmo tempo. Com você a minha paciência é um pouco menor, mas confesso sentir um pouco de inveja da sua vitalidade, despreocupação, total descaso com o tempo e espaço. Te quero bem sempre, mesmo que você não saiba dançar.

Vem dançar comigo garoto! Não, não, não… Nada disso!! Não se apresse. Não pise nos meus pés! Me trate bem! Olhe pra mim. Não dance devagar quando a música é rápida, nem rápido demais em música lenta. Concentre-se. As coisas não são como parecem e nem tão fáceis quanto se apresentam. Tire a mão daí! Dançar não é isso. Não é assim! Quem te ensinou essas coisas de rua? De onde você aprendeu isso? Quem te falou que isso é o que é o certo? Não tenho paciência contigo, você simplesmente está fora do ritmo da vida.

Vem dançar comigo, rapaz. Saíremos pelas ruas, dando risada e dançando na chuva. Eu te dou um trago, fumaça, álcool e um beijo doce se você prometer ser bom pra mim. Você é tão calmo e tem um ritmo que me parece bom. Você não me atormenta e não me exige nada demais. Cola seu corpo no meu sem eu pedir, e não me deixa mais em paz. E a gente dança a noite toda e tudo e nada mais faz sentido. Nos perdemos nas ruelas esquecidas de uma cidade morta, de pessoas mortas como se fossemos os únicos sobreviventes. E somos.

Dança comigo, cara. Não sei se você gosta de mim, mas eu gosto de você mesmo assim por que você tem ritmo. O meu ritmo. Você é sinuoso, você é o cara, é você quem eu quero e preciso. Quando danço sozinha, sinto a tua falta, a tua voz, você me conduzindo… Mesmo quando às vezes parece que nem está comigo. Seu olhar distraído, esquecido em pensamentos longínquos, pensando num futuro que nunca chega e idealizando relações que nunca se dão. Ei… Eu te quero, cara! Dança comigo vai? Não vou pedir outra vez. Acho que não vou pedir nunca mais.

Um homem veio e dançou comigo uma vez. Me fiz de desentendida, fiz corpo mole como aquelas bonecas de pano, mas acabei cedendo. Eu não estava preparada, não sabia o que fazer, nem como agir. Coloquei no piloto automático e segui o ritmo que deveria fazer. Ele me ensinou passos novos, coisas que eu nunca tinha visto antes. Aprendi tudo com o maior cinismo que eu poderia ter na minha vida. Acho que nunca fui tão feliz e triste ao mesmo tempo. Não me sinto mais preparada, nem arrependida. Me sinto mais eu.

Aquele senhor se deu ao trabalho de me tirar do conforto do meu lugar pra dançar bossa nova comigo. Fui de bom grado. Nada mais tenho a perder. Dançamos bem devagar, na areia, perto do mar, onde as estrelas e desconhecidos nos cercavam. Ele dizia que se arrependia de muitas coisas e eu não dizia mais nada. Apenas acenava com a cabeça e sorria. O coração dele batia lento, percebi pela sua pulsação. Mas os seus olhos sorriam pra mim, como se me vissem pela primeira vez. E brilhavam. Aquele senhor brilhante se iluminava olhando pra mim.

E a minha última dança se deu num mar negro e estrelado. Lembro que foi um dos dias mais felizes da minha vida. Bom mesmo é saber de tudo um pouco e saber demais. Aprender todos os dias, ensinar todas as vezes, repetidamente, mesmo que você perca a paciência no percurso. Aí sim, quando chega no fim, é que você dança salsa de frente pro abismo sem esquentar muito a cabeça com mais nada. Se equilibra na linha e dança, sinuosamente, todos os passos que aprendeu, com formosura e precisão. Um espetáculo pra qualquer olhar. E, ao estar no abismo, envolta pelo ritmo da salsa, um passo a mais, nunca é demais. Não é mesmo?

Hoje eu danço além, eterna, pra sempre. Eu sou a música, sou o ritmo, o som que chega em todos os ouvidos atentos e distraídos. Entendo aqueles ouvidos, entendo aqueles desejos. Percebo aquele tempo, aquelas ações, aqueles homens, aquelas expectativas todas, queridas, ardentes, desejadas. São dois pra lá, dois pra cá: simples assim, complexo assim. E eu não me canso, nunca mais. Ponho uma flor vermelha nos cabelos, mexo os braços, mexo as mãos, entendo o meu corpo todo, um templo e eu, a única. E continuo dançando… Com eles, com meu lenço e minha flor, comigo mesma,… Com tudo. E com nada.. Com nada.

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Vem dançar comigo bebê,… E me dá aquele sorriso que me faz sorrir de volta sempre pra você…