O Futuro do Conteúdo – Parte I
[Nota - isso é parte de um artigo distribuído, veja o post anterior para explicações]
O Futuro do Conteúdo
por Martin Weller
Nessa seção eu irei argumentar que o conteúdo digital irá ser gratuito e amplamente disponível no futuro por causa de dois argumentos que se complementam: o argumento da economia e o argumento da qualidade.
O Argumento da Economia
Onde quer que o conteúdo possa ser digitalizado, está tendo um efeito profundo na economia que é a base do o modelo de negócios, e a forma que a sociedade usa e pensa sobre aquele conteúdo. Nessa seção de abertura, quero observar dois exemplos de como a digitalização de conteúdo nos levou a mudanças significativas em várias indústrias.
Jornais
Vários jornais ignoraram o mundo online por muito tempo, assumindo que os consumidores iam querer as notícias da mesma forma de sempre. Agora que eles foram forçados a mudar todo o conteúdo deles para deixá-los online, eles estão encontrando um novo modelo de negócios para lidar com isso. A esperança inicial era que essencialmente o mesmo modelo se aplicaria, que as pessoas pagariam por conteúdo. Mas o modelo de pagamento pela cópia, micro-pagamento e modelo de assinaturas todos falharam. Recentemente o New York Times fechou as assinaturas para o negócio do TimesSelect e deixou o seu conteúdo gratuito. Apesar disso não fazer dinheiro o suficiente, a razão parece ser que o modelo de assinatura feria o modelo alternativo de propaganda, que é dirigido pela audiência global que acha o seu conteúdo.
Vivian Schiller do The Times comenta “O que não foi antecipado foi a explosão de quanto o nosso tráfego seria gerado pelo Google, pelo Yahoo… Nossas projeções para o crescimento daquele assinante pago eram baixas, comparados ao crescimento de propaganda online”. Em outras palavras, é melhor ser de graça para todo o mercado do que ser pago por uma pequena seção.
Música
Um outro exemplo das mudanças massivas trabalhadas numa indústria pela digitalização de conteúdo é a indústria da música, onde assim como os jornais foi lenta e resistente a mudanças. A última chamada para a realidade para a indústria musical foi o Napster, quando de repente milhões de usuários estavam trocando músicas e álbuns sem pagar por eles. Isso foi parcialmente um resultado de querer ter algo de graça, mas também foi por que o Napster facilitou o comportamento que foi a descoberta do conteúdo e a função social da música. Através do Napster os usuários podiam achar outras bandas que eram similares, fazer uma amostragem de diferentes tipos de música, achar outros usuários com gostos similares e, o mais importante, fazer tudo isso do laptop.
Eventualmente, o iTunes viu a indústria achar um modelo que pareceu agradar ambas as partes. Os usuários poderiam fazer o download de faixas individuais a um custo relativamente baixo, e também engajar na descoberta de conteúdo através de playlists partilhadas.
O LastFm e Pandora levaram esse aspecto social um pouco mais longe, por juntar as ações dos usuários para contruir uma rede de artistas, para que você apenas digite o nome do artista e seja capaz de ter uma estação de rádio personalizada tocando faixas similares. Você também pode pode achar usuários com gostos similares, entrar em grupos, ver eventos que estão por acontecer, etc. Você não pode obter música através desses sites e você não pode pedir um álbum específico, mas quando a riqueza da escolha se torna tão grande, talvez isso se torne menos significante. E enquanto isso o software de partilha de arquivos está de volta, com aplicações tais como o Limewire permitindo que os usuários partilhem arquivos de novo.
A internet também mudou o relacionamento do artista com as gravadoras. Cada vez mais bandas estão estabelecendo uma presença online, permitindo downloads grátis de sua música para construir uma seqüência, turnês e gravar álbuns, e só então buscar um selo. Mesmo esse último estágio se tornará redundante uma vez que os CDs finalmente desaparecerem. Como Chris Anderson argumentou no livro Cauda Longa
“Nesse ponto, os artistas não precisam mais de gravadoras. Os consumidores não precisam mais de gravadoras e eu acho que as gravadoras, ao invés de tentar proteger o negócio que elas têm, precisam perguntar a si mesmas qual é a sua relevância.”
