Festival Música Livre | Zbigniew Karkowski, ABESTA, Pan&Tone e Colorir

2007 Agosto 5
by Dora

Minha meias ainda estavam molhadas, mas mesmo assim eu coloquei o all star (sem meias) e saí de casa. Meu ipod não ia me deixar na mão. Um frio de lascar lá fora. Vento sul pra caralho. Tinha certeza que ia chover. Aliás, tava chuviscando um pouco até. Mas eu não ia ficar sábado a noite na internet nem a pau. Ainda mais sabendo que “tinha coisa pra fazer na rua”. Isso por que já tinham me falado disso há dias do evento, mas os dias passaram tão rápidos.. Isso por que passei a semana inteira trancada dentro de casa fazendo nada, mas sábado eu precisava tomar um ar. Gelado, que fosse. Precisava tirar o meu mofo humano. Oh well…

Não lembro que horas eram quanco cheguei no TICEN. Só sei que quando eu ia pegar o ônibus pra Lagoa, eu vi um italiano perdidão lá e ajudei ele com o cartão a ir de volta pra casa. Ele falava um portunhol selvagem e a gente até que se entendia, mas enfim.. Notei que ele tinha dentes bonitos demais pra um europeu. Até que a conversa se estendeu pra caramba, com direito a chás, ervas, incensos, limas, bossa nova e um pouco mais. Ok: e muito mais. Até que olhei no relógio e vi que eram 10 e meia e eu estava na Barra da Lagoa ainda, com uma conversa pra lá de agradável. Dei tchau, troquei telefone, e-mail e o que foi possível e peguei o primeiro ônibus pra Lagoa de novo. Não tinha muito mistério: Afonso Delambert Neto, 855.

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Não nego que estava ansiosa e com medo de chegar lá. Por N motivos. Não encontrar ninguém conhecido era um deles. Encontrar alguém conhecido seria outro. Não encontrar ninguém, nem nada, mesmo, era outro. Mas desses três aconteceu o primeiro, e, por incrível que pareça foi até fácil lidar com isso. Mais fácil do que eu imaginaria que fosse. Cheguei atrasada (00h20m), mas, felizmente o evento atrasou também então comprei o ingresso mais tranquila, pois um workshop ainda estava acabando. “Tem cerveja?”, e o moço simpático me mostrou uma Bavária Premium.. “Manda”. Não conhecia ninguém lá. Ninguém mesmo. Me assustei com o ambiente. Achei que ia ser um lugar tosco, com gente tosca, mas parece que (por mais que eu esteja morando aqui há 7 meses) eu meio que esqueço quase sempre que não moro mais em Campo Grande e que não vou mais em quebradas de shows punk.

Tá. Agora vão dizer que eu “tô escrota por que mudei de cidade” e que eu “tô menosprezando as minhas raízes”. Pra quem for me dizer isso eu só peço encareci
damente uma coisa: me prove o contrário, por favor. Caso consigam (o que eu duvido) eu juro que repenso no que acabei de escrever. Espaço cultural em Campo Grande? É ruim hein?!

E não é questão de menosprezo com a minha cidade natal, mas eu não posso negar que a diferença de ambiente/pessoas é simplesmente brutal, em praticamente todos os eventos que fui e até mesmo em lugares comuns que vou no dia a dia. O Espaço Cultural Sol da Terra é um lugar fino, tem um jardinzinho na frente, banheiro decente, um lugar bem legal. Um lugar convidativo mesmo, que você se sente bem em estar ali. Eu só estava me sentindo esquisita por não estar me sentindo adequadamente vestida pra ocasião e também por não conhecer ninguém dali. Mas não esquentei muito a cuca com isso não. Nunca esquento. É perda de tempo e juventude.

