PoA – I/V
Florianópolis/Porto Alegre, 16/10, terça-feira.
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Não dormi aquela noite. Não conseguia. Não tinha como. Vários fatores me levaram a ficar acordada, um misto da insônia de dias passados, excitação e uma mochila que ainda não estava arrumada. Devia ser umas 4 horas da manhã e eu ainda estava fazendo qualquer outra coisa que não fosse dormir, ou arrumar minhas coisas. Só fui realmente começar a fazer algo de fato acho que lá pelas 6 da manhã. Tinha ficado assustada por que na verdade só no dia anterior é que fui perceber que já vigorava o horário de verão. Mas é a tal da coisa, a minha vida naquele ponto estava como a música “Ando meio desligado, eu não sinto os meus pés no chão…“ e como eu já sou desligada naturalmente, estava com princípio de sono e ainda tinha alguns quilômetros pela frente, a paranóia foi certa.
Acho que saí de casa com as minhas coisas devia ser umas 7h30, naquela terça feira nublada. O ônibus sairia só às 9h30, mas eu tinha pressa, por que sou naturalmente lerda. Deixei a casa virada de pernas pro ar e fui, ouvindo Bill Hicks, pra ver se o humor continuava bom, apesar do sono, cansaço, paranóia. Era cedo e as pessoas estavam entediadas e com sono indo para as suas vidas e eu estava indo pra minha (It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me… and I’m feeling good…), num misto bizarro de cansaço e excitação, onde tudo seria bem diferente do que eu já estava acostumada, por um tempo. Estava indo conhecer uma cidade nova, várias pessoas e uma pessoa em especial. Mas a minha vida gosta de me pregar peças, como eu costumo dizer. Minha vida é uma porra de um filme.. O filme mais estranho que eu já vi. Minha mente e meus desejos se fundem com a realidade de uma forma mágicamente surreal! But hey,.. I like that!
Quando desci no terminal do TICEN, me senti num momento de glória. Afinal, várias coisas boas me aguardavam num futuro a 10 horas de distância. Eu estava cansada, com sono, podre… Mas visivelmente radiante. Qualquer pessoa podia ver isso nos meus olhos E eu tremia por dentro só de pensar na minha felicidade futura. Eis que, olhei pro relógio e eram quase 8 horas, coisa assim… E, por um acaso do destino, tive um pensamento singelo e maligno. Me permiti ter aquele pensamento pois eu o julgava impossível de acontecer, de fato. Juro que pensei breve e malignamente comigo mesma “que interessante não seria se o meu ex passasse por aqui agora mesmo e me visse, de mochila nas costas, olhinhos brilhantes, cara de alucinadamente feliz e radiante partindo para um futuro não muito distante de felicidade e plenitude”. Pronto. Foi eu concluir o pensamento que o vejo andando em direção a plataforma da qual eu estava saindo. Eu simplesmente não pude acreditar naquilo. Claro que fingi que não o vi. Não queria perder tempo, nem dar explicações, nem nada. Fiz que não vi, mas vi. Agora, por deus, me digam: vocês conseguem imaginar a probabilidade de uma coisa desse tipo acontecer? E por que esse tipo de coisa só acontece comigo? É possível entender uma coisa dessas?! Pra mim é complicado..
Mas enfim,.. De qualquer forma, guardei a risada interna comigo, mudei de música no iPod pra desviar o olhar, segui em frente rumo a rodoviária, tentando deixar o passado literalmente pra trás, tentando não pensar mais em nada além da minha viagem e no futuro. Felizmente sucedi. Acho que estou ficando realmente boa nessas coisas, deve ser a prática. A viagem foi tranquila, tirando o fato de que tive que me socializar por boa parte dela com um desconhecido. Mas até que foi bacana, morri de dar risada com as histórias que ele contou e com as manias do cara. Acho que a única coisa chata de verdade na viagem foi o ônibus foi parando em algumas cidades e em vários lugares, pessoas diziam ter comprado passagem no meu lugar. Uma certa desorganização inconveniente da Viação Catarinense, mas não me importei tanto por que só tinha comprado a passagem de ida. Foi legal também quando tava entardecendo e fomos chegando ali pros lados de Osório/RS e foi possível ver as usinas eólicas… Que medo que me deu daquilo! Ao mesmo tempo que pareciam leves obras de arte, pareciam também monstros gigantes catadores de ar.. Nunca tinha visto nada parecido, só em fotos e na TV. É um troço muito imponente mesmo. Enfim… Era pro meu ônibus ter chegado às 19h, mas acabou chegando quase às 20h.
Fui a última a descer do ônibus, quando cheguei em Porto Alegre. A rodoviária de lá é enorme e eu não estava com pressa pra descer, mesmo. Na verdade eu só acho que estava nervosa pra caramba. Podia não ter ninguém lá e eu ter que esperar. Podia me perder, ter que fazer alguma ligação, sei lá.. Qualquer coisa assim. Mas não aconteceu isso. De dentro do ônibus, mesmo sendo a última a sair, vi ele lá fora me esperando pacientemente. Me senti uma presa. E foi ótima a sensação. E bem como eu imaginei por quase 10 horas, quando eu desci do ônibus não houve “oi”, não houve “foi bem de viagem?”, mas às vezes é assim que as coisas são mesmo. Depois de um tempo, passadas três horas onde a gente se perdeu e se achou algumas vezes, resolvemos ir no Cavanhas, ali perto e depois dar uma volta em algumas ruas da famosa cidade baixa.
Por incrível que pareça, era terça feira a noite e ainda assim tinha gente na rua, nos barzinhos e tudo o mais. Passamos também na frente do Opinião onde ia ter show do Cannibal Corpse naquela mesma noite (16/10) e tinha bastante gente por lá também. E pra mim era tudo muito fresco e muito novo, muita informação ao mesmo tempo de uma nova realidade.. Eu me esforcei pra que tudo não passasse rápido demais (como sempre acontece) pra que eu não esquecesse das coisas, das palavras, das conversas… Mas isso é coisa que a gente esquece e não adianta. Mas consegui curtir tudo (o que é importante) sem ficar – muito – tonta. Acho que é assim que um bairro boêmio de verdade funciona mesmo, independente do dia da semana. Adorei (re)conhecer Porto Alegre, tendo em vista que já tinha ido pra lá quando pequena (tenho parentes em São Leopoldo), mas sempre tinha ficado na barra dos meus pais, indo onde quer que eles fossem. Dessa vez fui “sozinha”. Mas que nada.. A bem da verdade é que passei acompanhada o tempo todo de mim mesma de calças. E foi ótimo.
[ Continua... ]