Mudando o nosso relacionamento com o conteúdo
Me concentrei nos dois dos exemplos mais óbvios aqui, mas existem muitos outros. Por exemplo, onde o áudio vai, vídeo irá em seguida uma vez que a banda larga é suficiente pra isso. Então para televisão tradicional nós estamos vendo modelos de assinaturas se tornando cada vez mais difíceis de manter. Isso foi parcialmente afetado pelo BitTorrent que permite o download de arquivos AV grandes. No momento isso permanece algo de habilidade técnica, mas uma vez que se torna mais fácil e viável, então DVDs substituirão logo os CDs.
Bem como a mudança das economias de base da indústria, ela altera a forma com que nós nos relacionamos com o produto original. Voltando a musica de novo, em Everything is Miscellaneous (Tudo é Miscelâneo), David Weinberger sugere que a digitalização de conteúdo tenha alterado nossas percepções do que nós pensávamos ser a unidade básica da produção musical:
“Por décadas nós temos comprado álbuns. Nós pensávamos que era por razões artísticas, mas na verdade era realmente por causa da economia que o mundo físico requeria: agrupar músicas em álbuns longos reduzia a produção, o marketing e os custos de distribuição… E assim que a música se tornou digital, nós aprendemos que a unidade natural da música é a faixa.”
Nick Carr não concorda com Weinberger, colocando a estrutura artística do album, usando Exile na Main Street como um exemplo mas Clay Shirky argumenta que se fosse assim, então sobreviveria a digitalização. Quando você olha no iTunes isso não é confirmado – a maioria das pessoas baixam o Tumbling Dice. Digitalização fez da faixa a corrência, e então os usuários começaram a criar as suas próprias playlists fazendo remixes das faixas. Além disso, as pessoas estão indo mais em shows e festivais – pessoas pagarão pelo evento ao vivo, mas menos pelo conteúdo que o sustenta. A digitalização mudou nosso relacionamento com a música, com os artistas e gravadoras. Para sempre.
A Segunda Lei de Shirky e a Lei de Conteúdo
Em 2003 Clay Shirky escreveu um artigo chamado Fame vs Fortune: Micropayments and Free Content (Fama versus Fortuna: Micropagamentos e Conteúdo Livre), no qual argumentou que micropagamentos (que ele definiu como “pagamentos de entre um quarto e uma fração de centavo,”) falhariam. Ao mesmo tempo houve interesse considerável, e crença, em micropagamentos como um modelo para empresas de Internet. Sobre as tentativas frustradas de micropagamentos ele disse que “eles falharam por que a moda entre conteúdo livremente oferecido é uma mudança de época, para qual micropagamentos são uma resposta sem sentido”. Onde quer que publicação análoga tenha custos inerentes, essencialmente o custo do formato, armazenamento e transporte, a publicação digital não tem.
O custo envolvido então é o dos criadores, e online o criador se torna o publicador. Eles então irão encarara um dilema, argumenta Shirky, de fama e fortuna. Num mundo de publicação análoga você poderia ter ambos, uma vez que para poder alcançar fama muitas pessoas precisam ter lido o seu livro ou comprado o seu álbum. Se pessoas online são resistentes em pagar, então cobrar pelo seu conteúdo limita o seu potencial de fama. Como ele coloca em um outro post em 2007, criadores estão “na posição de ter de decidir entre tamanho da audiência (fama) ou restringir e cobrar por acesso (fortuna), e que o desejo por fama, não mais moderados por custos de produção, geralmente ganhariam.”Nós chamaremos isso de Segunda Lei de Shirky (a primeira é geralmente dada como “Diversidade mais liberdade de escolha cria desigualdade“, uma precursora do Cauda Longa), que é dada a escolha entre fama e fortuna, a fama ganha.
Isso, combinado com o que nós vimos acima me levou a propôr a lei de conteúdo, que eu penso que vai ao encontro do que irá acontecer ao conteúdo no futuro:
“Conteúdo digital quer ser livre, e irá buscar o caminho para o acesso máximo.”