A bavária premium tinha quase chegado na metade quando disseram que a apresentação ia começar. Devia ser umas 00h40, but then again, who fucking cares? I don’t. Sempre fico em dúvida de onde sentar quando entro num teatro, ou num lugar onde preciso escolher onde sentar. Mas dessa vez eu não me fiz de rogada nem um pouco e sentei na frente, queria ver tudo de perto. Tá certo que tem o lance de acústica e papapá… Mas porra, é sábado, eu tava com metade de uma cerveja na mão (e a outra metade na cabeça) e eu odeio física. Sentei na frente, abri meu diário velho e comecei uns rabiscos que agora mesmo nem eu mesmo entendo o que significam, mas vamos lá.

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Tinha bastante coisa naquele palco. Coisas vintage, que lembram caixa de teremin. Amplificadores vestidos de zebrinha e oncinha (um luxo!). Aí eu não sabia quem começou a tocar. Só sabia que era uma guitarra e uma caixa/baquetas com uma distorção sinistra. E tinha fiozinhos nas baquetas, na caixa, por tudo. Aliás, tudo foi filmado e vai aparecer no YouTube qualquer hora dessas. O barulho foi nervoso, o chão tremia, tudo naquela sala tremia, mas acho que lá tinha isolação acústica. O barulho que a baqueta fazia com aqueles fios realmente tava me pegando até que o cara simplesmente resolveu destruir (!) a caixa com a baqueta. E aquilo fez um barulho novo, e ele rasgou, quebrou tudo mesmo e – não sei como – teve a peripércia de passar a caixa – já devidamente rasgada – pelo corpo. Sério: se ele entalasse ali, seria extremamente hilário, mas felizmente isso não aconteceu. E foi a partir desse momento que a palavra “experimental” teve um sentido novo pra mim. Na mesma hora eu pensei que, uma coisa é você ouvir esse “som” em casa. Mas você ir até um evento e passar pela experiência, vivenciar aquilo que está sendo produzido, toma uma dimensão completamente diferente, um significado diferente mesmo. Existe uma enorme diferença entre você simplesmente ouvir um instrumento ser utilizado até a sua exaustão, e de você ver isso ao vivo, na sua frente. O impacto é muito maior. E o nome dessa banda é Colorir, e eles são daqui de Floripa mesmo.

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Em seguida ABESTA, também de Floripa, tocou. Coisa simples: 2 caras, 2 mesas, cerveja. Cabos e mais cabos. Conversa aqui, conversa ali e eu vi que ia ser uma coisa diferente, mas mais brutal. E eu não me enganei: o som dos caras foi de uma violência divina. Eles realmente estavam se divertindo a valer com aquele videogame em alta voltagem. Às vezes pareciam estar competindo como se estivessem num fliperama.. Algumas notas realmente me soavam como pontos a mais. E era barulhento e divertido, com a caveirinha simpática a girar e a luz estroboscópica quase me fazendo ter um ataque epilético (mentira!). Tá: a violência era pura, o som não era exatamente seco, mas poxa.. Os caras socavam os “instrumentos” com carinho. Ok, eu sei que instrumentos entre aspas parece estranho mas vá lá, aquelas mesas pareciam mesmo um instrumento de mil cordas pelo barulho infernal que faziam. Enfim, a única coisa que eu, enquanto jornalista, leiga e curiosa posso dizer sobre noise (depois de ter assistido a tudo isso ao vivo) é que noise é que nem sexo bom. Bom, pelo menos lembra um pouco. Explico: apesar de ser completamente caótico e inesperado, os caras sabem exatamente o que estão fazendo, mas ainda assim é um lance totalmente espontâneo, improvisado, cheio de olhares e sinais que só eles entendem. Tá, essa analogia foi meio tosca.. Mas foi a única coisa que me veio em mente, afinal, ninguém faz um som desses por fazer.. Faz por que gosta e fazem bem.

