O não-continuum

2007 Outubro 29
by Dora

O vento entrava devagar pela janela e me acordava de repente. Era uma noite perdida de fevereiro e estava muito quente. Estava num sono leve quando acordei no meio da noite como sempre acontece. Abri os olhos e a vi na minha direita. Ela dormia, toda branca, virada pro outro lado, respirando devagar. Eu não sabia se ainda estava num sonho ou acordada. Olhava pras paredes do quarto, em tons de laranja, o cheiro de incenso ainda era forte. Ainda estava noite lá fora, a janela dizia. Eu não sabia se estava consciente ou não, se aquilo era sonho ou não e isso me preocupava, um pouco. Virei os olhos vagarosamente pra minha direita e ele dormia profundamente, de barriga pra cima. Era um homem grande e o coração dele era tão grande que eu podia ouvir a pulsação mesmo sem encostar na sua pele.

Durante o dia, o tom da pele dele era rosa quando ficava muito calor, mas agora com a luz do quarto ele ficava com uma morenice muito atípica. A franja do cabelo caía no rosto e ele não parecia sentir, dormia profundamente e respirava. Pra conseguir percebê-lo melhor, esfreguei os olhos e prestei atenção nele com mais persistência, mas ainda me encontrava no limiar entre sono e realidade, sem saber direito o que estava acontecendo. Mas aquela respiração com cadência suave, aquela imagem, aquele momento de tranqüilidade inabalável que ele exibia, me prendeu. O movimento da caixa toráxica, a pulsação que eu percebia na jugular dele, o rosto tranquilo da inconsciência, um estado completamente relaxado, leve, suave. Não existia dor, desespero, felicidade… Existia só ele, de verdade.  E naquele momento, naquele exato momento, parecia que, para conseguir a alma dele bastava eu estender a minha mão e pegá-la. Eu estava, de fato, anestesiada e acanhada ao mesmo tempo.

Me sentia como um bicho arisco espreitando a presa com muita calma, sentindo o momento e esperando instintivamente o tempo exato de algo que estava por vir. Acho que nunca na minha vida tinha sentido aquilo, por nada, nem ninguém. E o que eu sentia também me era muito estranho. Mas eu não queria me apressar, eu não tinha pressa. Por mais que eu quisesse eternizar aquele momento mais do que tudo naquele mesmo instante, simplesmente limitei-me a velar o sono dele e esperar pelo que pudesse acontecer. Sabia que aquele momento seria meu, sabia que ia tê-lo, mas não sabia exatamente como. Notei cada detalhe, cada poro, cada pêlo do seu rosto e tronco e limitei-me simplesmente a observá-lo e observar sua respiração de muito perto. Ele não se mexia, não roncava, não falava, nem fazia barulhos estranhos, simplesmente ressoava o respirar de um sono muito profundo e tinha um semblante de quem não estava ali.

E eu o observava apenas. Cuidadosamente. A respiração dele me embriagava de tal forma que eu não conseguia entender porque e nem queria entender, naquele momento. Até então tinha ficado no meu lugar, sem me mexer ou querer acordá-lo. Mas gradualmente fui sendo como que magnetizada por aquele respirar, aquele mar, aquele contínuo imutável, inconsciente, desfeito de si. Aquela pureza, aquela leveza que constrastava quase que brutalmente com a consciência dele. Fui me aninhando vagarosamente e cheguei bem próximo dele, onde o meu nariz quase podia encostar no seu e ele ainda não tinha acordado. Eu podia sentir a respiração dele no meu rosto e o hálito dele incrívelmente tinha um cheiro doce. Eu o olhava, ele dormia e respirava em mim e eu não fazia nada além disso. Naquele momento, naquele exata fração de momento, ele era meu. E sentia que uma parte de mim havia mudado por isso. Mas naquele momento eu só tinha impressões rasas e muito, muito contidas.

Achava que ele não fosse acordar nunca, mas em algum momento ele abriu os olhos e me viu ali. Ele nem se mexeu. Não pronunciou palavra, apenas me deu um olhar carinhoso de bom dia e depois encostou seus lábios nos meus, como se pra me cumprimentar. Mas logo percebeu que eu não queria beijos. Fechei os olhos, inspirava a respiração dele, e aquilo me embriagava de tal forma, que nunca vou esquecer. E ele não esboçava reação, não reagia ao meu olhar embriagado, permanecendo num estado que borrava a linha entre a indiferença e a curiosidade. Não me perguntou “o que você está fazendo?”. Não sabia também se estava acordado ou sonhando, mas entendia a situação e entendia o meu desejo. E naquela hora eu perdi completamente a noção de tempo e me perdi nele. Não lembro quanto tempo ficamos nos comunicando através de olhares, muito próximos um do outro, sem fazer absolutamente nada, apenas trocando impressões e respirações. E acredito que essa tenha sido uma das cenas mais subjetivamente sensuais de toda a minha vida.

Nós simplesmente deixamos o momento passar e acabar. Não havia tensão, não haviam perguntas, só nós, existindo. Eu, a perceber a respiração dele e ele me olhando. Não tenho certeza mas acredito que tudo tenha acabado com um sorriso tímido e eu me recostando em seu coração e dormindo ao som daquelas batidas vivas e descobertas. Não sei o que ele sentiu na hora, mas depois ele comentou comigo. Não sei como ele sente isso hoje, mas tenho isso guardado num canto interessante da minha memória, o das coisas que marcam, que me fascinam, que me mantém curiosa, justamente pelo fato de serem mais simbólicas e significativas. Não houve ação e houve tudo. Concluímos o propósito para qual nos encontramos, de verdade. E depois o tempo seguiu, mas aquela cena nunca chegou a ter um passado próprio, pois ela é, agora e até nós morrermos, contínua na nossa memória. Ela é tudo o que nunca houve. O beijo que não foi. A relação que nunca se deu. O sexo que existiu apenas num outro plano. O eu que nunca foi nós.