No livro Blown to Bits, Evans e Wurster argumentaram que o mercado digital tem visto a desagregação da economia da informação e produto físico. Isso é mais prontamente visto em retail, onte você tem que ver o objeto físico numa loja para saber sobre ele, mas online a informação do produto é separada. David Weinberger explora as implicações dessa desagregação de forma mais profunta, na que permite recategorização infinita por que a informação, diferentemente do produto físico, pode estar em vários lugares ao mesmo tempo.
Vamos considerar um possível exemplo futuro, o de livros. Quando a web se tornou popular pela primeira vez haviam algumas sugestões de que livros iriam desaparecer uma vez que poderíamos baixá-los de graça. Isso não acoanteceu por um número de razões:
- Transporte – livros são fáceis de carregar por aí, e não ficam sem bateria, podem ser usados num trem e não requerem um dispositivo especial.
- Facilidade de uso – livros não requerem programas de ajuda especiais, podem ser usados pela maioria da população, tem boas características de navegação e são bons em apresentar texto, comparados às pequenas telas de alguns dispositivos que podem ser facilmente manuseados.
- Valor Cultural – nós gostamos de livros como artefatos sociais. Poucas coisas causam tanto desgosto entre pessoas civilizadas como ver livros serem queimados ou desecrados. As pessoas tem uma profunda afeição acerca da natureza tátil do livro.
Por essas razões, combinadas com a avançada descoberta de conteúdo facilitada pela Amazon e cia, as vendas de livros estão indo muito bem desde a chegada da Internet. Mas vamos considerar o que aconteceria se o papel digital realmente chegasse (apesar de várias proclamações tinta digital e papel tem sido extremamente difíceis de fazer, mas esse não é o ponto do meu argumento). Parecia papel de verdade, você poderia ter ele acoplado a livros como papel real, você podia escrever nele como em papel real. Mas crucialmente o conteúdo que ele disponibilizaria mudaria, você poderia procurá-lo e ele gravaria todas as anotações que você fez.
Mesmo como algo de um bibliófilo, isso começou a parecer tentador pra mim. Eu gosto de ter livros como objetos nas minhas estantes, mas eu costumava ter discos de vinil e CDs também, mas agora eu só tenho MP3 (e prateleiras vazias). Se papel digital fosse tão bom ele superaria os três benefícios dos livros acima, e então ele teria vantagens significantes sobre o papel de verdade.
Como a indústria de publicação de livros ficaria então? Eu ia sugerir que a Segunda Lei de Shirky e a Lei de Conteúdo se aplicassem. Qual seria o papel dos publicadores? Se você não pode baixar uma cópia de livro no seu livro de papel digital, então boa parte do que o publicador faz desaparece. Eles não precisam providenciar impressão, produção ou distribuição. O que eles podem providenciar é o marketing. Mas é aí que a Segunda Lei de Shirky se torna relevante – alguns autores começarão a liberar seu conteúdo de forma que seja mais acessível (a não ser que você seja a JK Rowling, a maior parte do custo de um livro vai para o comerciante e o publicador para cobrir todos os custos associados com o formato análogo). Como autor você pode apenas pegar 10% e ter que fazer a maior parte do trabalho, então por que não vendê-lo para isso e gerar interesse online? Então um outro autor decide que na verdade o que eles farão é disponibilizar os livros de graça, por que dessa forma as pessoas se linkam nele, citam ele, misturam com overlays do Googlemap, ou qualquer coisa assim. Ser livre e aberto gera muito mais tráfego.
Para a indústria como um todo a Lei de Conteúdo está agora em operação. Livros agora são conteúdo digitais que querem ser libertos e ter audiência máxima. Publicadores precisam achar um novo modelo de negócios e relevância, ou desaparecerão.
Como George Siemens coloca “Consumidores, como os aprendizes no futuro, terão um relacionamento dramaticamente diferente com conteúdo do que tiveram no passado. Publicadores, diários e outras indústrias centristas de conteúdo precisam prestar atenção nessas lições e ajustarem-se antes que se tornem a próxima estatística”.
O argumento da qualidade
O argumento que eu mencionei acima sugere que a economia será o principal fator na liberação do conteúdo e tem se focado em indifíduos em pequenos grupos criadores de conteúdo. O segundo fator é que irá melhorar a qualidade de muito conteúdo através da distribuição do processo.