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Terminada a apresentação d’ABESTA, logo entra na sala um cara com o laptop e o inicia rapidamente. Depois de um tempo, apagam-se as luzes e eu penso “e agora, como eu vou fazer as anotações?”. Aí pensei de novo “fodam-se as anotações, vou curtir”. O recinto estaria completamente sem luz se não fosse uma luz fraca no teto e a luz estroboscópica virada pro chão. Depois de algum tempo surgiu não sei de onte um cheiro de queimado (provavelmente da luz estroboscópica virada pro chão de carpete! eu fiquei mesmo com medo que aquilo fosse pegar fogo). Sabe… Hipertensos não podem assistir um troço desses. Me faltou fôlego em algumas horas, principalmente nos silêncios. Depois de mais algum tempo de ruído, aquilo começou a ficar inquietante pra mim. Não conseguia ficar sentada na cadeira. Juro. Não que eu não gostasse do que eu estava ouvindo, muito pelo contrário: eu senti uma vontade bizarra de levantar da cadeira e dançar. Chacoalhar o corpo esquizofrenicamente mesmo, sem sentido nenhum, mas dançar! Mas é lógico que não fiz isso, seria o mico do ano. Mas a vontade existiu forte de curtir o hype (rá!). Mas me contentei apenas com dois gritinhos. O final foi apoteótico, geral subiu no palco e todo mundo fez um barulho que vai reverberar na minha memória por algum tempo. Nunca vi coisa parecida. Muito bom mesmo.

Depois que tudo acabou, eu não consegui sentir os aplausos e nem a luz clareando a minha cara. Fiquei lá, estarrecida no meu assento, pensando em um turbilhão de coisas. Não consegui me mexer por uns três minutos. Aí depois de uns 10 minutos resolvi ir lá fora fumar um gudang pra ver se eu conseguia relaxar. Eu tremia por dentro e não era de frio. Enquanto eu fumava – e tremia – resolvi observar uma conversa entre o Karkowski e uma mulher que até então eu desconhecia. E eles conversaram sobre muitas coisas, não vou lembrar de todas, mas uma frase que ele me falou me deixou passada. Karkowski disse algo como “Se existe mercado? Claro que existe mercado. Existe mercado até pra assassinos em série”. Nuss.. Matou a pau! O cara é muito irônico. E foi várias vezes durante a conversação. “Avant Garde não existe. Quer coisa mais extrema que silêncio?”. Aí Isabel – com quem conversei depois – falou “Mas você fala como se estivesse fora da cena!” ao que ele respondeu prontamente “Mas.. que cena?” e ria. Gente! O homem me deixou passada. Ele me pareceu muito bem humorado e sarcástico, um cara tranquilo mesmo. Depois conversei um pouco mais com Isabel e ela foi bem bacana comigo, me deu uma atenção legal e um cartão dela. Também conversei com Paulo, dono de uma loja de cds. O resto das pessoas não sei o nome. Só sei que bebi cachaça e consegui um resto de Heineken que não poderia ter vindo em hora melhor.

Aí o lugar foi fechando e as pessoas que ainda estavam lá íam pra um churrasco true metal aí. Aí eu fui embora, pois alguma hora isso tinha que acontecer de qualquer forma. Mas a minha noite ainda não acabou. Fui andando até o TILAG pra chegar lá e ver que ele estava fechado (!). É, eu não sabia que os terminais fechavam de madrugada. Aí fui pro ponto mais próximo. Chego lá, tem três pessoas sentadas, dois caras e uma moça. Aí a moça loirinha vira pra mim e diz “você estava lá na apresentação do Karkowski?”. Aí começamos a conversar e vi que ela curte algumas coisas que eu também curto, Merzbow, Whitehouse, Throbbing Gristle, Einstuerzende Neubauten.. Tudo isso por influência dele. Fiquei de cara. Simplesmente não acreditei, mesmo. Aí fomos conversando até o TICEN. Trocamos telefone, e-mail e eu acho que consegui mais uma pessoa pra ir tomar cerveja comigo, quando eu estiver entediada. Muito bom!

E eu fiquei lá esperando o madrugadão das 3h30 que me largou na UFSC. Mas eu tinha as minhas músicas, então eu estava bem, dançando sozinha no terminal por meia hora. Voltei pra casa e tinha 2039842938429038438534 mensagens no msn, por mais que eu tenha deixado claro que estava fora. Felizmente, a maioria das pessoas estava ausente ou offline. E a partir daqui, você pode voltar pro início do texto pois foi aí que tudo (re)começou.

Essa noite foi boa.