Você consegue distinguir o que sente?
Uma das coisas que eu mais detesto nas pessoas em geral é a incapacidade de distinguirem o que sentem. Tá certo que nem todo mundo é esperto pra esse tipo de coisa mas ainda assim, isso me irrita profundamente. Ainda mais quando elas negam não só pros outros, mas pra si próprias o que sentem. Não sei se negam pra reprimir o sentimento ou por que simplesmente não se tocam da coisa mesmo. Ou, ainda pior, pra ter aquela sensação de “liberdade”. Aí criam aqueles relacionamentos inomináveis, aquelas anomalias e coisas bizarras às quais não podemos dar nomes, mas que existem, só que ninguém sabe explicar porque. Um exemplo rápido: “eu fiquei com fulano”, o que hoje, já é absolutamente normal. Só não é normal quando o ficar se extende por 3 meses ou mais que isso. Independente do que for.
Depois de um tempo invariávelmente algumas coisas começam a aparecer: cobranças, questionamentos e principalmente saudades, suspiros, vontade de ficar junto, etc. Se isso não existe, é por que, de fato, não é nada. Se essas coisas existem, por que não se assume um namoro logo? Do que as pessoas tem tanto medo? Perder juventude? Ela vai ser (muitas vezes já está) perdida, independente da sua “liberdade” ou não. Se comprometer muito cedo? A vida é comprometimento, com trabalho, com as pessoas, com as coisas que você gosta… Por que não com uma pessoa? Ridículo a forma que algumas pessoas parece que gostam de complicar a vida, de complicar tudo, inclusive as coisas simples…
Exemplificando com algumas coisas que já ouvi:
“Ele não é meu namorado. Nos vemos direto, ele até já foi lá em casa, meus pais o conhecem. Ele não sai com outras meninas, eu não saio com outros caras… Mas nós não estamos namorando!” (Arrã. Sei.)
“Estamos juntos há algum tempo, mas eu não diria que é um namoro. Eu gosto dele até. Ninguém é de ninguém, eu ainda quero curtir enquanto sou jovem.” (Jovem? Qual a tua idade mesmo? Treze anos ou um pouquinho mais do que isso? Ah,.. vinte e cinco. Ah, tá. Just asking. [Que coisa ridícula..])
“Eu gosto dele, sinto ciúmes, mas não quero nada sério. Não sei explicar o que sinto.” (Então deita por que tu já morreu, filha.)
Depois de uma certa idade, frases como essa vão se tornando bastante ridículas..
Sem falar também que tem aquelas pessoas que estão de fato namorando, mas nem parece. Fala do respectivo significant other como se falasse de uma planta ou qualquer coisa do tipo..
“A gente tá namorando. Até que eu gosto dele sim, está sendo legal.” (Não senti firmeza. Ainda mais por ser início de namoro, que é a época de maior rasgação de seda mútua..)
Será possível que tudo isso é muito normal, de verdade, ou eu sou a pessoa mais antiquada que eu conheço?
Se assumir, em tudo o que for, é essencial.
Quando eu entrei na faculdade eu tinha um professor maluco, – porém, adorável e admirável – que era uma mistura de filósofo / jornalista / psicólogo e bradava aos quatro cantos que “amor não existia” (o que deixava as aluninhas indignadas) e que não existia nada disso de “sentimento”, e que só existiam “interesses”. Bom.. Tudo bem que ele gostava de pensar assim, mas eu acho – sempre achei – muito mais fácil dar nomes às coisas. Sei lá.. prefiro dizer “eu te amo” mesmo, ao invés de dizer “eu tenho um interesse afetivo por você”. É mais simples e não deixa de ser legítimo. Bem,.. Pelo menos ele sabia distinguir o que sentia, apesar de dar nomes bizarros aos seus sentimentos.
Eu demorei pra aprender a distinguir as coisas que sentia, mas eventualmente isso acabou acontecendo. Uma coisa que eu fazia antigamente e me deixava muito mal era reprimir as coisas que sentia, mas hoje não faço mais isso por nada. Se amo, deixo claro; Se odeio, também. Sentimentos não tem – nem nunca tiveram – propósito definido. Aliás, pouca coisa nessa vida tem propósito. Por que você odeia? Por que você ama? Por que se importa? Se nada disso realmente te importa, por que ainda está vivo? É simples assim.
Tem gente que vem me perguntar se o meu namoro está bom. Ora pois, se não estivesse, não estaria namorando! Na verdade, nem teria começado a namorar! Aí logo em seguida falam “Ah, é bom mesmo ter um cobertor de orelha no inverno”. Pode ser chatice da minha parte, mas quando falam isso – ou qualquer coisa equivalente – percebo como as pessoas já desvalorizaram o “namoro” na sociedade. E também estão desvalorizando o meu namoro, então eu levo a mal mesmo! Respondi categoricamente: “Cobertor de orelha se arranja em qualquer esquina, namorado decente, não!”. Sei lá, parece que as pessoas que ficam muito tempo sozinhas começam a ver as coisas de forma completamente distorcida. Não nego que até eu mesma antigamente enxergava as coisas de forma tosca, mas de uns 2 anos pra cá, o bom senso tem falado mais alto..
Antes eu achava que a frase “ninguém é de ninguém” era a coisa mais linda do mundo e que era assim mesmo e ponto final.
Hoje eu tenho a total certeza que, antes de qualquer coisa, bom senso e sinceridade, acima de tudo, são muito mais válidos do que qualquer frasezinha metida a libertária.
É muito bom ser libertário. Quando se é jovem, muito jovem.
Mas já fazem alguns anos que não ando mais gostando de pensar a curto prazo.
Tá certo que a idéia de envelhecer ao lado de alguém é algo que nunca me apeteceu muito não, mas… É bom pensar em alguém pra cuidar de mim quando meus pais não estiverem mais aqui pra isso. Aliás, na época que eu tava sozinha, quando eu falei pro meu pai que queria ficar solteira pro resto da vida ele me falou “O homem e a mulher foram não foram criados à toa. Ninguém fica sozinho pro resto da vida”. Tá certo que ele desconsiderou os homossexuais nessa aí mas enfim… Mudando a primeira frase, “Pessoas não foram criadas à toa”. E ele não deixa de ter um pouco de razão.
Acho que ser sozinha, sem família e bem sucedida, pode até ser uma coisa mais comum do que eu imagino, mas pelo que eu vejo, é coisa de uma dentre milhares de pessoas. Bem,.. Quem pode, pode né?