Aqui temos uma analogia poderosa no processo de seleção natural que nos mostra que um processo vastamente distribuído pode produzir coisas de grande complexidade. Como Daniel Dennett discute no Darwin’s Dangerous Idea (A Perigosa Idéia de Darwin), a grande contribuição de Darwin era remover a necessidade para intervenções top down (ou sky hooks na metáfora dele) em qualquer explicação de como complexidade biológica é alcançada:
“Cranes pode fazer o levantamento de nossos skyhooks imaginários, e eles fazem de um modo honesto e não questionadora… Skyhooks são levantadores miraculosos, inapoiáveis e insuportáveis. Cranes não são menos excelentes como levantadores, eles tem a decidida vantagem de serem reais”. (pág. 75).
O cego, mas distribuído processo de seleção natural foi suficiente para fazer todo o levantamento requerido no espaço do design biológico. Seleção natural é distribuída sobre vários indivíduos numa espécie s sobre um longe período de tempo. Isso permite que mudanças pequenas, mas incrementais produzam uma complexidade cumulativa. A internet permite distribuições similares entre indivíduos, mas diferentemente da seleção natural, cada participante não é burro, ou cego, ao processo, ainda o processo em sua totalidade seja consideravelmente mais rápido, e nós não temos que esperar milhões de anos pelos resultados.
O que a internet e a web 2.0 em particular, alcançam é essa massiva distribuição da tarefa. Bem como antes de Darwin não existia nenhuma forma de complexidade biológica sem algum designer, sem o input top-down, tantos dos críticos da web 2.0 falham em entender como você pode alcançar a sofisticação relevante requerida para, digamos uma enciclopédia, sem um processo top-down ultra controlado e centralizado. O processo de democratização que a web 2.0 trouxe é a chave para entender por que eles estão errados.
Pegue a fotografia como um exemplo. Existem muitas pessoas por aí que são fotógrafos bem bons, algumas que são ignorantes das habilidades específicas requeridas, mas que tem talento natural, outras que tem algum conhecimento, e outras ainda que são especialistas em certos tipos de fotografia. Eles foram todos amplamente ignorantes entretanto do processo requerido para se tornarem fotógrafos profissionais, de como partilharem suas fotografias quando a partilha é controlada pela economia da distribuição e uma autoridade top-down. Com o advento do Flickr todas essas pessoas podem agora partilhar suas fotos. O resultado é uma explosão de criatividade e fotografias reais inegáveis de alta qualidade.
Os críticos da Web 2.0 diriam que se você comparar qualquer fotógrafo aleatório do Flickr com qualquer fotógrafo profissional aleatóri, o que o segundo ganharia, por que eles passaram pelo processo de filtragem. Mas isso é mal-compreender totalmente a natureza do processo distribuído que agora se estabelece. Claro, se você escolher qualquer fotógrafo aleatório no Flickr então você provávelmente vai achar coisas bem medianas, mas o resultado do processo como um todo é a produção de ilhas de complexidade. E mais, por causa do processo de filtragem tradicional está no modelo top-down tende a fazer a opinião profissional convergir, o que você consegue do processo bottom up é uma gama bem maior de criatividade e estilo. Em termos evolucionários, o primeiro processo é como inter-procriar enquanto o segundo é análogo para aumentar a piscina genética.
Isso é o que críticos como Andrew Keen falham em apreciar em seu criticismo da web 2.0 e conteúdo gerado pelo usuário. Não é a comparação de qualquer um indivíduo com outro, ou qualquer artefato que é insignificante, mas comparação entre os processos. E quando estamos falando sobre produzir complexidade, a distribuição em massa ganha sempre.
Então a segunda razão pela qual o conteúdo se tornará livre é que apenas por removê-lo dos confinamentos dos pagamentos e estreitarmos controles de direitos, certos tipos de conteúdo podem ser melhorados. Nós vimos isso acontecer com softwares open source, e com o conhecimento geral na wikipédia, mas também ocorre numa base menor com posts de blogs, podcasts, etc, onde o produto geral é melhorado por ser aberto, e então incorporando o uso, comentários e feedback.
[Terminado para Ray Corrigan dar continuidade a segunda parte]
Fonte: The Ed Techie, The Future of Content -Pt1, em 24/09/2007.
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