She got a TV eye on me…

2007 Dezembro 26
by Dora

Acordaríamos. Na verdade eu fingiria que ia acordar e esperaria que ele me apalpasse, até que começássemos a fazer sexo. Faríamos qualquer coisa parecida com sexo, sem amor, sem paixão, nada. Algo puramente sacana e mecânico mesmo. Não éramos dois amantes, não éramos nem mesmo dois amigos. Éramos dois desconhecidos pra nós mesmos. A única intersecção ali era o sexo, a qual nós dois conhecíamos bem. Apenas isso. Mas logo eu me cansaria (entediaria, pra variar), ele não gozaria (eu muito menos) e iniciaríamos o dia como se fosse qualquer outro sábado. Provavelmente com a leitura de alguns sites diários e assistindo algum desenho japonês, ou seriado ou filme interessante que estivesse passando na TV entre uma conversa trivial e outra.

Conversaríamos sobre algumas coisas. Provavelmente ele me falaria muitas coisas nas quais eu não estaria nem um pouco interessada em ouvir, mas ouviria e prestaria atenção e tentaria entender o que ele diz e assimilar aquilo. A gente almoçaria alguma coisa feita em casa por mim. Ele até que gosta da minha comida, das coisas que eu faço. A cozinha é pequena, mas dá pra nós dois. Depois do almoço eu provavelmente me entediaria e iria dormir mais um pouco, ou mexeria na internet, qualquer coisa do tipo. Ele me dava sono, tédio e vontade de não fazer nada na vida, a não ser ficar deitada, dormindo, fazendo manha e tipo. Não saímos de casa. Não gostamos muito de movimentos, de pessoas na rua, de muvuca nem de incomodação. Sair de casa só se for muito necessário, comprar comida ou coisa do tipo.

Na verdade a gente até tinha assunto. Gostávamos de muitas coisas em comum. Mas não saíamos de casa. E conversávamos somente o necessário. Ele sempre falaria mais, apesar do nó na minha garganta e da vontade de dizer mil coisas que ele também nunca, nunca, nunca entenderia. Bem como eu não entendia as dele. Mas, diferentemente dele, eu calava ao invés de forçá-lo a entender. Inteligência da minha parte? Acho que não. Acho que era medo. Um medo irracional de observar as negativas e/ou indiferenças (que também não deixa de ser uma negativa) vindas dele. Ficava quieta, olhando-o. Às vezes ele me perguntava por que eu o olhava tanto e eu nada dizia e seguia olhando. Eventualmente me cansava e, sabendo que nada ia mudar de qualquer forma, parava de fitá-lo e voltava à grudar os olhos na TV.

Assistiria a qualquer coisa que ele me recomendasse, por mais idiota que fosse, e partilharia da opinião dele só pra não me distanciar demais. Eu me anulava. Às vezes esquecia de mim. Até que uma hora eu deitei na cama e quis dormir. Na verdade queria morrer, perecer ali mesmo. Eis que ele chega, se deita ao meu lado, e com aqueles dedos macios, finos e frágeis começou a massagear levemente o meu couro cabeludo. Meu cabelo tinha sido cortado bem curto, há pouco tempo e ele, como sempre, pra variar, não notou. Naquele exato momento, eu quis muito chorar. De ódio. De raiva. De amor. Mas me contive e nada falei. Fiquei paralizada e mal respirava, enquanto ele mexia na minha cabeça. De certo ele achou que eu estivesse dormindo, não sei. Tentei me concentrar num sonho e dormi. Felizmente mergulhei num sonho que me tirou daquela realidade doída.

Eu não merecia aquilo. Nós, talvez, não merecessemos mesmo. Estava certa do que queria, só não tinha a coragem pra provar isso a mim mesma… Por muito, muito tempo. Todos os outros dias seriam iguais ou parecidos com esse, até que tudo desandasse e as coisas não fossem mais as mesmas. Até que cada um decidisse seguir a sua vida e percebesse que aquilo ali não era nada e não tinha nada a ver. Percebesse que a vida era mais que aquilo, que aquela prisão, que aquele engano. Até tornarem-se completos desconhecidos pra si mesmos, de verdade.. E não de mentirinha como vinha acontecendo.